O destino de todos nós

Enéas Martim Canhadas

Existe Destino ? Se existe, o que é?

São perguntas fáceis de fazer e bastante complexas para responder. Podemos afirmar inclusive, com base nos ensinamentos da Doutrina Espírita, que existe a partir do momento que o arquitetamos. Na questão 851, o Livro dos Espíritos nos explica que a fatalidade não existe senão para a escolha feita pelo Espírito, ao encarnar-se, de sofrer esta ou aquela prova; ao escolhê-la ele traça para si mesmo uma espécie de destino (...). Ainda quando os Espíritos perguntaram na questão 859-a: “Há fatos que devem ocorrer forçosamente e que a vontade dos Espíritos não pode conjurar? – A resposta foi “Sim, mas que tu, quando no estado de Espírito, viste e pressentiste, ao fazer a tua escolha. Não acredites, porém, que tudo o que acontece esteja escrito, como se diz. Um acontecimento é quase sempre a conseqüência de uma coisa que fizeste por tua livre vontade, de tal maneira que, se não tivesses praticado aquele ato, o acontecimento não se verificaria.”

Podemos usar a imagem de um viajante marítimo, como foi Cristóvão Colombo, por exemplo, que um dia se propôs a encontrar o caminho das Américas. A partir do momento que faz a sua carta marítima de viagem para chegar ao nosso continente, estava traçado o seu destino. Da mesma forma, arquitetamos o futuro na medida em que elaboramos o nosso projeto encarnatório. Emmanuel afirma que “o destino é um campo restituindo o que recebe”.[1] Reforça a idéia de que o campo nos dá o resultado de um processamento que alimentamos com as sementes que jogamos na terra, o que foi confirmado pelo Cristo quando conta a parábola dos talentos.[2]

Onde entra Deus nesta história?

Vamos fazer uso do mito do primeiro homem, a história bíblica de Adão e Eva.[3] Este conto da antiga Babilônia[4], reescrito e levado para o Antigo Testamento por volta do ano de 850 antes de Cristo, vai ilustrar e ajudar a responder. A questão 115 do Livro dos Espíritos, nos ensina que fomos criados simples e ignorantes para progredir naturalmente. O nosso objetivo é ser Espírito puro e atingir a perfeição sendo plenamente feliz e sem perturbações. Podemos fazer uma analogia com o mito citado há pouco, na medida em que, figurativamente o primeiro casal morando no Paraíso, também foi criado simples e ignorante. Por isso estavam impedidos de comer do fruto da árvore que se encontrava no Centro do Jardim, pois se comessem o tal fruto, tornar-se-iam como Deus, conhecedores do bem e do mal. Esta desobediência, significava o salto qualitativo para que a criatura passasse a ser detentor do livre arbítrio. Sabemos que o princípio inteligente habita em nós desde o início como legado da inteligência da Criação. Os Espíritos passaram então, a buscar o seu próprio progresso, uma vez que tornaram-se conscientes de que precisavam e podiam progredir. A desobediência também representa a libertação das limitações do Paraíso, uma vez que, para o conhecimento é preciso perder a inocência e toda a ingenuidade. Ficar no Paraíso, para manter a segurança e a comodidade, resulta em permanecer sempre no estado de ignorância. Ora, se Deus sabe todas as coisas, sabia também que o casal não iria obedecer a recomendação de não comer o fruto proibido. Desta maneira Deus sabe o que vai acontecer, pois criara o Ser humano para ser ele mesmo, tornando-se capaz de projetar o seu por vir, o seu próprio destino. O filósofo Martin Heidegger afirma o “Destino como sendo a decisão autêntica do homem. O Destino é a decisão de voltar sobre si mesmo e de legar para si e recolher por si a herança das possibilidades passadas.”[5] Recolher dentre as possibilidades que o ser humano descobre e desvela para sua vida e colher delas, o legado para si, tendo como conteúdo a herança de possibilidades passadas, combina muito bem com a trajetória do Espírito que, de sucessivas encarnações, vem tecendo o seu Destino, através dos aprendizados já conseguidos e dos novos ainda a serem obtidos.

Ao fazermos o Destino, não podem surgir os acasos ? Deles não temos culpa.

Para isso vamos buscar apoio no conceito de Sincronicidade[6] desenvolvido por Jung, que admite conecções causais entre os acontecimentos. Esta teoria nos diz que o mundo no qual vivemos é organizado a partir dos modos de ver que se tornam dominantes por nós mesmos, isto é, a representação do mundo é psiquicamente determinada. Vemos as coisas, classificamos e as compreendemos, dando sentido a elas a partir de pontos de vista próprios e de como pensamos. Entra em cena o livre arbítrio que é uma propriedade natural do Espírito, uma vez que, ninguém pode entrar em nossa mente e mudar nossa opinião ou ponto de vista. Podemos ser influenciados na medida em que nos sentimos vulneráveis, inseguros ou temerosos sobre o que fazer, mas a decisão será nossa em todos os casos. É o foro íntimo. Basta pensar que, quando estamos fortemente determinados a fazer alguma coisa ou por em prática uma vontade, não perguntamos a ninguém, não buscamos opiniões e faremos às escondidas para que ninguém nos veja. Vamos evitar interferências e palpites sobre o que estamos prestes a realizar. Nesse poder que detemos sobre a nossa vontade é que reside o livre arbítrio.

Mas até mesmo as coisas mais absurdas que nos acontecem serão de nossa responsabilidade ?

Recusamos o causalismo das próprias ações porque temos que assumir as responsabilidades por elas. Admitir causas aos acontecimentos, faz com que as pessoas possam atribuir múltiplas perspectivas aos fatos observados, sendo possível conferir significados segundo os nossos princípios e idéias. Podemos julgar, decidir e escolher sobre os eventos que queremos enxergar, deixando de ver outros segundo as conveniências. No comentário da resposta à pergunta 852 do Livro dos Espíritos, temos: “as idéias justas ou falsas que fazemos das coisas nos levam a vencer ou fracassar, segundo o nosso caráter e a nossa posição social. Achando mais simples e menos humilhante para o nosso amor-próprio atribuir os nossos fracassos à sorte ou ao destino, do que a nós mesmos.

Atitudes morais e sentimentos que parecem não vir de nós, como ficam ?

Ficam ainda mais complicadas, porque o causalismo torna explicáveis apenas os eventos que se desenvolvem no espaço e no tempo. Para isso usamos as datas para localizar os acontecimentos. Na vida moral, os atos e atitudes são, mais ainda de nossa responsabilidade pois, os sentimentos não se conservam. Podemos estar certos e convictos do nosso afeto ou raiva para com alguém, e apenas pouco tempo depois, nos sentirmos diferentes, não sabendo explicar o que causou a mudança. A resposta à pergunta 861 do Livro dos Espíritos sobre este particular explica “quanto aos atos da vida moral, emanam sempre do próprio homem, que tem sempre, por conseguinte, a liberdade de escolha: para os seus atos não existe jamais a fatalidade”.

Como continuar construindo o nosso Destino ?

Acredito que possamos montar uma base para a construção e desenvolvimento do destino humano pensando em três grandes colunas de sustentação. Primeiramente devemos levar em conta que, a partir do momento em que o Ser humano adquire discernimento entre o bem e o mal, e precisa promover o seu próprio progresso, ele passa a ser uma criatura angustiada com as suas próprias necessidades, urgências e objetivos. Torna-se assim, um sujeito ético. Agora preocupa-se com ele mesmo e em como viver e conviver com os outros de modo a não causar-lhes mal. A Ética traduz-se por uma ciência dos princípios e do comportamento moral e da natureza do bem, afinal, como nos ensina Aristóteles, vivemos em busca do supremo bem. Em segundo lugar, tornamo-nos seres preocupados e responsáveis pelo nosso desenvolvimento moral. Moral traduz-se por expressão de atitudes positivamente avaliáveis por nós mesmos e pelo nosso semelhante. Como agimos cientes dos nossos deveres, isso nos toca e toca aos outros também. É o discernimento do que devemos fazer, não do que temos que fazer. Em terceiro lugar falta apenas o coroamento dessas atitudes que é a prática da justiça. Fazer em todas as circunstâncias o que queremos que os outros nos façam.

[1] Citado no Dicionário de Filosofia Espírita, L.Palhano Jr., verbete Destino, Edições Celd, Rio de Janeiro, 1997.

[2] A parábola dos Talentos está narrada no Evangelho Segundo Matheus, 25:14 a 30.

[3] Livro de Gênesis, caps. 1, 2 e 3.

[4] Citado em “O homem à procura de Si mesmo”, de Rollo May, Coleção Psicanálise, Edit. Vozes, São Paulo, 1973.

[5] Citado no verbete Destino, “Dicionário de Filosofia” de Nicola Abbagnano, Edit. Mestre Jou, hoje Martins Fontes, 1970, São Paulo.

[6] Doutrina da psicologia analítica junguiana. (Carl Gustav Jung, Suiço, 1875-1961), publicada entre 1951 e 1952. Admite uma correlação entre estados interiores e eventos exteriores, um paralelismo temporal, espacial e de significado entre condição psíquica e evento físico.