Práticas doutrinárias na associação espírita

Associação Cultural Espírita

Tema apresentado pela Associação Cultural Espírita no CONSELHO FEDERATIVO NACIONAL da FEDERAÇÃO ESPÍRITA PORTUGUESA EM DEZEMBRO DE 1998

  1. Introdução

    Tendo em vista a grande procura por parte das pessoas de uma idéia que lhe dê respostas às questões que as tradicionais religiões não dão, é de prever que, com a contínua e progressiva divulgação do Espiritismo vá aumentando o fluxo de freqüentadores nas associações espíritas. Nesse sentido, urge repensar as práticas doutrinárias nas associações espíritas, tendo em vista as expectativas das pessoas e aquilo que devemos oferecer às pessoas: uma visão o mais correcta possível acerca do Espiritismo.

  2. Práticas doutrinárias

    Quando se fala em práticas doutrinárias dever-se-ia englobar todas as actividades da associação espírita, no entanto, geralmente abrange-se aquelas actividades que de um modo mais directo têm impacto sobre os frequentadores: o atendimento, a palestra pública, o passe espírita e a reunião de desobsessão. Vejamos pois algumas considerações sobre estas e outras actividades, sem que com isso pretendamos esgotar o assunto. Apenas referimos assuntos, ideias, que, ou já tiveram relação com a nossa actividade ou tivemos delas conhecimento dentro do movimento espírita português, sempre com o intuito positivo de auxiliar a melhorar a situação actual.

    1. O Atendimento. Entendemos por atendimento ao público, a actividade de ouvir a pessoa que vai pela primeira vez à associação espírita, em busca de informações, de conhecimento ou de auxílio. É imprescindível que todas as associações tenham uma reunião de atendimento ao público. Não se confunda atendimento com recepção. A recepção é o acto normal de receber a pessoa, conversar um pouco com ela, fazer sentir que a associação também é sua, de maneira que ela se sinta à vontade. Deve ocorrer logo na primeira vez que se depara com uma pessoa nova na associação. Seria útil a associação possuir um desdobrável, explicando qual a sua actividade, objectivos, e o que é o Espiritismo. Seria, digamos uma espécie de montra que poria a pessoa mais à vontade. A associação espírita deve ter um dia próprio em que se faça o atendimento ao público, em privado, e não efectuá-lo no dia da palestra ou de outra actividade. Aí, a pessoa é ouvida, o seu assunto é analisado à luz do Espiritismo e é-lhe dada uma orientação de molde a que ela saia do atendimento com a luz da esperança acesa no coração. O atendimento deve ser efectuado apenas pelos trabalhadores que tenham condições para isso, e que sejam da irrestrita confiança dos dirigentes da casa espírita. O ideal seria ser sempre uma equipe de atendimento, no mínimo de duas pessoas, uma de cada sexo, tendo em conta a perspicácia de cada um deles. Além disso, o facto de estarem duas pessoas pode servir de travão a veleidades por parte de pessoas menos preparadas que estando sozinhas poderão prejudicar a imagem do Espiritismo. É claro que isso nunca deveria acontecer, mas, nem sempre as pessoas que fazem o atendimento têm condições para isso (ver colóquios efectuado pela FEP, sobre este assunto). O atendimento deve ser sempre gratuito, nunca, em situação alguma cobrando preços de fichas de inscrição, pois aí a pessoa estará a pagar o próprio auxílio que vai pedir, o que contraria os preceitos do "Evangelho Segundo o Espiritismo". Sabemos das dificuldades financeiras que as associações espíritas têm no seu dia-a-dia, no entanto motivos válidos e justos como formação, cursos, assistência social, etc., nunca poderão ser a causa da cobrança antidoutrinária do quer que seja. A associação terá de rever estratégias de angariação de fundos de molde a não beliscar a pureza da doutrina espírita.
    2. Palestras públicas. As palestras públicas devem ser orientadas dentro dos princípios evangélicos. Nesse sentido, os dirigentes espíritas devem senti-las, e fazer com que essa ideia passe ao público, como reuniões de amigos, relembrando os cristãos de outrora que se reuniam nas catacumbas e alguém falava do evangelho, e discutiam amigavelmente o assunto. As palestras públicas, devem ser isso: uma reunião de amigos onde a fraternidade, a amizade, têm de ser o combustível que liga os corações. Os palestrantes devem preocupar-se por estarem perto do público e nunca se superiorizarem ao ponto de se criarem palanques, estrados, ares de superioridade, linguagem inacessível para mostrar a nossa superioridade espiritual, etc., etc. As palestra não devem demorar mais de 30 a 40 minutos. O ideal seria 30 minutos. Posteriormente, deve-se dar oportunidade ao público de ter esclarecimentos. Assim, deve-se dar cerca de 30 minutos para perguntas e respostas, onde o palestrante deve mostrar-se humilde ao ponto de, se não souber a resposta, dizê-lo abertamente, com a promessa de ir estudar o assunto. A maioria dos palestrantes inventam quando não sabem, criando muitas vezes embaraços sérios e afastando muito boa gente interessada que se afasta perante a leviandade das afirmações proferidas. Temos de ter em atenção este aspecto. O palestrante é apenas alguém que vai expor o seu tema, à luz do espiritismo, e não fazer uma prova de absoluta sabedoria. O público deve sentir que esta reunião é sua, em que tem oportunidade de participar, de discordar, de opinar, sentindo-se assim próximos do orador.
    3. O passe magnético espírita. O passe espírita é também fonte de muitos pontos de vista diferentes. É compreensível que muitos trabalhadores espíritas vivam com hábitos acumulados do passado, pois por vezes torna-se difícil abandonar hábitos adquiridos. A associação espírita deve ter uma equipe de passistas devidamente esclarecidos sobre o que é o passe, como efectuá-lo e em que condições. Terão de ser esclarecidos que não podem tocar nas pessoas. O ideal seria que os passistas pudessem intercambiar conceitos com outros trabalhadores de outras associações, aprendendo assim uns com os outros. A maioria de nós vivemos envoltos no complexo de insularidade, ou então atingidos pelo "complexo umbilical" (somente olhamos para nos próprios, ignorando as imensas oportunidades de crescimento interior que existem no nosso exterior). Está provado cientificamente (por cientistas não espíritas) que o passe espírita não depende do mexer das mãos e que nem sequer é necessário a imposição das mãos. Nesse sentido talvez fosse bom reflectir sobre a necessidade ou não dos movimentos das mãos no passe espírita, já que o passe é um acto de amor, uma questão de atitude mental e não uma técnica cega e mecânica. O passe deve ser simples e discreto, os passistas devem ser simples e discretos, sem roupas especiais (batas brancas e outros), sem incensos, sem ruídos, estalar de mãos, entre outras práticas. Teremos de ponderar se essas práticas não irão alimentar o ego do passista, pois perante o doente poderemos passar por mágicos ou pessoas com poder, se fizermos mais ou menos movimentos. Decerto poderá ser uma situação inconsciente, mas poderá existir. É a natural tendência de queremos curar o próximo. O espírita precisa de ser esclarecido verificando que com movimento ou sem eles, o passe tem a mesma eficácia. Assim sendo será desnecessário essa prática de movimentos das mãos, podendo haver uma maior discrição durante esta actividade.
    4. A desobsessão e mediunidade em público. A reunião de desobsessão é uma reunião em que pessoas bem preparadas se reúnem com o objectivo de atender irmãos desencarnados que estejam necessitados e vinculados a irmãos encarnados que buscaram auxílio na associação. Por isso, só devem estar presentes nesta reunião os elementos da associação que se considera estarem preparados para tal. Nunca em situação alguma deve ser efectuada em público por motivos sobejamente explanados no «O Livro dos Médiuns» de Allan Kardec. A pessoa necessitada não deverá estar presente, a nenhum pretexto, nem tão pouco em compartimentos contíguos em que possa ouvir algo proveniente das manifestações psicofónicas. Os bons espíritos trazem à reunião de desobsessão os espíritos obsessores necessitados de se manifestarem naquele dia, devendo-se pedir à pessoa que nessa altura esteja em casa, lendo o Evangelho e sintonizando com a associação, pedindo ajuda. Temos consciência do quanto mal pode fazer a presença do doente na reunião de desobsessão, podendo inclusive agravar os laços que unem o obsessor ao doente pela atitude mental de medo e até pânico que a pessoa possa adoptar. Defender a tese que é necessária a presença do doente para retirar laços magnéticos que o unem ao obsessor, seria o mesmo que admitir que Deus foi injusto para com os irmãos que vivem noutras regiões do planeta e que não dispõem de associações espíritas nos seus países. Estudando «O Livro dos Médiuns» bem como livros de Divaldo Franco, Raul Teixeira e vendo entrevistas de pessoas conceituadas como a professora Heloísa Pires, a pedagoga Juselma Coelho, entre muitos outros, todos são unânimes em considerar profundamente errado fazer desobsessão pública ou com a presença do doente. Aliás bastará ver a opinião de Kardec, no «Livro dos Médiuns» que é o manual para a prática em segurança da mediunidade. É claro que cada um tem o livre-arbítrio de seguir ou não os preceitos de Kardec.
    5. Donativos. Este é outro assunto que teremos de ponderar bem, nas associações espíritas. De um modo geral, as pessoas habituadas a pagar ou a "deixar o que quiser" aos médiuns comerciantes, facilmente aceita ou até deseja, perante o alívio dos sintomas e da perturbação que experimenta, dar um donativo à associação espírita. Teremos de ponderar se devemos aceitar ou não. Somos de opinião que não, pois embora muito carentes monetariamente, a associação que aceita um donativo de uma pessoa doente espiritualmente, é como se ela estivesse a pagar o auxílio espiritual. Ela sente-se na obrigação moral de pagar, de contribuir com algo em troca do que recebeu - alívio, paz, auxílio. Ora a pessoa deve ser esclarecida do objectivo do Espiritismo, a prática desinteressada da caridade, de molde a que ela consiga descortinar novas ideias, novos rumos para os seus horizontes de vida, a espraiarem-se na prática do cristianismo.
    6. Actividades extra-associação. A associação espírita deve ter actividades fora do seu espaço físico, sejam elas de cariz social, apoiando famílias carenciados entre outras actividades, sejam elas de âmbito cultural. Em todas as actividades a simpatia deve ser uma constante, nas relações humanas, bem como nas relações institucionais, com os diversos órgãos existentes na cidade, procurando mostrar à cidade o Espiritismo como um amplo movimento cultural que é, embasado no cristianismo, no seu estado mais puro.
    7. Formação. A associação espírita deve ter um plano interno de actividades, que inclua pelo menos um curso básico de espiritismo, formação para passistas, doutrinadores, palestrantes e atendedores, bem como reunião de estudo e educação da mediunidade. Deve levar a cabo estas actividades, mesmo que não possuam pessoas que se sintam com capacidade para efectuarem esta formação, convidando espíritas esclarecidos de outras associações para desenvolverem esse trabalho. Não é possível colocar alguém a trabalhar numa associação espírita sem que ela saiba BEM, o que deve fazer, como, porquê e para quê.
    8. Perguntas aos espíritos. Uma das razões por que muitas pessoas recorrem aos centro espíritas é a vontade de fazer perguntas aos espíritos, para que estes lhes digam o que fazer nesta ou naquela área. Vemos no «O Livro dos Médiuns», de Allan Kardec, que esta prática não deve ser generalizada, antes pelo contrário, deve ser uma prática excepcional, regendo-se o ser humano pelos seus conhecimentos, estudando, ouvindo as intuições que todos têm. Para além de nem toda as associações possuírem médiuns seguros para esta tarefa, ter-se-á de ter muito cuidado com a generalização desta prática que poderá desembocar em situações de obsessão (pelo excesso de credulidade), e de mistificação (pelo excesso de perguntas, já que os guias não se dão a esse trabalho indiscriminadamente, tomando o seu lugar outros que querem opinar). Corre-se o grave risco da pessoa ouvir aquilo que deseja e passados dias a realidade ser bem diferente, surgindo assim um natural descrédito do Espiritismo por falta de vigilância das associações.
    9. Extraterrestres mediúnicos. Uma das novidades repescadas de vez em quando é a de alguns grupos mediúnicos, secretamente, quase sempre, revelarem a alguns ouvidos eleitos que foram escolhidos, por entidades espirituais extraterrestres, pela sua diferença para melhor em relação aos restantes grupos. É lamentável que a falta de estudos doutrinários nesses casos seja tão expressiva ao ponto de caberem ali aberrações desse género. Allan Kardec destacou no método espírita a característica da Universalidade das Comunicações dos Espíritos: quando uma verdade existe para ser revelada, será então dispersada por todo o mundo pela Espiritualidade Maior, em perfeito cumprimento do preceito «Colocar a luz em cima do alqueire». Avançado o dislate, cabem nos tais extraterrestres confusões caóticas das mais diversas, abrindo-se campo para obsessão e exposição ao ridículo. A mediunidade é uma ferramenta de trabalho, não é um passatempo para pessoas que não sabem com o que lidam. Às vezes parece que esta dos extraterrestres veio para ficar(!). Ora, bastaria estudar melhor «O Livro dos Médiuns» para entender a inoquidade de tais afirmações. Se já existe tanta dificuldade de comunicação entre encarnados e desencarnados deste planeta, se os desencarnados por vezes mesmo querendo não conseguem a afinidade desejado com o médium X ou Y (tendo a mesma estrutura perispiritual) como conceber essa facilidade de contacto com espíritos de extraterrestres tendo eles possivelmente perispíritos diferentes e estando em realidades diferentes? No mínimo quer parecer-nos bastante fantasioso, ultrapassando as fronteiras do bom senso a que o Espiritismo nos induz.
    10. Outros aspectos não menos importantes. Outras situações não menos importantes poderão ser aqui brevemente assinaladas. Por vezes acontece a tentação de tratamento diferente perante o Dr. X, o Eng.º Y, diferença de tratamento essa que não passa despercebida aos mais humildes que frequentam a associação. Teremos de ter muito cuidado nessa área, tratando todos por igual e não abrindo excepções para ninguém. Uma outra situação é o receituário, receitando mezinhas, ervas, medicamentos e às vezes até outras coisas bem absurdas. Teremos de ter em conta que esta actividade não deve ser praticada na associação espírita a não ser em situações excepcionais e com médiuns muito seguros (o que é raro). Teremos de ter atenção pois a associação poderá ficar desacreditada socialmente, no caso do receituário surtir efeitos inesperados, podendo acabar a associação muito mal vista e até com problemas de ordem legal. Uma situação que vem ameaçando alastrar no movimento espírita é a inclusão de músicas, CDs, cassetes com palestra de palestrantes brasileiros, mensagens ou pensamentos, nas aparelhagens sonoras com o bom intuito de amenizar o ambiente. Pensamos que não o devemos fazer, tendo em conta a natural aversão à língua brasileira, que é sinal de descrédito, na sociedade portuguesa, em virtude das atitudes dos nossos irmãos de religiões recentemente instaladas. As associações poderão optar por músicas suaves, pedir aos jovens ou algum adulto que leia suavemente um pensamento ou mensagem ou até passagem de slides com paisagens, pensamentos ou ideias espíritas, enquanto a actividade programada não começa. Importante também não esquecer que a associação espírita deve ser o mais sóbria possível, sem quadros pendurados, imagens, bustos, decorações espalhafatosas entre outras originalidades afins. A associação espírita deve ser como a própria doutrina que procura veicular: simples e discreta, sem altares, sem toalhas rendadas (o que é muito habitual) e outras coisas que com boa vontade e sem maldade carregámos do catolicismo. Teremos de ver que a associação espírita não é uma igreja, mas sim um espaço que deve estar aberto à sociedade onde é possível ser útil ao próximo, seja pelo estudo seja pelo apoio mais imediato.
  3. Conclusão

    Pensamos que é possível inverter o estado actual do movimento espírita português. Para isso é necessário a boa vontade de todos, a determinação em modificar hábitos errados, melhorar o que tiver de ser melhorado. A prática doutrinária na casa espírita somente melhorará se nos melhorarmos interiormente. Enquanto continuarmos orgulhosamente sós, fechados nos nossos conceitos, receando que os "estranhos" venham desestabilizar a nossa associação, esta não crescerá qualitativamente. Uma associação bem orientada, segura nas orientações de Kardec, não teme a colaboração alheia. Essa colaboração deve ser incentivada por todos os dirigentes espíritas, intercambiando actividades.

    Com boa formação de base, com mais participação, com mais colaboração mútua e com mais humildade e vontade de melhorar, o futuro será risonho para esta doutrina que estamos certos todos nós amamos muito e à qual muito devemos.