Não ter religião

Nabor da Graça Leite

O aforismo que diz: “homem sem religião, barco sem roteiro”, é bem uma verdade inconteste.

Realmente, o homem, em tese falando, que não possui religião, que não é alentado pela esperança de uma crença qualquer, que venha ser o seu consolo nos momentos em que for atingido pelo infortúnio — pela dor física ou moral, bem se pode comparar a um barco ou navio que se encontre em alto mar sem vela, sem leme, sem bússola, navegando a esmo, impelido sempre pela impetuosidade das vagas, sem saber ao certo onde irá aportar.

E, do mesmo modo que os tripulantes de um navio em tais condições, embora corajosos, corações opressos, esperam a cada momento ser arremessados sobre um desses perigosos recifes que infestam os mares, assim, também, a criatura sem religião segue a sua jornada terrena tendo, geralmente, diante de si a horrível perspectiva do nada: medonho abismo que, se de fato existisse, seria muito mais pavoroso do que os abrolhos para os navegantes.

No entanto, mesmo sabendo quanto é desolador não possuir uma convicção religiosa, a verdade é que, infelizmente, grande numero de pessoas, em todas as camadas sociais, dormem nesse tristissimo sono de descrença e de indiferentismo para com tudo o que diz respeito ás coisas espirituais. Talvez em razão dessa apatia, não raro são açoitadas pela vergasta da dor e da adversidade, cujas causas debalde tentam explicar com teorias supinamente materialistas.

O que, entretanto, nos causa maior estupefação é vermos que os mais descrentes e apáticos são os homens do saber e da ciência, os quais, cheios de orgulho e confiantes nos limitadíssimos conhecimentos que lhes fornece essa mesma ciência, chamada “positiva”, desdenham e relegam para segundo plano os sérios e complexos problemas da vida, que todos têm o dever de estudar, afim de conhecer e compreender o seu porquê.

Mas, não somente esses perfazem a grande maioria dos descrentes religiosos. Nela se contam criaturas outras de todos os grãos de cultivo intelectual. Uns e outros, porém, seguem, invariavelmente, caminhos incertos e duvidosos, vezes param a meio da jornada e, atônitos, impelidos por uma voz intima, quiçá de seus Guias, interrogam-se a si mesmos: onde vou? que caminho é este por onde me estou conduzindo? Não! Devo retroceder! Algo mais deve existir além da matéria! Uma inteligência e uma força superiores devem existir, como causa de todos os efeitos que se produzem na Natureza!

E aquele que, assim ouvindo os brados de sua consciência, procura, pelo estudo e pela observação, conhecer a razão de ser da vida, há de sentir-se mais feliz, porquanto, só de­pois de conhecer sua origem e seu destino, é que a criatura pode considerar-se um ser racional, criado para fruir as eternas belezas e maravilhas da criação.

Todos nos consideramos superiores ao irracional, visto que já possuímos desenvolvidas as belíssimas faculdades da inteligência e da razão. Entretanto, aquele que vive, pensa e quase sempre ama, porém não procura saber porque vive, porque pensa e porque ama, não se pode considerar superior ao irracional, pois que este, conquanto não tenha ainda desenvolvidas aquelas faculdades, sabe, mais do que a maioria dos seres pensantes, reconhecer e até agradecer a Deus, em constantes hosanas ditas em linguagem para nós desconhecida, o lhes haver o Criador dado a existência e meios de viver e também, como nós, progredir.

Qual a razão de todas as intrigas, dissensões, lutas, guerras, derramamentos de sangue? Porque, desde o aparecimento do homem na terra, até os nossos dias, têm havido esses indizíveis flagelos que são os conflitos sanguinolentos travados entre filhos de um mesmo Pai e que se dirigem para uma mesma meta: a perfeição?

Incontestavelmente, a causa principal desses males e misérias, que assolam toda a humanidade, está no fato das criaturas não possuírem os tão imprescindíveis sentimentos de religiosidade; ou, mesmo possuindo-os, manterem sentimentos decrépitos e até absurdos, que em vez de fazê-las crentes sinceras nas Leis imutáveis de um Deus justiceiro, magnânimo e bom, as faz ao contrario crentes mais ou menos fanáticas, presas a crendices e dogmas abstrusos, que de maneira alguma condizem com os elevadíssimos preceitos da sublime doutrina ensinada por JESUS.

Por isso, repetimos: a causa da miséria, de toda essa lepra que afeia a alma da humanidade está, única e exclusivamente, na falta de RELIGIÃO.

A religião é, sem duvida alguma, um dos fatores principais da estabilidade da fraternidade entre os povos, fazendo-os gozar individual e coletivamente, de relativa felicidade neste mundo.

E que a religião está para a criatura, como o alimento está para a nutrição do corpo; como a água para a dessedentação dos órgãos; como o ar para sua respiração.

Assim como não podemos manter nosso corpo orgânico em falta desses elementos, do mesmo modo não pôde o Espírito viver sem religião, pois é por intermédio desta que ele consegue unir-se á divindade e daí haurir as forças e a coragem necessárias para suportar com fé e resignação todas as peripécias por que tiver de passar no decorrer de suas existências planetárias.

Acorda, pois, oh! mocidade, que renasces mais otimista e com sentimentos mais espiritualizados!

Brande com destreza as armas da vontade, do querer e do saber, para, em lugar da discórdia, do ódio e do mal que inoculaste na humanidade de ontem, implantares hoje, sob o bafejo de uma transcendental ciência religiosa, qual o ESPIRITISMO, as sementes da paz, do bem e do amor!

E vós, também, oh! Pais e mães dessa mocidade, acordai, se ainda não acordastes! Ouvi, se ainda não ouvistes!

Sois vós que tendes o sagrado dever de iniciar no caminho evangélico, na senda da religião, esses seres que Deus vos entrega para servirdes de sentinelas mais direitas e vigilantes de seus progressos morais e intelectuais, na terra.

E, para a educação religiosa desses vossos filhos, que serão amanhã os propugnadores da causa do Bem e da Verdade para implantação definitiva, na Terra, do reinado da Paz e do Amor, aí tendes os belíssimos ensinamentos cristãos que em toda parte do globo são ministrados sob égide da não menos bela e consoladora DOUTRINA ESPÍRITA, cujas fecundas sementes de fé, esperança e caridade, vão rapidamente germinando em cada coração sincero onde são lançadas.

Paes! Mães! Não vos descuideis de educação religiosa de vossos filhos!

Lembrai-vos sempre deste sábio conceito: “A criatura sem religião é barco sem roteiro”.

Bauru, agosto de 1936

(Reformador de agosto de 1936)