Chico Xavier na história do Espiritismo

Francisco Thiesen

A revista "Reformador" (FEB), na edição de agosto de 1977, transcreve trecho de uma entrevista realizada pelo jornal "O Clarim" com pessoas de destaque dentro do Movimento Espírita, por ocasião da comemoração dos 50 anos de atividades mediúnicas de Chico Xavier. O trecho corresponde a questão apresentada ao presidente da FEB, Francisco Thiesen, sobre a posição de Chico na história do Espiritismo. A questão levantada, e sua resposta por Thiesen, são bastante interessantes e as transcrevemos abaixo:

O Clarim: Seria lícito analisar-se a evolução do Espiritismo, no Brasil, dividindo-os nos períodos antes e depois de Chico Xavier ?

Francisco Thiesen: Os ensinos dos Espíritos são dosados na conformidade do progresso intelectual e moral, do amadurecimento espiritual dos homens terrenos. Três grandes revelações marcaram diferentes etapas, no curso dos milênios, na popularização do conhecimento das coisas espirituais. Na última delas - a Espírita - como foi recentemente abordado em editorial de "Reformador" (março, 1977), o próprio Codificador reportou-se a três períodos distintos, balizando o desenvolvimento das idéias espiritistas: o da curiosidade (intensa e ruidosa fenomelogia); o do raciocínio e da filosofia (estudo e meditação sérios, então apenas no início); e o da aplicação e das conseqüências (que se seguiria, inevitavelmente, aos outros dois). A propósito da questão 160 de "O Livro dos Médiuns", Emmanuel lembrou os períodos aludidos e denominou-os como de aviso, chegada e entendimento.

No Brasil, desde cedo, ainda no século XIX, foi dada ênfase ao sentido do terceiro período, da aplicação e das conseqüências (Allan Kardec) ou do entendimento (Emmanuel), que é o da vivência do Evangelho de Jesus Cristo, do aspecto religioso da Doutrina dos Espíritos, a que conduz a lógica das conclusões do estudo metódico e sistemático dos aspectos científico e filosófico, como muito bem elucida o próprio Espírito Emmanuel em "O Consolador".

A elaboração dos trabalhos, no transcorrer de um século de vida do Espiritismo, no Brasil, em pleno período terceiro, como não podia deixar de ser, seguiria, como seguiu, orientação nos mesmos moldes dos outros dois: no sentido do esforço conjugado dos Planos Espiritual e Físico do planeta, da contribuição das humanidades invisível e visível que o povoam.

À luz dessa realidade, o pesquisador, o estudioso, o espírita laborioso encontrará sempre, e licitamente, pontos demarcantes da evolução do Espiritismo, em nosso país e fora dele, todos importantes e necessários, como contributos da edificação comum da mentalidade cristã e das obras que decorrem das atividades dos seres desencarnados e encarnados, solidários entre si e perseguindo ideais na imensa seara do Senhor.

Nas linhas gerais do processo evolutivo da Doutrina dos Espíritos, no Brasil, se respeitadas as premissas alinhadas neste escorço, parece-nos perfeitamente justo identificar as múltiplas fases do trabalho para nelas situar esse ou aquele médium, como instrumento de equipes de Espíritos a utilizarem-no com vistas ao atendimento das necessidades da programação de longo curso, a cumprir-se por partes, no tempo e no espaço.

Francisco Cândido Xavier, médium precedido por inúmeros outros, na obra do livro espírita, principalmente em Terras do Cruzeiro, contemporâneo de diversos medianeiros que também chegaram a ultrapassar a barreira de meio século de fecundas e continuadas realizações, e de outros já com alguns decênios de lutas e dedicações, é bem a expressão simples e confortadora da progressividade da Revelação e do permanente cuidado e carinho de Deus para com seus filhos em duras experiências no mundo.

Analisar as realizações que se ligam, indissoluvelmente, ao valoroso espírita-cristão Chico Xavier, é tarefa que, a nosso ver, deveria, mais prudentemente, ser delegada ao futuro, ao futuro imediato à sua desencarnação e aos decênios seguintes, porque, então, detentores do conhecimento pleno do inteiro patrimônio representado por seu mediunato, devidamente esquadrinhado, sem as interferências das emoções ainda próprias da condição de contemporaneidade, os espíritas melhormente - e sem preocupações de ferir a modéstia proverbial do querido médium - poderíamos vê-lo na verdadeira extensão e profundidade, na qualidade e na influência dos seus escritos.

A bibliografia mediúnica que foi acrescida à literatura espírita, nestes últimos cinqüenta anos, nascida do lápis de Chico Xavier - e o espaço não nos permite, sequer, considerações ligeiras sobre a oriunda, em nosso plano, de suas páginas -, é vultosa, considerável. E qualitativamente admirável. Poderíamos, sem dificuldade, num exame sereno e com absoluta isenção, dividir a obra mediúnica, orientada por Emmanuel, igualmente em fases perfeitamente delineadas, dentro de duas grandes divisões: a primeira, provando a sobrevivência e a imortalidade do Espírito ("Parnaso de Além-Túmulo"); a segunda, lembrando e confirmando os deveres dos espíritas, destinada a prepará-los para o trabalho no Movimento ("Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", seguido de uma panorâmica da História Universal, "A Caminho da Luz", e de alguns manuais do maior valor: "Emmanuel - Dissertações Mediúnicas", "O Consolador", "Roteiro", etc...).

Enfim, muitos estudos interessantes e instrutivos virão, a seu tempo. E a obra de Francisco Cândido Xavier, criteriosamente traduzida, estará, tempestivamente, à disposição dos leitores do mundo inteiro, juntamente com a de Allan Kardec e da dos autores que cuidaram dos escritos subsidiários e complementares da Codificação.

Mas, enquanto isso, e para que tudo ocorra com a tranqüilidade que se almeja na difusão conscienciosa e responsável da Doutrina dos Espíritos, seria de bom alvitre que se não perdesse de vista o fato de que Chico Xavier jamais teria obtido êxito, como instrumento do Alto, se não tivesse buscado ser fiel, autêntico, perseverante. seguindo a rígida disciplina que lhe foi sugerida por Emmanuel, testemunhando e permanecendo na exemplificação do amor ao próximo e do amor a Deus, vivendo o Evangelho.

(Publicado no Boletim GEAE Número 446 de 15 de novembro de 2002 )