A Nossa Genialidade de Cada Dia

Enéas Martim Canhadas

Era uma vez um gênio que vivia numa garrafa. Bom, você certamente já ouviu uma história que começava mais ou menos assim. Talvez tenha ouvido falar de um gênio que vivia numa lâmpada. Digamos, é mais ou menos a mesma coisa. O gênio vivia trancafiado naquela garrafa há séculos, cansado de ver a vida e o mundo naquele tom de verde como se usasse óculos ray ban todo o tempo. Já pensaram, que sacrifício? Ver tudo da mesma cor por anos e anos? Além do mais, viver trancado, sendo um gênio. Podendo fazer uso de seus poderes sobrenaturais, faria tantas coisas, realizaria os desejos de muitas pessoas. Faria o bem para todos quantos precisassem dele por esse mundo afora. O problema é que ninguém aparecia para destampar a garrafa. Isso entristecia o gênio que lamentava o fato de ninguém aparecer por ali. Procurava explicação para sua sina, mas o que conseguia eram apenas desculpas. A garrafa estava toda empoeirada. Quem iria se interessar por aquela garrafa suja. O seu conteúdo, ninguém conseguiria ver, muito menos descobrir que havia ali um gênio condenado a permanecer preso por muitos anos, quem sabe mais alguns séculos!

Era um terror quando esses pensamentos começavam a tomar conta da sua cabeça genial.

Cansado de tais pensamentos aterrorizantes, um dia resolveu se mexer fortemente dentro da garrafa. Quem sabe, por um acaso da sorte, a garrafa rolaria do lugar onde estava, levaria um tombo, quebrando-se em muitos pedaços. Estaria assim consumado o milagre da sua liberdade. Foi quando deu-se conta de que a garrafa estava muito bem encaixada na prateleira. A sua garrafa fazia parte de uma pequena multidão de garrafas, depositadas cuidadosamente numa adega muito antiga, nos porões de uma mansão. O dono daquelas garrafas devia ser muito rico para possuir um estoque invejável de raridades de vinho, todo acondicionado num lugar próprio para isso. Quanto tempo deveria permanecer ali até que um viesse abrir a sua garrafa. No entanto, perdera a noção do tempo, não saberia dizer se o dono ainda era um homem vivo ou já morrera. Talvez há anos os herdeiros, habitassem a grande casa com a adega e nem tivessem o mesmo gosto pelos vinhos. Jamais viriam abrir uma daquelas garrafas. Eram novas idéias de pânico que o assaltavam, como se não bastassem muitas outras que já o atormentavam há muitos anos.

Certo dia alguém entrou na adega, olhou uma ou outra garrafa, pegou uma delas pelo gargalo, passou um pano úmido deixando-a limpa e reluzente outra vez. Colocou-a contra a luz fraca que iluminava a adega, virou-se para um lado e para outro e depois baixou a garrafa. O gênio desejando muito ser percebido, agitou-se, gritou e esperneou dentro da sua garrafa, mas quando o homem afastou-se com a garrafa escolhida, a tristeza e a desolação se apoderaram dele outra vez. Por um momento sentiu as esperanças renascerem dentro dele, em seguida foi envolvido pela realidade de que poderiam passar meses até que viessem pegar outra garrafa. Quem sabe, anos e mais anos haveriam de passar até que alguém resolvesse pegar justamente a garrafa em que ele se encontrava. Abatido, lamentando e maldizendo a sua má sorte de possuir tantas capacidades para ajudar e fazer coisas pelas pessoas e, no entanto, continuar vivendo sem que ninguém soubesse da sua existência. Pior que sorte, uma espécie de maldição ou azar.

Exausto com os seus pensamentos de querer ser alguém importante para alguém, mas nunca ser encontrado, adormeceu. No seu sonho, viu-se em meio a uma multidão que o aclamava, agradecidos e admirados, todos lhe faziam reverências e lhe jogavam beijos e flores em agradecimento pelo bem que praticara a toda aquela gente. Outros gritavam para mostrar os bens e riquezas como provas do que o gênio lhes havia proporcionado magicamente. Quando deu-se conta de que não estava mais preso na garrafa e podia estar entre a multidão, acordou do seu sonho feliz. Mas era um sonho e novamente viu-se preso e impossibilitado de praticar as coisas boas que planejava fazer para as pessoas que estivessem necessitadas. Lamentou mais uma vez o seu destino. Essa palavrinha destino começou a dar voltas nas circunvoluções do seu cérebro. Foi quando pensou que o seu destino era, na verdade, um castigo. A frustração e uma revolta dissimulada pela angústia da impotência de estar preso para sempre, aumentou dentro do seu coração tão bem intencionado. Era o destino que cometia tal atrocidade fazendo com que ninguém encontrasse a sua garrafa. Calou-se exausto e vencido. Os seres humanos estavam perdendo para sempre um grande benfeitor.

Leitor, não sei e ninguém me contou o final dessa história, feliz ou não. Não existe nenhuma pista a respeito do que pode ter acontecido com aquela garrafa e seu infeliz habitante. Será que ele ainda continua nas sombras da adega, como se fosse um precioso vinho de uma das garrafas a envelhecer para sempre? Ou será que alguém o libertou e a sua genialidade acabou como serva de alguém exigente e que lhe tenha feito ambiciosos pedidos? Uma coisa podemos deduzir dessa história. Existem pessoas maravilhosas e muito talentosas. Certamente, seriam admiradas por todos nós, alvos da mais profunda gratidão e respeito, mas parecem um pouco com o gênio da garrafa. Permanecem esperando que a necessidade ou admiração possa abrir-lhes a garrafa do coração ou de suas boas intenções. Enquanto isso, vão ficando na prateleira da vida.

“Chegando, por fim, o que recebera um talento, disse: Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste, e ajuntas onde não espalhaste, receoso, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondeu-lhe porém, o senhor: servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Cumpria portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe pois, o talento, e dai-o ao que tem dez. Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.”

Parábola dos Talentos
Evangelho de Mateus, cap. 25,
Novo Testamento

10/06/2003