O desenvolvimento intelectual e o moral

Enéas Martim Canhadas

Ser moralmente melhor, como, por quê e para quê ?

Existe uma inteligência racional e uma inteligência moral?

A rigor não. No entanto habilidades e conhecimentos são frutos da aprendizagem, isto é, do nosso intelecto. Atitudes morais, postura ética idônea e integridade de caráter, isto sim, é fruto da habitualidade com que praticamos atos cada vez melhores e mais ilibados. A inteligência apenas dita as nossas escolhas, mas a decisão de as praticar são atos morais exercidos pelo ser ético que existe no Espírito humano, são enfim, as virtudes aprendidas ao longo da nossa evolução intelectual, moral e espiritual. As virtudes, foram antes, hábitos instalados transformados em modo de ser.

Mas estamos falando de coisa habitual como os nossos hábitos comuns?

Sim. É isso mesmo. Hábito, como escovar os dentes ou ser disciplinado no horário para o trabalho ou qualquer outro. Aristóteles[1], filósofo na antiga Grécia nos esclarece quando escreve sobre a disciplina em Ética a Nicômaco: “Sendo pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se e cresce graças ao ensino – por isso, requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito. Não é pois por natureza, nem contrariando a natureza que as virtudes se geram em nós. Diga-se, antes, que somos adaptados por natureza a recebê-las e nos tornamos perfeitos pelo hábito. Com as virtudes (...) adquirimo-las pelo exercício, como também sucede com as artes. Com efeito, as coisas que temos de aprender antes de poder fazê-las, aprendêmo-las fazendo; por exemplo, os homens tornam-se arquitetos construindo e tocadores de lira tangendo o instrumento. Da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, e assim com a temperança, a bravura, etc. Do que acabamos de dizer, segue-se que não é fácil ser bom, pois em todas as coisas é difícil encontrar o meio-termo. Por isso a bondade tanto é raro como nobre e louvável.”

É importante saber que tipo de progresso vem primeiro?

É fundamental, pois o progresso moral decorre do princípio inteligente. É por que somos Espíritos inteligentes que desejamos progredir e possuímos o discernimento para o desenvolvimento moral. À pergunta 780-a do Livro dos Espíritos[2] a resposta esclarece: dando a compreensão do bem e do mal, pois então o homem pode escolher. O desenvolvimento do livre arbítrio segue-se ao desenvolvimento da inteligência e aumenta a responsabilidade do homem pelos seus atos. Já o progresso moral,  pode não acontecer mesmo nos Espíritos muito inteligentes. Se as competências e inteligências fossem usadas indistintamente para o bem ou para o mau, como compreender o anseio de perfeição que existe como germe no Espírito? Este é o para quê do título deste artigo apontado pela resposta à pergunta 115 do Livro dos Espíritos, para progressivamente conduzir à perfeição. A felicidade eterna e sem perturbações, os Espíritos encontrarão nessa perfeição. A resposta dada no Livro dos Espíritos para a pergunta 780 esclarece que é a sua conseqüência, mas não o segue sempre imediatamente. Sem reticências o Livro dos Espíritos ainda afirma que há duas espécies de progresso que mutuamente se apóiam e entretanto não marcham juntos: o progresso intelectual e o progresso moral.

Até agora falamos do para quê. Mas, como? E por quê?

Vamos ao por quê. Almejamos perder a inocência[3] como Espíritos naturalmente curiosos e desejosos de progresso. A ordem natural das coisas como as leis naturais nos mostram, significam a presença de Deus em tudo e que tudo faz nascer, crescer, desenvolver para renascer. O Espírito encarnado está sob a influência da matéria. O homem que supera essa influência, pela elevação e purificação de sua alma, aproxima-se dos bons Espíritos com os quais estará um dia. (...) Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo. (...) Os Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico uma ação incessante. Agem sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das forças da Natureza... [4]

Com a “perda da inocência” vêem também como herança encargos e culpas, surgidas pelas responsabilidades, insucessos ou erros cometidos atribuídos a nós, na medida que as pessoas desaprovam ou criticam nossos atos, além de julgar e avaliá-los como certos e errados, bons ou maus, apropriados ou inadequados, etc.

Chegamos ao como. Como eu posso fazer?

Não precisa insistir em como você pode fazer. A questão é que temos que fazer. Talvez não seja habitual pensar em desenvolver as virtudes quando tratamos de desenvolvimento moral. Mas é isso aí. Tratar de ser um Espírito virtuoso. Existe um ser ético[5] dentro de nós. Este ser ético é que precisa ser despertado. Como todos os aspectos da autoconsciência (capacidade de discernir entre o bem e o mau), a percepção ética só é conquistada ao preço de conflitos íntimos e ansiedade. O mito de Prometeu[6] que significa previsão, foi castigado por ser capaz de ver o futuro antevendo que o fogo era bom e necessário para os homens e ser capaz de planejar, de pensar à frente. É a nossa auto consciência que nos vai fazer seres éticos desenvolvidos. Mas esta capacidade de planejamento e criatividade causa ansiedade e ao mesmo tempo remorsos pelo sofrimento que podemos causar com as nossas ações ou nos acusarem de tê-los causado. Um exemplo bem simples: você quer dar banho no seu filho, ele pequeno e rebelde, o acusa de ser mau porque você o tirou do prazer de estar à vontade pelo chão com os seus brinquedos. A Doutrina Espírita nos apresenta Deus promovendo o eterno progresso dos Espíritos, encarnados ou desencarnados e não castigando os Espíritos pelo seu progresso, sendo o seu aproveitamento menor ou maior dependendo da sua docilidade. Docilidade está entre as virtudes a serem conseguidas ou conquistadas pelos Espíritos através das suas experiências.

O que é virtude?

A virtude é uma purificação, através da qual o Espírito em desenvolvimento, aprende a desprender-se do corpo (matéria densa), com tudo o que ele tem de terreno, para  caminhar  em busca do Sumo Bem, através da prática das virtudes como a coisa mais preciosa que podemos fazer. Estamos assim, ao buscar as virtudes, imitando Deus para conseguir assimilar Deus em nossa compreensão na trajetória eterna da vida. . Para sermos sábios, devemos ser pessoas virtuosas, estabelecendo em nossas vidas a ordem, a harmonia e o equilíbrio. O ser humano não se torna virtuoso e pronto. A virtude tem que ser a história desse Ser. É a condição virtuosa do ser humano que vai fazer de nós seres excelentes, isto é, os Espíritos que, uma vez criados simples e ignorantes, cumprem a sua razão de ser, chegando ao conhecimento e reunindo as  condições para serem perfeitos. Para Aristóteles a virtude deve ser adquirida e duradoura e assim cumprimos a condição de humanização. A virtude pois, é uma disposição adquirida de fazer o bem. É o esforço para se portar bem. Esses esforços constituem os nossos valores morais. Pode ser explicada como uma disposição de coração, de natureza ou de caráter de uma pessoa que, se a conhecemos, nos faz ter mais estima por ela de tal modo que, se esta pessoa, fica longe de nós, a nossa disposição diminui. Podemos assim deduzir que a virtude de alguém convivendo conosco nos contamina.

[1] Citado em O que é Ética, de Álvaro L. M. Valls, Edit. Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, nº 177, 13ª reimpressão, ano 2000, São Paulo. O texto original encontra-se no livro de Aristóteles Ética a Nicômaco.

[2] Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, trad. de J. Herculano Pires, 9ª edição, Agosto de 1997, Edições FEESP. Todas as citações do Livro dos Espíritos neste artigo, foram tomadas desta edição e podem ser identificadas por estarem grafadas em itálico.

[3] Esta expressão é do Psicólogo argentino, Enrique Pichon Rivière que afirma “aprender é perder a inocência”.

[4] Livro dos Espíritos, Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item VI – Resumo da Doutrina dos Espíritos.

[5] Citado em O que é Ética, de Álvaro L. M. Valls, Edit. Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, nº 177, 13ª reimpressão, ano 2000, São Paulo.

[6] Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu-o aos seres humanos para que se aquecessem e produzissem. Zeus enraivecido, arrastou-o ao Cáucaso, acorrentando-o ao pico de uma montanha. Depois passou a torturá-lo, mandando que um abutre se banqueteasse durante o dia com o fígado de Prometeu e que a víscera crescesse durante a noite, para que a ave novamente o atacasse, atormentando-o eternamente.