Um falso dilema

Maurício Roriz

É o Espiritismo Ciência ou Religião?

Procuraremos, neste breve artigo, sugerir que esta é uma falsa questão. Ao codificar a Doutrina Espírita, Allan Kardec estabeleceu urna linha de raciocínio impecável, extremamente simples e lógica, e que partiu da consagrada Lei da Causa e Efeito: "Se todo efeito possui urna causa" - argumentava ele - "os efeitos inteligentes possuem causas inteligentes, não podem ser frutos do acaso". O Universo, em seu maravilhoso equilíbrio e em sua extrema beleza, é o efeito mais inteligente que o homem conhece. Sua causa é, portanto, também inteligente e a ela, Kardec denomina Deus. As Leis que regem o Universo são, portanto, Leis de Deus, cabendo ao Homem, em sua caminhada evolutiva, procurar, cada vez mais, conhecê-las e respeitá-las.

Mas, qual é exatamente o domínio da Ciência? Qual o da Religião? A oração, por exemplo, é um ato religioso ou pode ser objeto da pesquisa científica? Os dicionários nos informam qual é o significado que a sociedade atribui à cada palavra. Diz o Aurélio que "ciência é um conjunto organizado de conhecimentos relativos a um determinado objeto, especialmente os obtidos mediante a observação, a experiência dos fatos e um método próprio". Quanto à religião, o mesmo dicionário define como "crença na existência de uma força sobrenatural, considerada como criadora do Universo, e que, como tal, deve ser adorada e obedecida."

Parece residir nessas definições a origem do velho conflito entre ciência e religião. Ciência tida como "conhecimento", enquanto religião é "crença". A primeira se apóia em "observação e método", a segunda em "adoração de força sobrenatural". Mas, ainda segundo o Aurélio, a natureza abrange "todos os seres que constituem Universo". Portanto, por definição, o Sobrenatural é tudo o que não existe! E por conseqüência, religião seria a adoração de algo inexistente. Fica evidente a origem da polêmica: a linguagem "oficial" relaciona ciência ao raciocínio e religião ao misticismo.

Entretanto, já há quase um século e meio, Allan Kardec inaugurava uma Nova Era, superando este aparente conflito ao estabelecer que as Leis da Natureza são as próprias Leis de Deus. Não pode haver uma verdade científica e outra verdade religiosa. Eis porque fé raciocinada é a única realmente inabalável: ela concilia a razão ao coração.

A divisão entre ciência e religião é inteiramente artificial: foi criada pelos homens, não existe no Universo. Um fato é verdadeiro ou falso: não pode haver urna Lei para a Academia e outra para a Sacristia. A Natureza, que é o próprio Universo, não se restringe a nenhum desses limitados territórios.

O que o Homem não consegue explicar ele classifica como religião. Quando seu conhecimento avança sobre determinado assunto, o mesmo tema, antes desprezado e ridicularizado, é "promovido à nobre categoria de objeto da ciência". Então, perplexa, a pretensiosa Academia lhe retira o pejorativo e dúbio rótulo de "sobrenatural".

Em sua edição de 29 de abril de 1998, a revista Veja divulga oportuna entrevista com o cardiologista americano Dean Ornish, autor de diversos sucessos no campo da literatura médica e que tem, entre seus clientes, inúmeras celebridades de Hollywood e do mundo empresarial. além do poderoso presidente Clinton e seus familiares.

Por exercer urna medicina um tanto estranha aos "padrões oficiais", durante vinte anos este médico foi encarado com absoluto ceticismo pela comunidade científica. Porém o tempo - esse implacável juiz - encarregou-se de demonstrar que os métodos do Dr. Ornish produziam resultados mais que satisfatórios: ele consegue reverter as doenças cardíacas de 90% de seus pacientes!

Conheçamos um pouco de suas teorias: "Não se ensina isso na maior parte das faculdades, mas a sobrevivência saudável está intimamente ligada a fatores que por muitos anos consideramos do domínio das religiões ou dos gurus orientais. Refiro-me aos fatores subjetivos, como a meditação, a oração e a busca da intimidade (...)". O médico menciona também recentes pesquisas, desenvolvidas na Universidade do Texas com centenas de pacientes submetidos a cirurgias cardíacas, e cujos resultados indicaram que aqueles que consideravam sua religião uma fonte de segurança, e que não eram solitários, apresentavam um índice de sobrevivência cinco a sete vezes superior aos demais operados".

Não há, nessas afirmações qualquer novidade! Há dois mil anos os primeiros cristãos, simples pescadores, carpinteiros e pastores, já conheciam as virtudes da oração e da solidariedade. Viver isoladamente é não praticar o amor ao próximo. Mas, mesmo naquela distante época, estas idéias também não eram novas. Quinhentos anos antes de Cristo, Siddartha Gautama, o Buda, já as ensinava e séculos antes dele outros líderes espirituais já as transmitiam, pois, a Verdade transcende às nossas aparentes certezas científicas tanto quanto aos nossos provisórios dogmas religiosos.

Revista Espírita Allan Kardec, nº 40.