Análise semiótico-lingüística de dados do evangelho

Sady Carlos de Souza Jr.

Aspectos lingüísticos da "água" nos capítulos de 1 ao 7 do "Evangelho Segundo S. João".

As circunstâncias que levam a nos determos nestes capítulos iniciais do livro Evangelho Segundo S. João, do Novo Testamento bíblico, são devidas às constatações de variantes da lexia água", empregada aqui, vale dizer, como palavra-chave, de forma a que, de início, enseje ao pesquisador cuidadoso, em cada fato narrado, a suposição de traços sêmicos diversos para o mesmo objeto isotópico. Esta variante sêmica para a mesma lexia transformada em palavra-ocorrência em cada narrativa capitular, expressa, antes de tudo, a riqueza que se reveste o discurso do autor, que explana, na diversidade dos apontamentos, certa unidade coesa e seqüencial. São os seguintes os aspectos enunciados pelo evangelista tendo a água como signo importante em relação a estrutura narrativa da obra:

1.º) Cap. I - de reconhecimento, aviso e marco (aspecto histórico) - Dois testemunhos de João Batista, v. 31: "e eu não o conhecia, mas vim batizar em água, para ele ser reconhecido em Israel";

2.º) Cap. II - do primeiro 'milagre', a transformação da água em vinho (aspecto químico) - Bodas de Caná, v. 7: "...enchei as talhas de água".

3.º) Cap. III - de elemento ou princípio gerador e escatológico (aspectos filosóficos) - Jesus e Nicodemos, v. 5: "Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer por meio da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus";

4.º) Cap. III - de purificação da alma: batismo (aspecto religioso) - Novo testemunho de João Batista, v. 23: "...porque ali havia muita água, e o povo concorria, e era batizado".

5.º) Cap. IV - sustentador da vida material e espiritual (aspecto biológico) - Jesus e a Samaritana, diante do poço d'água de Jacó falando com uma mulher, v. 13: "...mas o que beber da água que eu lhe der, jamais terá sede...";

6.º) Cap. V - a cura no sétimo dia (aspecto social) - Jesus cura um paralítico junto à piscina probática, v. 4: "E o primeiro que descesse à piscina, depois do movimento da água ficava curado de qualquer doença...".

7.º) Cap. VI - o corpo de Cristo, 'pão' (aspecto físico) - Jesus anda sobre as águas, v. 19 "...viram Jesus, que ia andando sobre o mar e se aproximava da barca;".

8.º) Cap. VII - felicidade da alma (aspecto psicológico) - Jesus ensina no último dia da festa, v. 38: "O que crê em mim, como diz a escritura, do seu seio correrão rios de água viva."

Os "aspectos" dos signos foram qualificados segundo um contexto discursivo em que o termo "água" se apresentava. Alertamos, entretanto, para a constatação de sua diversidade aspectual enunciada de forma consecutiva, como estruturas sintáxicas pertinentes e exíguas para possível desdobramento fenomenológico.


A significação da lexia "RENASCER" como agente da potencialidade do "SER".

No primeiro parágrafo do Cap. 3 do Evangelho de S. João, a expressão de dúvida em Nicodemos se constata a partir da repetição no texto, por 6 vezes da expressão "pode", que parece inserir um grau de importância sobre a potencialidade do ser (em Cristo), e a busca do SER tornar-se crível (em Nicodemos), exemplos: v.2 -"...porque ninguém pode fazer estes milagres que tu fazes, se Deus não estiver com ele"; v.3 -"Não pode ver o reino de Deus senão aquele que nascer de novo"; v.4 -"...Como pode um homem nascer sendo velho? porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e renascer?"; v.5 -"...quem não renascer por meio da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus"; v.9 -"Como se pode isto fazer?". Naturalmente, a questão sobre renascer" tenderia a insurgir sobre o interlocutor - Cristo - a fim de Nicodemos precisar sua melhor interpretação, tentando também fazê-lo justificar-se. Acresce-se que a potencialidade do ser posto em dúvida o será diante de um suposto enunciado afirmativo (dialeticamente negado). Desse modo, Nicodemos reconduz ao discurso de Cristo, uma outra e mesma pergunta. (Nota: na narrativa temos Cristo respondendo uma pergunta não ouvida pelo evangelista, ou seja, por isso o diálogo começar por uma resposta). Eis, a repetição, queremos crer, da mesma pergunta - agora, num caráter provocativo: v.4 -"Como pode um homem nascer sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e renascer?".

A exegese canônica tem no batismo simbólico o significado do discurso, entretanto vale lembrar: 1) Cristo frisa duas formas distintas de 'renascer' e não uma só como caberia ao batismo: v. 5 -"... quem não renascer por meio da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do espírito, é espírito". 2) O estranhamento de Nicodemos, nesta interlocução, não sugere o batismo, pois antes de Cristo já batizavam! E face esta dúvida persistente de Nicodemos, Cristo afirma: v.7 -"Não te maravilhes..." e pela terceira vez repete aquela frase: "Importa-vos nascer de novo". Nota-se a questão da repetição em si do jogo como fomento ao sinal de "voltar a ser". O fato novo explica-se nesta frase: "Tu és sábio em Israel e não sabes estas coisas?" 3) Ao começar o capítulo supracitado temos o motivo pelo qual o sábio judeu procurou Cristo: v.2 -"Mestre sabemos que foste enviado por Deus para ensinar, porque ninguém pode fazer estes milagres que tu fazes...". Ora, se "renascer" fosse o significado de batismo", então os homens batizados explicariam aqueles milagres.

Assim, confere-se ao significado de "renascer" um grau sígnico móvel na potencialidade interpretativa do Ser em São João.

(Publicado no Boletim GEAE Número 292 de 12 de maio de 1998)