Seremos todos espíritas?

Wilson Garcia

O mundo das imagens oscilantes, marca registrada dos tempos atuais, é também o dos mitos construídos e das ideologias veiculadas através de mensagens persuasivas. O sonho de um Espiritismo universal está representado pelo “mito da humanidade espírita” construído pelo adepto cujos valores se firmaram internamente.

As discussões em torno da idéia retro-alimentada (indivíduo-centro espírita-federativas-indivíduo) de uma conquista geral de mentes e corações para o espiritismo contemplam uma gama considerável de sentidos que podem ser explorados em seus conteúdos diversos. Embora não tenha sido objeto de uma pesquisa consistente- e o mereceria- a questão alcança não apenas o campo da comunicação, em que uma insistente parcela de adeptos tenta marcar presença em considerações teórico-críticas e mesmo uma ação pela busca dos meios de comunicação de massa, mas atinge também o meio privilegiado da prática espírita-o centro- fazendo com que muitos dos esforços que aí se realizam sejam canalizados para o convencimento do adepto à ação.

Até que ponto o sonho de uma mundialização massiva do Espiritismo responde a uma iniciativa presente na própria realidade dos meios de comunicação, que exploram a competição e a tornam até certo ponto uma moda a ser seguida? Quanto existe de intenção de supremacia e dominação na vocação dos adeptos de tornar a sua doutrina hegemônica? Até que ponto o estímulo dado nos centros espíritas reflete a influência do meio social e se torna outra influência a reforçar o sentido competitivo explorado pela mídia através de mensagens persuasivas muitas vezes irresistíveis?

As atitudes voltadas ao convencimento do outro para as nossas idéias e crenças são comuns e, talvez, rotineiras na sociedade. Se há alguma coisa que poderíamos qualificar como natural parece ser esta. As crenças políticas, econômicas, ideológicas, religiosas etc.,que perpassam os seres humanos em seus mais variados conceitos assumem na hierarquia dos valores internos uma posição destacada, pois compõem aquilo que poderia ser denominado cultura da segurança. Munido desses valores, o indivíduo se sente em condições de um agir em sociedade suficientemente satisfatório, sustentando-se na convicção de que possui um mínimo necessário para sua sobrevivência psíquica, para conquistar outros espaços e concretizar novas realizações. Daí, portanto, sobrevir-lhe o desejo de convencer o outro para suas crenças e idéias. Conquistar aliados reforça a crença, dá-lhe ainda mais substância, confere validade ao esforço de ampliação dos próprios domínios.

Ao mesmo tempo, porém, que este mundo internalizado de valores confere segurança e sustenta o indivíduo em sua vida de relação, esconde os perigos existentes nas próprias condições de sobrevivência psíquica oferecidas pela sociedade. “Nada é estável -afirma Thompson-, nada é fixo, e não há entidade separada da qual estas imagens são o reflexo: na idade de saturação da mídia, as múltiplas e mutáveis imagens são o self.” 1

O mundo das imagens oscilantes, marca registrada dos tempos atuais, é também o dos mitos construídos e das ideologias veiculadas através de mensagens persuasivas. Mitos e ideologias se misturam identificados e muitas vezes concorrem para o mesmo fim. O sonho de um Espiritismo universal está representado pelo “mito da humanidade espírita” construído pelo adepto cujos valores se firmaram internamente.

O estímulo à competição aparece subjacente em mensagens que circulam nas diferentes mídias, e nem sempre surge dissimulado. Somos todos persuadidos de que competir faz parte do cotidiano e essa competição está presente na moda, nos esportes, na literatura, e até mesmo nos lares, como se fizesse parte do ser e como se o ser só pudesse se realizar através das vitórias que tornam a sua identidade visível. Também por isso, essa identidade se faz mutante e instável. Em contexto dessa ordem, o mito da superioridade alcança o adepto das diversas doutrinas como estímulo à competição umas com as outras, competição que recebe ainda outros estímulos através do conteúdo das próprias doutrinas. Parece claro que o Espiritismo não foge à esta regra, embora seja preciso reconhecer que estes conteúdos estimulantes nem sempre tenham sido construídos para funcionar como elementos direcionadores de uma competição real.

A análise do mito reserva um espaço para a problematização das profundas diferenças que marcam os indivíduos e singularizam as interações humanas. Conquanto essas diferenças sejam contempladas teoricamente no corpo da doutrina espírita, elas tendem a desaparecer em presença do mito, que em si mesmo constituí uma maneira de empobrecer a teoria da evolução, não apenas porque é reducionista, mas por esconder as diferenças. Uma ética da convivência considera a diversidade de caracteres individuais, nos níveis moral e intelectual, diversidade essa que desaparece com o mito da humanidade espírita, menos por ter sido resolvida e mais pela presença de um certo romantismo.

O sonho mítico que entende e (pre)tende um agir no sentido de conquistar para a crença espírita a humanidade é estimulado por elementos presentes no cotidiano social e nos conteúdos doutrinários. É justo concluir que o sonho contempla um forte anseio de poder, seja ou não para exercer qualquer tipo de dominação, uma vez que a suposta conquista da humanidade conferiria uma condição total para o estabelecimento de rumos segundo a ideologia específica. Fora isso viável, restaria resolver a questão: como se desenvolveriam no interior dessa nova sociedade, entre outras, as interações humanas, considerando que a simples percepção dos conteúdos espíritas, como tem sido exemplo as relações no interior da própria comunidade espírita, não é suficiente garantir a paz e a harmonia, um dos maiores anseios contidos no sonho? Também por essa mesma razão, conviria às lideranças espíritas, especialmente os dirigentes de centros, reconsiderarem se vale a pena estimular, mesmo que indiretamente, os adeptos a uma disputa pela hegemonia de sua crença.

São Paulo - S.P

(Resumo do trabalho apresentado pelo autor no S.B.P.E, de Outubro último.)

1-Thompson, John B. A Modernidade e a Mídia, 2a Ed.Vozes, Petrópolis,1999,p.201.