Omissão dos Espíritas

Leonardo Arantes Marques

No movimento espírita brasileiro, é tendência dominante mantê-lo tranqüilo, qual água de um lago, parada, sem ondulações..., esquecidos os espíritas de que a água estagnada, quase sempre, se deteriora. Enquanto a água boa para saciar a sede é a que se agita, na correnteza dos rios.

0 espírita, doutrinado pela literatura mediúnica, é um conformado, no sentido de quem espera na providência divina a solução dos problemas dos mais variados tipos.

Nos movimentos de reivindicação profissional, principalmente por um salário mais justo, quase sempre o espírita está disposto a se omitir, na equivocada suposição de que vai comprometer a sua imagem junto aos companheiros de doutrina espírita. Mas depois desfrutará dos benefícios do seu salário reajustado, por força do movimento reivindicatório.

Na política, se ele se aventura a disputar um cargo, vai advertido de que é missão sacrificial... Nesse particular, Divaldo Pereira Franco, respondendo a uma pergunta "sobre a participação dos espíritas na Constituinte e na Política", disse, sensatamente, que "se os espíritas se alijarem, os espaços serão preenchidos por outros e eles não terão o direito de censura". ("Bahia Espírita' -"FEEB discute Movimento com Centros" - Ano XVI - n° 68 - setembro/outubro/ 85, pág. 3)

E aqui prestamos nossa homenagem à memória do confrade Freitas Nobre (SP), que perlustrou a política com muito descortino e dignidade, inclusive foi líder do seu partido na Câmara Federal. Lembramo-nos de sua atuação de destaque no Congresso Nacional, na sessão em que Tancredo Neves foi eleito Presidente da República: um deputado do Estado do Rio de Janeiro contestou a forma de se votar simultaneamente para Presidente e Vice-Presidente da República, estribado em normas legais disciplinadoras das eleições, ao que respondeu, incontinente, contestando, o deputado Freitas Nobre, defendendo o sistema de votação, que se iniciava, citando dispositivo constitucional. Venceu Freitas Nobre! Sentimo-nos emocionado com a atuação proeminente de um espírita, num momento histórico da vida política do nosso País. Mas Freitas Nobre não conseguiu se reeleger, em 1990, ficou na suplência de deputado federal; contudo, a estafa da campanha minou-lhe as forças e ele desencarnou.

Os espíritas estão de tal forma doutrinados contra a política que nem votam em candidato espírita: o confrade, só pelo fato de se candidatar, fica sob suspeição, quanto à sua convicção espírita.

No Espírito Santo, quando fomos presidente da Federação Espírita do nosso Estado, de 1980 a 1986, a colega de diretoria Almerita Ribeiro do Amaral candidatou-se à vereança de Vitória e, na sua propaganda, num folheto, registrou sua condição de espírita e de diretora da Federação. Pelas críticas que ouvimos de alguns confrades, que não perdoaram Almerita por ela ter propagado sua condição de diretora da Federação, não nos causou surpresa a pequena votação que ela recebeu e, mesmo assim, os votos, seguramente, não vieram dos espíritas.

Alias, ocorreu outro fato com Almerita: entrevistada num programa de televisão, sabendo o entrevistador que ela era espírita, perguntou-lhe:

-0 problema da seca, com que se debate o povo nordestino, é uma provação?

Ao que respondeu Almerita, sem pestanejar:

- Acho que não. Deve-se ao descaso do Governo, a quem cabe solucionar o problema irrigando o solo.

Um confrade, que assistira ao programa, comentou conosco sua decepção com a resposta da Almerita, por dois motivos: primeiro, por ela ter feito crítica ao Governo; segundo, por não ter atribuído a uma provação o sofrimento do povo castigado pela seca.

No campo do sexo, o espírita é doutrinado para não ver no relacionamento sexual uma fonte de prazer: o sexo é sagrado, sua função primordial é a procriação. E pensar que, na vida conjugal, o relacionamento sexual é usado para a procriação apenas algumas vezes, sendo que, na maioria absoluta das vezes, ele se dá mesmo por prazer. E não se pode pensar de outra forma, sob pena de se correr

o risco de o Espiritismo se transformar numa fábrica de homens efeminados e mulheres frígidas.

Qualquer divergência de ordem administrativa nas instituições espíritas, que se recorra, inclusive, à decisão judicial para a sua solução, a exemplo do ocorrido, há alguns anos, com a Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro e com a Federação Espírita do Estado de São Paulo, é motivo de lamentação e de alvoroço nos meios espíritas, porque o espírita está convencido de que ele não pode errar, se lhe exige perfeição integral. Aliás, é esse espírito de perfeição que leva o espírita a não protestar contra nada, não oferecer sugestões, com medo de claudicar.

A omissão dos espíritas mais se avulta na sua passividade ante atuação vexatória do movimento espírita brasileiro, tão dinâmico nos Estados, Mas que, a níveis nacional e internacional, quem dá as cartas é a Federação Espírita Brasileira, com seu pseudo-espiritismo roustainguista.

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