Tudo passa

Enéas Martim Canhadas

Se você consultar o dicionário na palavra ciclo, vai surpreender-se. Pelo menos aconteceu comigo. Tantos os significados dessa pequena palavra de apenas cinco letras. A partir daí, comecei a pensar o quanto vivemos no dia-a-dia muitos ciclos. A inspiração e a expiração, completa um ciclo que nos mantém vivos. A noite seguida de um novo dia, também completa outro ciclo. A semana é um ciclo. O ano é um ciclo, e hoje sabemos com precisão que há tantos anos diferentes quantos são os planetas da nossa galáxia e também dos corpos celestes existentes no Universo. A seqüência de quatro luas dentro de um mês também perfaz outro ciclo. Os nove meses de uma gestação dando à luz um novo ser, também constitui um ciclo e assim por diante. Há significados próprios para esta palavra em quase todas as áreas de conhecimento.

Que lições podemos tirar dessa compreensão, e que correlações podemos fazer com a Doutrina Espírita?

A primeira lição é que tudo passa, mas ao mesmo tempo tudo volta. Na verdade, tudo continua perenemente. Os ciclos se repetem, no entanto nunca no mesmo tempo. O ciclo anterior seja qual for, aconteceu no passado. Conta-se que um professor perguntou aos seus alunos se o pêndulo do relógio estava indo ou vindo. Depois de muita discussão, o professor explicou que o pêndulo marcava a passagem do tempo e por isso, ele estava sempre indo. Não podemos discordar completamente desse professor, uma vez que o presente é apenas um momento, e o mais é passado.

A segunda lição é que não nos é possível viver a mesma experiência da mesma maneira. Os ciclos indicam o progresso das coisas, porque na medida em que eles se repetem são outras pessoas, outros aprendizados, outras idéias, outras experiências, novos tempos, etc. Nunca entramos no mesmo rio. Na sabedoria Chinesa, todo ano a primavera se repete como uma das estações, mas as flores são sempre novas, outras.

A terceira lição nos mostra que os ciclos indicam apenas o fim de uma fase. Aliás como o círculo não tem começo e não tem fim, quando uma fase termina a outra já começou. Portanto, não é o fim de tudo, é o recomeço perene. A idéia do círculo, quer dizer ciclo, simboliza a perfeição, exatamente por não ter nem começo e nem fim. No I Ching, o Livro das Mutações, o penúltimo hexagrama de número 63, significa “após a conclusão” e o último, de número 64, significa “antes da conclusão”, o que nos transmite a idéia de que a vida é circular.

A quarta lição nos ensina que os ciclos são grandes e também pequenos movimentos, como já vimos acima nos vários exemplos. São longos períodos e também breves espaços de tempo. Não importa o tamanho do ciclo. A significação de um ciclo de experiências, portanto de vida, não se mede por uma métrica emocional ou física como uma trena. A grandeza e importância dos ciclos, mede-se pela intensidade dos sentimentos. É esta intensidade que marca o valor das experiências a que nos propomos passar na atual encarnação e é o que realmente nos modifica e permanece como progresso conseguido.

A quinta lição que podemos aprender a partir do conceito de ciclo é que a reencarnação, constitui também um ciclo. Desta maneira aprendemos que as encarnações sucessivas são um fenômeno natural, de modo que a própria evolução é um processo natural, o que comprova a sabedoria Divina e a plena validade das leis naturais como obra de um Criador Supremo.

Depois das lições extraídas, uma outra questão fundamental surge no que se refere a como estas verdades nos tocam e o quanto evocam as nossas responsabilidades. Por quê é importante fazer bem as coisas dentro de um ciclo e por quê isto nos torna responsáveis?

Primeiramente é necessário compreender que vivendo bem a experiência de um ciclo, é que nos tornamos aptos para viver ainda melhor o próximo, isto é, aproveitando e aprendendo com o que vivemos na fase anterior. Se vivermos de maneira inconseqüente será equivalente a não o termos vivido, pois nenhum aprendizado poderemos acumular de uma vivência assim. A consciência nos leva à segunda compreensão.

Precisamente a consciência da nossa existência dentro de um determinado ciclo é o que nos dá a ciência da experiência e de nós mesmos. Aliás, quando não há consciência, não há vida. Estar vivo é estar consciente. O ser humano é o único capaz de ter consciência bastante ampla de que está vivendo as experiências da sua vida. Por isso, podemos problematizar, isto é, podemos nos propor problemas, metas e desafios, um futuro enfim, e usar a sabedoria do passado. Se o ciclo não nos trouxer uma consciência do que fazemos, de nada nos valerá para o próximo.

Mais uma compreensão advém da consciência que nos faz responsáveis pelos ciclos que vivemos, uma vez que, desse fato decorre tanto a angústia pelo futuro que virá, como também nos faz preocupados conosco mesmo e também com os outros. Esses sentimentos criam em nós a consciência ética e o dever moral, ou como nos ensina o Evangelho Segundo Espiritismo, cria uma coragem moral.

As transformações que conseguimos realizar num ciclo de experiências, vai atomizar, isto é, reorganizar as moléculas de energia em novas combinações, e assim estaremos melhor providos no próximo ciclo de vida. Desta forma dá-se a evolução, através de um perene processo de reciclagem e reorganização de energias. Movimentar as energias ao viver um ciclo, naturalmente faz com que estejamos mobilizando forças para um novo ciclo que virá, naturalmente.

A compreensão da vida em ciclos de evolução nos mostra que não se trata de uma vivência linear, isto é, as experiências não acontecem uma atrás da outra. É com o movimento circular que vamos ascendendo, isto é, subindo na compreensão da vida pelas experiências vividas. É a chamada espiral da vida. Etmologicamente a palavra ex + peri + ciência compõe a palavra experiência que podemos traduzir por trazer para fora (ex) a ciência, isto é, o conhecimento das coisas que estão à nossa volta (peri). Não existe a possibilidade de voltar para trás, porque quando estamos circulando, de certa forma, sempre estamos andando para frente. A idéia de frente e atrás, apenas existe quando pensamos de maneira linear.

O conhecimento do tempo que existe dentro de nós, isto é, do tempo emocional, aquele tempo que parece passar muito rápido quando estamos muito envolvidos com um acontecimento, e que parece andar muito devagar quando estamos enfastiados de algo, dá-nos a noção da consciência que temos das coisas e como esta consciência nos afeta. Nesta vida e neste plano, nos situamos pelo tempo cronológico e pelo espaço que ocupamos. No Plano Espiritual nos situamos pela consciência. Assim sendo, viver as experiências com a consciência de que são ciclos de vida, é um treino para viver, futuramente, numa outra dimensão, onde o tempo cronológico deixa de existir para dar lugar à eternidade da existência.

28/04/2004