Diferenças Entre Ser uma Autoridade e Ser Mandão

Enéas Martim Canhadas

Por quê tememos a autoridade?

Antes de fazer esta pergunta é necessário fazer uma outra: “Por quê nós temos medo da autoridade?” Se esclarecermos o medo, provavelmente vamos saber lidar melhor com as ameaças representadas por todas as atitudes de mando, comando e autoridade. A questão não se resolve com uma resposta simples. Quando temos temor frente à autoridade, cabe uma parcela de responsabilidade a quem a representa para nós, mas também cabe uma parcela a nós mesmos, porque a figura de autoridade ou esse temor de que estamos falando habita o nosso íntimo e nos faz, geralmente, muito mal.

Somos nós mesmos que deixamos os medos da autoridade tomar conta da gente? Como este medo surge?

A figura de autoridade torna-se muito grande sobre nós devido a importância ou valor que atribuímos a ela. As raízes desses medos tem início, bem cedo, na maneira como a autoridade é passada para nós através da educação. Primeiramente, a influência do lar. Os diálogos que são ouvidos pelas crianças é uma das maneiras como elas aprendem. Os pais são os seus principais autores. Quando a mãe diz, de forma natural e inconseqüente “você vai ver quando o papai chegar, vou contar tudo para ele”, não tem idéia do conteúdo que está passando para o seu filho relacionado a autoridade. Nesta idade, a criança não sabe ainda que é a própria mãe que conta para o pai tudo que aconteceu durante o dia na ausência dele. Para a criança, fica a constatação de um fato misterioso. O pai fica sabendo do que acontece mesmo não estando presente. Num outro momento, a mãe usa outra expressão como “papai do céu vai castigar você se mentir outra vez”. Para a criança o papai do céu que pode ficar sabendo da sua mentira é outro mistério. Na cabecinha infantil estes dois mistérios começam a funcionar em conjunto. Papai do céu pode saber de tudo que ela faz e o seu papai também fica sabendo das coisas que acontecem mesmo não estando presente. Ambos os papais representam autoridade invisível. Mais do que isso, uma autoridade sobrenatural porque o papai do céu Todo Poderoso fica na mesma categoria e dimensão do seu papai, pois ambos adquirem o mesmo tipo de poder. É o que eu chamo de caráter sobrenatural da autoridade. Daí por diante, qualquer figura de autoridade vai ter um traço de poder misterioso e sobrenatural. Esta verdade que foi fixada pela criança vai sendo confirmada pela vida afora, com expressões do tipo “se a tua professora ver estar letra, você vai levar um zero deste tamanho!” ou “se o teu chefe te pega fazendo isso, você vai levar uma bronca daquelas” até que as pessoas se casem, constituindo um novo casal e reiniciem o ciclo ao educar os seus filhos, quando a nova mãe ou o novo pai vai usar, e pior do que isso, vai repetir uma expressão semelhante a que ouviu na infância “se a tua mãe ver você mexendo na água, ela vai te bater!”. Isto dito pelo pai ou pela babá, tem o mesmo efeito da frase da mãe “você vai ver quando o seu pai chegar”.

As frases ouvidas durante a infância recebem outras versões, mudam os personagens, mas o sentido continua o mesmo. Sempre conferindo à figura de autoridade, um traço de super poder, na medida em que pode punir, mesmo não estando presente ao ato que a criança pratica. É o poder praticado à distância, não porque esse poder exista de fato, mas ele passa a agir dentro de cada um de nós como verdadeiro. Esta verdade interna aparece nos medos e pelas sensações de perseguição que vêm a nossa mente, quando nos sentimos emocionalmente ameaçados pela autoridade invisível que pode ver e punir. Chefes, professores, policiais e principalmente os pais, moram dentro da gente como autoridades causadoras de medo, porque representam o castigo que devemos sofrer por fazer alguma coisa errada.

Que diferenças podem existir entre a autoridade e a pessoa que manda?

As diferenças residem nas diversas maneiras como a autoridade é exercida. Estas maneiras de que falamos, vão determinar a qualidade do modo de exercer autoridade e, ao mesmo tempo, construir a legitimidade da autoridade exercida por alguém. O uso do autoritarismo, é apenas um modo de exercer a autoridade, e podemos dizer que é o modo ruim ou desqualificado de uma pessoa em posição de comando ou de liderança, atribuindo-se o título de dono da verdade. Alexandre Herculano disse que “o princípio da autoridade, considerado como critério único e exclusivo da verdade, é não menos falso que o da razão, da consciência, ou de qualquer outro, tomado do mesmo modo exclusivamente”. A posição de mando não confere à pessoa a condição de idônea, nem torna a faz verdadeira nos seus atos. A pessoa que manda, deve construir a sua autoridade durante o tempo que está a frente de um grupo ou exercendo um cargo que lhe permite ter pessoas subordinadas, para que possa vir a ser referência para os outros, pelo seu modo de ser e de agir. Não precisará provar nada, pois é como é. Será reconhecida. Saberá ouvir quem a procure sem medos e sem sentir-se ameaçada. Possui sabedoria e conhecimentos para criar e estabelecer regras e normas, e saberá avaliar as exceções quando elas surgirem. Será capaz de demonstrar visão de futuro, percebendo novas tendências, novos valores, hábitos e costumes. Mostrar-se-á como uma pessoa de mente atualizada e inovadora. Acima de tudo, será capaz de praticar atitudes éticas. Nenhuma dessas qualidades você vai encontrar na pessoa mandona, porque ela depende dos outros estarem submissos e concordes para conseguir demonstrar pseudo firmezas e aparente segurança nas atitudes.

À luz da Doutrina Espírita, como podemos esperar as atitudes de autoridade?

A faculdade mediúnica possibilita a ligação entre as inúmeras dimensões vibracionais do Universo, mostrando que a vida é ampla e infinita e, para que possamos ser bons instrumentos da Vontade Divina, precisamos apenas viver a normalidade da condição humana.

Por não termos “senso de humanidade”, é que não aceitamos o atual estágio evolutivo, ou seja, não admitimos viver, no momento presente, a etapa existencial que o Criador nos destinou. No Livro dos Médiuns em resposta à pergunta 226 encontramos a afirmação de que o desenvolvimento da mediunidade não se processa na razão do desenvolvimento moral porque a faculdade mediúnica é orgânica e sendo assim, independe da moral. Mas o mesmo não acontece com o uso da mediunidade que, pode ser bom ou mau, segundo as qualidades de cada um. Desta forma, a autoridade moral que podemos esperar de um dirigente ou praticante da Doutrina Espírita que se constitua autoridade, esta sim, depende da pessoa que vai, ao longo da vida, amadurecendo um pouco mais o seu Espírito para encontrar-se já, em elevação moral e ser capaz de exercê-la com este traço. Podemos pois, afirmar que uma figura de autoridade de traços morais e éticos duvidosos, não sabe administrar bem o que é valor pessoal ou valor de outras fontes, querendo usar como se fosse dele, a sabedoria e o discernimento de uma autoridade que não lhe pertence.

Você pode comentar alguma coisa sobre a questão ética? O que é mesmo?

A palavra Ética vem do latim e significa moral. Segundo o Dicionário Aurélio, é o estudo dos juízos de apreciação que fazemos sobre a conduta humana e suas atitudes, classificando-as do ponto de vista do bem e do mal dentro de uma determinada sociedade.

Segundo o pensador francês André Comte-Sponville, não nascemos virtuosos, mas nos tornamos pela educação, pela moral, pelo amor. Agir bem e, antes de mais nada, fazer o que temos que fazer, e depois o que se deve fazer, o que vem a ser moral. Portanto, a moral estará mais no que devemos fazer. E é claro que nesse dever, entra em questão o respeito e a consideração aos outros. Como seres que um dia alcançaremos as virtudes, ser ético é praticar o senso de justiça sendo portanto, justo e bom. Nunca fazer alguma coisa para alguém que não gostaríamos que fizessem a nós.

02/12/2002