A respeito de Roustaing

Jorge Campos

(Em reposta a comentários feitos no boletim 311 sobre Routaing)

Em relação à citação e dúvidas sobre a obra Os quatro Evangelhos de J.B. Roustaing comentadas no Boletim nº311, gostaria de expressar minha opinião a título de esclarecimento. No ano passado, em face dessa questão polêmica divulgada nos principais jornais e livros espíritas do País, resolvi partir para a leitura minuciosa e crítica dos quatro volumes, editados unicamente pela Federação Espírita Brasileira - FEB, visando formar juízo de valor e me posicionar dentro do movimento espírita. E após percorrer extensos trechos, alguns prolixos e repetitivos, encontrei, além de sérias distorções doutrinárias, várias elocubrações que destoavam dos critérios lógicos e racionais que caracterizam e fortalecem a doutrina kardequiana. Apenas como exemplo citarei algumas:

A reencarnação é considerada como um CASTIGO e aplicada somente às almas boas que erram, reforçando o dogma da "queda dos anjos" tão ao gosto da ortodoxia católica. E esse castigo, pasmem, seria a encarnação em um mundo primitivo na forma de criptógamos carnudos, ou como se voltássemos como caranqueijos, creditando a teoria da METEMPSICOSE, descartada na codificação . Por outro lado, os espíritos que fossem bem aplicados teriam uma evolução em LINHA RETA, saindo da infância da criação e chegando à perfeição sem passar pela carne, mesmo na nobre tarefa de missionários. Daí, a tese do corpo fluídico de Jesus para explicar sua passagem neste planeta de expiação e provas. Nesta situação, Jesus foi obrigado a fingir que nasceu, mamou, comeu, bebeu, sofreu, falseando inclusive sua morte, na frente de vários tolos-seguidores e algozes. O mestre que representa o nosso modelo de ética, moral, caridade, resignação e sacrifício, teria vindo como um mero farsante.

Quando à criação da essência espiritual do ser inteligente do Universo, o Espírito, afirma que foi retirada por Deus do todo(fluido) universal, confundindo espírito com matéria, e apregoando o puro PANTEíSMO. Só por aí, pode-se avaliar o resto do conteúdo desta falaciosa obra, a qual teve a pretensão de suplantar a Doutrina do Espíritos superiores, supervisionada pelo Espírito da Verdade, e elaborada brilhantemente por Allan Kardec, o bom senso encarnado, na citação de Flammarion.

Na época em que esses livros surgiram, por volta de 1863, o codificador já havia lançado os três livros que balizam a doutrina: O Livro dos Espíritos, O Livro do Médiuns e o Evangelho Segundo o Espiritismo; e setenta e duas edições mensais da Revista Espírita, todas de grande aceitação na comunidade espírita do mundo, e o Sr Roustaing com o apoio de uma única médium, por puro orgulho e vaidade, tentou causar sensacionalismo com esse sistema que denominou " A Revelação da Revelação", quando mais apropriado já foi se tem dito, seria A MISTIFICAÇÃO DA MISTIFICAÇÃO.

Ao confrade Alexandre Costa, gostaria de esclarecer que quando os livros de Roustaing aportaram no Brasil Imperial, e foram traduzidos para o vernáculo, encontraram personalidades muito ligadas ao catolicismo e por isso essa teoria de cunho místico e dogmático, teve alguma aceitação, paralelamente à obra kardequiana. Na França, berço do lançamento, esses livros praticamente não saíram das prateleiras, sendo descartados como integrantes da doutrina pelos grandes pensadores que sucederam Kardec: Léon Denis, Gabriel Dellane, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano etc.

Desconheço também qualquer citação a Roustaing nas mensagens de iluminados Espíritos como Emmanuel, André Luiz ou Bezerra de Menezes, na psicografia de Chico Xavier. Passando em revista os livros de esclarecidos escritores como: Carlos Imbassahy, Cairbar Schutel, Júlio Abreu Filho, José Herculano Pires, Deolindo Amorim, Jorge Rizzini, Wilson Garcia e Nazareno Tourinho, não vemos uma única referência a essa esdrúxula teoria, apoiando seus pensamentos e interpretações e quando o fazem, é para alertar os companheiros e incautos do caminho, quanto ao erro de sua adoção ao corpo doutrinário kardequiano.

Iglesia, com a sincera intenção de poupar-lhe o trabalho que tive em ler esses quatro livros editados pela FEB, remeto-lhe às publicações "O corpo fluídico" de Wilson Garcia e "Retalhos de um atalho" de Nazareno Tourinho. Fica a sugestão, mas se resolver confirmar o veredito, então acenda a luz da mesa de trabalho e boa viagem a terra da fantasia e da supertição e do misticismo.

Fraternais saudações,

Jorge Nelson Campos

(Publicado no Boletim GEAE Número 317 de 3 de novembro de 1998)