Aborto: o outro lado da questão

Enéas Martim Canhadas

As considerações que feitas a seguir, são a respeito de quem fica sabendo que alguém pretende praticar esse ato e não buscando analisar a atitude de quem está determinado a fazê-lo. Vamos falar sobre a impotência que sentimos quando alguém, fazendo uso do seu livre arbítrio, toma uma decisão própria e na qual não podemos interferir. Tão somente porque a decisão é do outro e não nossa. Conselhos, leis, orientações, alertas, avisos, nada disso tem o poder de atuar sobre o livre arbítrio de alguém. Se pudéssemos cercear o livre arbítrio do nosso próximo, ele não seria livre.

Se me torno tão impotente frente ao fato, o quê fazer? Ou melhor, o quê pensar?

A primeira questão: tenho o direito de interceder por alguém? Quem sou eu e junto a quem eu faço isso? Como posso chegar até a Espiritualidade e interceder por alguém? Bom, mas não é isso que fazemos quando usamos a expressão: vibrar por alguém? Não. Vibrar é retransmitir pulsos de amor. Não se trata de interferir. As vibrações, neste caso, não aquietam o Espírito que pergunta. Como posso interceder por alguém, no sentido de interferir para que a pessoa não faça o que quer fazer? A intenção, neste caso, não é invasiva? Mais do que invasiva, não é onipotente? Não se trata de querer intrometer-se na vida de outrem, ou nas atitudes de uma pessoa? Se buscamos a virtude de não nos intrometer na vida dos outros e se dizemos que cada um possui o seu livre arbítrio, como vamos levantar a voz em prece, para tentar impedir que alguém deixe de fazer isto ou aquilo? O fotógrafo que está filmando a vida animal, não salva do seu predador, o ovo que está no ninho. Seria uma mudança prepotente sobre as leis da natureza.

Mas, afinal, por quem pretendo interceder?

Não só por uma pessoa, mas pelas duas! São dois Espíritos e esta é uma luta entre os dois. Não posso dizer a uma pessoa o que fazer, quando não posso estar dentro dela, nem opinar sobre o que é melhor para ela. Não posso intervir no seu futuro! Estou arbitrando sobre a vida que está em gestação. Não sei, nem posso saber das necessidades ou situações que o Espírito, habitante desse corpo ainda em estado fetal tem que passar, experienciar, viver. Não sei o que está reservado para ele. E se a experiência que lhe está reservada é, precisamente, a rejeição! Ou, quem sabe, do impedimento para que o Espírito possa vir ao mundo agora! E se ele precisa viver esta frustração neste momento? Além do mais, se a sua experiência encarnatória necessária e até prevista, é apenas essa, de viver a espera de um corpo durante certo tempo, dias talvez, para ver o seu projeto encarnatório, momentaneamente frustrado! Estou arbitrando não só sobre a vida da mulher, mas também sobre a trajetória de um Espírito que está desencarnado, e como Espírito continua vivendo suas experiências e formas de aprendizado! Que intenção é esta que estou prestes a por em prática?

O rio corre entre duas margens. O causador e o que sofre a ação, são dois espíritos em duelo e também em experiência de aprendizado mútuo.

Não sabemos e não podemos saber quais demandas podem existir entre essas vidas! O que precisam passar juntos, possui significados transcendentes, e uma relação entre Espíritos não necessita, obrigatoriamente, de estarem ambos encarnados ou desencarnados. Os espíritos se ligam deste ao plano espiritual e de lá para cá. E se as experiências entre esses dois espíritos devem ser vividas assim, um encarnado, no caso a mulher grávida, e o outro desencarnado, o Espírito que aguarda o desenvolvimento do feto? Não é possível que seja assim? Estaria arbitrando sobre uma história que foge e ultrapassa as barreiras deste tempo, da contingência desse momento de gravidez. Como intervir numa história que, certamente, é antiga e tem mais tempo do que os anos que tenho como Espírito encarnado? Não estarei ajuizando sobre vidas que devem ter coisas a serem vividas em conjunto, e talvez o agora não seja o tempo mais apropriado?  Quem pode conhecer o tempo e os seus segredos? Quem pode conhecer profundamente as histórias que ligam a existência de dois Espíritos? E se o agora não for o tempo e o momento mais oportuno?

O livre arbítrio é um caminho de mão dupla entre Deus e o Espírito.

O livre arbítrio, neste caso, pode determinar a continuidade de uma trajetória ou a sua interrupção. Posso até julgar que a mulher grávida está querendo fazer o papel de Deus. Mas, e se o seu ato, motivado pelo seu livre arbítrio, for justamente o instrumento de Deus para o aprendizado desse espírito a reencarnar? Reprovamos uma mulher que rejeita o seu filho ao nascer e o dá a alguém para que o crie e eduque. No entanto, se não existirem pessoas que dão à luz um filho para ser confiado a alguém que vai criá-lo, não haverá quem possa passar pela experiência de adotar um filho. É aparentemente fácil julgar, mas não nos é dado saber as implicações de um ato.  

Como posso ser o juiz do amanhã para quem quer que seja?

O próprio Cristo disse para os seus seguidores que “não deviam ter preocupações com o dia de amanhã pois ele trará o seu próprio mau” e aconselha “olhar os lírios dos campos que não tecem e não fiam e no entanto vestem-se como um Rei em toda a sua glória e pompa”. Como posso arbitrar sobre o dia que ainda não veio e um tempo que ainda não chegou? É lícito querer mudar o futuro? Posso querer determinar condições para experiências alheias e interferir na história de dois Espíritos? Que possibilidade seria esta que, julgamos ter em nossas mãos?

O quê fazer? Ou melhor, há o quê fazer?

A lucidez e o discernimento, devem fazer parte das nossas preces diárias. Podemos orar para que as nossas mentes sejam aclaradas, hoje e em todos os dias. Não tomar uma decisão apenas por causa das opiniões dos outros que podem ser gratuitas e descompromissadas com o peso, profundidade e significado do futuro de vidas alheias. Ou apenas baseadas em deveres morais, porque eles podem não estar bem afinados com a compreensão profunda que implica em aceitar a vida como possibilidade de aprimoramento e de aperfeiçoamento. Há que existir nos seres, uma consciência ética e moral harmonizada com o seu próprio desenvolvimento. Não tomar decisões influenciadas e enviesadas por dogmas ou valores religiosos que simplificam e produzem uma idéia reducionista de Deus. Não mobilizadas por medo ou desejo de fuga, porque pensam que a sua liberdade pode estar sendo tolhida por uma gravidez, e mais do que isso, pela responsabilidade de colocar um filho no mundo. Um filho que vem ao mundo não pode ser considerado necessário ou obrigatório, e muito menos que impeça as demais experiências  de crescimento intelectual, moral e espiritual a serem vividas. Dizemos não às decisões como atitudes conformistas, resignadas ou pouco reflexivas que permitam desvencilhar-se de algo. Nem porque um casamento pode ser melhor ou pior com o nascimento de um filho. Não pautar decisões pelo que os outros podem falar a favor ou contra. Tão pouco tomar decisões, envaidecidos pelo privilégio ou suposto poder de opinar sobre a trajetória de um Espírito. Não tomar decisões em nome da inteligência ou da liberdade, apenas, muito menos por precipitação. Não se trata de resolver um problema ou um enigma, seja pelo sim ou pelo não. Tais decisões precisam ter uma qualidade ética que seja digna de causar interferência num processo evolutivo. As situações que parecem constituir um impasse, e nos fazem estacar diante do existir e do fluir da vida, constituem o grande momento para ver emergir as possibilidades, que só existem no impasse ou no beco sem saída. Do caminho que parece fechar-se à nossa frente surgem veredas novas. Tais estradas não existem ainda, mas serão alternativas para um processo evolutivo prosseguir, a cada dia e a cada obstáculo, com novas atitudes e novas disposições de enfrentamento. 

Como fugir do simples e eficiente “certo” e “errado” ?

De verdade mesmo, o que carecemos sempre é de lucidez para as nossas decisões. Se somos limitados, também é limitado o nosso livre arbítrio. Difícil tomar decisões porque elas parecem nos levar para a areia movediça dos extremos. Se queremos evoluir, precisamos fugir das fórmulas que mais parecem um vestibular de fazer um “x” neste ou naquele quadradinho. Não certas ou erradas, boas ou más, oportunas ou escapistas. Mas, decisões que estejam melhorando a qualidade da trajetória dos Espíritos em evolução. Decisões que não imponham encontros ou desencontros. A consciência natural de Deus em todas as mentes, será o candeeiro para clarear as decisões. As respostas devem significar a expansão do Espírito Divino em nós, impedindo a invasão da intimidade da história dos Espíritos, e que o esforço dos passos individuais signifiquem a presença de uma paz possível e verdadeira no Espírito humano durante sua caminhada.