Rifas ou dízimo?

Delmo Martins Ramos

Temos acompanhado a sadia discussão que se faz no movimento espírita, a respeito da utilização que algumas instituições espíritas fazem das rifas para levantamento de fundos para a manutenção dos seus trabalhos assistencialistas. Alegam uns que os fins justificam os meios, pois se a utilização do dinheiro proveniente das rifas for para fazer a caridade, tudo bem! Assim, os defensores desta prática não se escandalizarão se porventura alguém achar por bem formar quadrilhas para praticar assaltos e outros delitos para a manutenção de algum trabalho caritativo. Outros declaram que é preferível a utilização das rifas do que o “malfadado” dízimo! Esta afirmação é temerária, além de demonstrar total falta de conhecimento do que é o dízimo e, por outro lado, talvez desconheça também as conseqüências das rifas, bingos e outros tipos de jogos.

Antigamente o dízimo era uma contribuição espontânea, a décima parte das rendas agrícolas, dos proventos industriais e lucros sobre as artes, profissões e ofícios, aos líderes religiosos para a construção e manutenção dos templos. Esta prática se encontra no Novo e no Antigo Testamento, mas foi incorporada ao Cristianismo só no século VI como obrigatoriedade a todos os cidadãos, apoiada pela legislação comum, já que nesta época já havia a estreita ligação da Igreja com o Estado.

Com o gradual desligamento oficial entre as religiões e os governos, iniciada na Revolução Francesa, esta obrigatoriedade foi se extinguindo, passando a Igreja a se manter com as oblações voluntárias, de acordo com a tradição cristã primitiva.

O movimento da reforma protestante iniciado por Martinho Lutero, que era contrário à venda de indulgências, instituiu o dízimo a seus fiéis que contribuem espontaneamente com 10% de seu salário. Com estes recursos as religiões protestantes mantém inúmeros trabalhos assistencialistas, além de construir templos e divulgar o Evangelho de Jesus.

Mais recentemente, algumas seitas evangélicas, passaram a utilizar métodos não muito éticos para receber as doações de seus fiéis, transformando suas igrejas em verdadeiros mercados. Não se contentando no recebimento do tradicional dízimo, oferecem curas e soluções miraculosas em troca de dinheiro enriquecendo seus dirigentes.

Já no movimento espírita a simples menção a dinheiro provoca celeumas e discussões. Já tornou-se comum a afirmativa de que os espíritas não gostam de “por a mão no bolso” e em função disso, numa interpretação equivocada da Doutrina, alguns acham que as casas espíritas devem ser pobres, não oferecendo conforto e condições físicas de atendimento aos que as procuram. Os trabalhos assistencialistas são mantidos às duras penas e é muito comum ouvirmos que os Espíritos não falham e que sempre providenciam todo o necessário para a manutenção destes trabalhos, acreditando provavelmente que, quando faltarem os recursos materiais, este serão materializados pelos Espíritos de Luz!

Outros, que se dizem dinâmicos e empreendedores recorrem às rifas, bingos e sorteios para a manutenção dos seus trabalhos assistenciais. Esta prática é frontalmente contrária aos princípios da Doutrina Espírita, já que esta tem como principal objetivo a melhoria moral do homem, na eliminação de seus vícios morais e físicos visando sua evolução espiritual. Mas, como fazer para manter uma instituição em condições de atender os que vão em busca de ajuda para seus problemas morais, espirituais e físicos, mantendo também uma atividade caritativa?

Por acaso a casa espírita não tem suas despesas básicas como: energia elétrica, água, vigias, material de limpeza, manutenção, funcionários e em alguns casos também aluguel?

O trabalhador espírita, não o freqüentador ou o que vai em busca de ajuda, mas aquele que decidiu dedicar-se aos trabalhos da casa, deve contribuir com alguma importância em dinheiro para fazer frente as estas despesas básicas. Não se trata de uma contribuição esporádica ou de fazer uma “vaquinha” quando alguma despesa surgir, mas sim de se comprometer mensalmente em contribuir com uma importância que esteja dentro de seu orçamento, que juntando-se à contribuição dos demais possa manter a casa. Chamem isso de dízimo ou de outro termo qualquer, mas o importante é que este compromisso exista entre a equipe sem constrangimentos.

Para a expansão das atividades como a construção de uma sede maior, a manutenção de uma creche, distribuição de cestas de alimentação etc, podem ser utilizados dos recursos amealhados com jantares mensais ou bimestrais, bazares, bancas ou feira de livro, campanha Auta de Souza, barracas de venda de doces ou outras atividades.

Enfim, somos Espíritos que estamos temporariamente na carne, portanto estamos sujeitos às regras do mundo físico. Temos pois que nos utilizar dos recursos materiais para atingirmos os espirituais, mas sempre dentro do equilíbrio, bom senso e, principalmente, da ética cristã.

(Publicado no Jornal A Voz do Espírito - Edição 90: Março - Abril de 1998)