Organização dos Passes

Antônio César Perri de Carvalho

A pratica do passe faz parte da tradição e rotina do Centro Espírita. Mesmo assim é tema que suscita dúvidas, estudos e debates.

Deve ser aplicado indiscriminadamente?

Deve ser mental, movimentado, classificado ou denominado?

No Cristianismo primitivo já era uma atividade corrente e suscitava assertivas importantes como: “...imporão as mãos nos enfermos e estes sararão”( Marcos, 16:18), ou “E curais os enfermos que nela houver e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de Deus”. (Lucas,10:9).

O Espiritismo, depois da fase que a ciência se abriu para o magnetismo, a sugestão e o hipnotismo, pode não apenas se valer dessas experiências como dispor das obras do codificador, de autores como Wenefredo de Toledo, Roque Jacintho e a famosa série de André Luiz, da lavra mediúnica de Francisco Cândido Xavier.

As citadas e muitas outras oferecem subsídios para se refletir e se discutir em torno da chamada "técnica" do passe.

No dia a dia do Centro Espírita, o passe magnético é mais acessível de ser praticado pelos colaboradores, possibilitando a formação de equipes preparadas para tal. Basta ter boa vontade, ânimo de servir o próximo, saúde física razoável e meta da moral elevada. A isso se acrescente as orientações doutrinárias e até específicas sobre a concentração, irradiação, prece, fluidos e a maneira de se aplicar o passe.

A imposição das mãos registrada por Marcos e/ou ligeiros movimentos longitudinais sobre o corpo do paciente, dispensam barulhos, toques diretos, exercícios complicados... Embora, em geral, o passe possa ser magnético, não deverá se basear em regras e orientações puras do magnetismo. Daí a importância do entendimento sobre a ação do pensamento, da transfusão energética de perispírito e da interferência espiritual.

Fatores que se interagem facilitam a atuação dos espíritos benfeitores. Com a conjunção da necessidade do paciente, oportunidade do passe e merecimento de ambos, não é fácil se afirmar que o passe seja magnético ou magnético-espiritual (misto). Aliás, esta definição é dispensável. Além de se “impor as mãos”, relevante seria o anúncio do “Reino de Deus” anotado por Lucas.

Fora os momentos emergenciais e excepcionais, o passe deve estar inserido num contexto de esclarecimento para os interessados. Chame-se isso de “reunião doutrinária”, “fluidoterapia” ou até de “papoterapia”... Num paralelo com doentes físicos, o fato é que é muito importante não se recomendar apenas o analgésico, mas, principalmente, o medicamento que atua na causa da enfermidade.

Nas reuniões públicas, o passe pode ser aplicado em câmaras ou no próprio ambiente do salão. Em ambas situações, a leitura preparatória e a elevação dos sentimentos devem se somar às exposições doutrinárias. As orientações espíritas preparam o ambiente mental e espiritual dos assistentes. Os temas devem ser tratados de forma clara e objetiva, focalizando questões sobre a imortalidade da alma, reencarnação, lei de causa e efeito e o significado da dor e do sofrimento. Periodicamente, deve-se esclarecer sobre o passe e como a pessoa deve se comportar para um melhor aproveitamento desse recurso.

O emprego de câmara de passe tem vantagens para o recolhimento de todos , cria condições mais discretas para a prática e facilita a opção para aqueles que queiram ou não receber o passe. Do ponto de vista espiritual vem sendo considerada uma sala específica e saturada fluidicamente.

Todavia, a impossibilidade de se dispor dessa câmara, não invalida os passes aplicados no próprio salão de palestras. Deve-se cuidar para que a disposição e a distância entre as cadeiras facilitem o deslocamento dos passistas, sem se incomodar os freqüentadores.

Quanto ao momento para a aplicação do passe nas reuniões públicas, podem ser ao longo da exposição doutrinária e, evidentemente que, nesse caso, é indispensável a utilização da câmara de passes. A aplicação de passe no próprio salão será possível após a palestra. As duas opções são válidas e devem se adequar às condições físicas e de equipe humana do Centro Espírita.

O importante é que o Centro Espírita não seja só o Pronto-Socorro, mas que se caracterize como escola que introduz as possibilidades da oficina de trabalho.

Fica claro que para o passe espírita, os detalhes materiais são sobrepujados pela relevância de todo o contexto doutrinário em que os passes devem estar inseridos.

(Revista Dirigente Espírita Set/Out de 1990)