A curiosidade, os desejos e as dúvidas

Enéas Martim Canhadas

Por quê somos curiosos?

Porque somos naturalmente dotados dos impulsos que nos levam à frente em todos os sentidos. Somos naturalmente insatisfeitos e curiosos. Precisamos imitar mais os cães que não perdem a oportunidade de experimentar a sensação do ar fresco e do vento por puro prazer. Os cães jamais perdem a chance de sair para um simples passeio, por pura curiosidade. Precisamos resgatar o hábito de cantar no banheiro sem preocupar-se com a qualidade da voz ou com a afinação. Precisamos dançar e cantar nos dias que estamos muito felizes. A curiosidade faz sair de dentro de nós a pessoa impulsiva que cada um é. Como um saca-rolhas. Pode nos fazer tomar posse do que desejamos, ou nos faz agir sem esperar a “hora certa” como se costuma dizer. “Ai que vontade que dá!” diz bem o que nos acontece.

O que é um impulso?

É uma carga de energia que, para satisfazer nossos desejos ou necessidades, nos move repentinamente.

Isso é vontade?

Não. Não temos vontade de chupar um sorvete, mas sim desejo de fazê-lo. A vontade é mais abrangente, uma força que dirige todo o nosso ser e não deve ser confundida com os desejos. Normalmente manifestamos muitos desejos todos os dias. Daí surgem as dúvidas e então teremos que fazer escolhas. É quando entra a vontade em cena. Descartes diz que da “vontade dependem as ações da alma”. G. Murphy[1], um outro filósofo explica que “vontade é um complexo processo íntimo que influencia o nosso comportamento de modo a tornar-nos menos facilmente presa da pura força bruta dos impulsos.” Conversamos com nós mesmos, bolamos modos diferentes de manifestar a nossa situação e imaginamos as conseqüências das respostas. Se devo ou não, se estou certo ou errado, melhor ter ido ou foi melhor ficar, etc.  Os nossos desejos exigem a ação da vontade em nosso favor. Para satisfazer os desejos vamos usar a tal força da vontade para fazer as coisas. A vontade julga os conteúdos e conhecimentos do psiquismo e da mente.

Como sabemos se estamos certos ou errados?

Na medida em que o nosso espírito é consultado, porque quem pensa e, de fato, tem pontos de vista, experiências, conhecimentos anteriores, medos, etc. pois é o espírito que habita o corpo e dá vida à mente, ele faz com que nossas ações sejam pensadas, ponderadas e avaliadas. Assim é o caráter do espírito que lida com o certo e o errado, conforme o grau de progresso moral que já possui. O que está em jogo nesse momento é o juízo sobre o que nos convém[2] e o que nos é lícito, bom e saudável. Não precisamos perguntar a ninguém e nem usar o exemplo dos outros se não quisermos. Fazemos isso porque, ou não estamos certos do que queremos e precisamos de aprovação, ou porque não temos conhecimento suficiente ou ainda porque temos medo de sentir culpa e arrependimento. Culpa e arrependimento geralmente estão associadas aos conceitos de castigos ou recompensas de acordo com a idéia de Deus incutida em nossa mente, por causa da educação religiosa que recebemos.

E os tais princípios, valores, atitudes éticas e tudo o mais?

O nosso código pessoal de valores éticos, morais, espirituais já existem no espírito porque vimos de outras experiências reencarnatórias, portanto vidas já vividas. Mas estamos aprendendo e ainda não sabemos tudo. Ficamos frente a frente com os nossos princípios morais quando uma decisão é necessária. Ainda não estamos falando de virtudes, pois não somos virtuosos no sentido amplo do termo, mas o cuidado com que demonstramos intenções de agir determina a qualidade do nosso caráter. O que evidencia o nosso código moral e de valores é portanto, o que nos revela como seres éticos. A nossa maneira de ser ético, faz cair o véu do nosso verdadeiro modo de pensar, ser e agir. Com as dúvidas temos dicas que mostram o quanto ainda não sabemos, movidos que fomos pela curiosidade incessante de aprender, experienciar e desbravar.

Mas, voltando à vontade. Ela não vale nada? Somos apenas pessoas curiosas e querendo satisfazer nossos desejos?

A vontade entra na brecha entre os desejos e a dúvida, porque o espírito ainda não sabe tudo, e está em busca da virtude no seu eterno progresso. É aí que a vontade pode entrar e atuar. Não nos transformamos em espíritos virtuosos de repente. “A vontade dirige todas os setores da ação mental. Harmoniza o Espírito, disciplina e administra”[3]. Para que alguém tome posse de uma qualidade moral, será necessário repetir atitudes à exaustão no propósito de melhorar os comportamentos e atitudes. Precisamos de motivos e boas justificativas para fazê-lo. O objeto do desejo pode ser mais forte contradizendo a vontade e os princípios morais. Atitudes pensadas significam atos voluntários, conscientes, mas não espontâneos e naturais. Se o desejo e os impulsos são de má índole e fazem o torpe prazer das más realizações, é por causa da vontade que falha e cujas disposições de caráter não são boas. Quando praticamos atitudes virtuosas vamos deixando de ter que fazer escolhas, pois a nossa vontade já se tornou boa, temos assim, cada vez menos dúvidas. Atitudes edificantes ficam prontas dentro de nós. Nos debatemos menos entre o bem e o mau. Passamos a ser espíritos de boas ações e de boa fé. Tão natural como pegar uma uva no cacho.

Obs. – Leituras recomendadas:

[1] G. Murphy, in Introducion to Psychology, 1950, cap. IX, trad. ital., pág. 163, citado no Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano, Edit. Mestre Jou,  1ª edição em Português, 1970, São Paulo. Esse dicionário atualmente foi reeditado pela Editora Martins Fontes.

[2] Afirmação do apóstolo Paulo escrevendo à Igreja de Corinto. I Coríntios, 6:12 “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convém. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas”.

[3] Pensamento e Vida, ditado pelo Espírito Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, capítulo 2 “A Vontade”, FEB, 10ª edição, Rio Janeiro, 1998.