Um Diálogo Fraterno sobre Ciência & Espiritismo V

Ademir Xavier e Alexandre Fontes da Fonseca

(Continuação do Artigo iniciado no Boletim 476)

13 ) O que é matéria? O que é energia?

[Ademir] A definição de matéria e energia adquire variadas conceituações dependendo da área específica da física. Por exemplo, no caso da mecânica clássica, a matéria é aquilo que tem extensão e massa, a energia é uma quantidade que se conserva mas não tem conexão mais íntima com a matéria, sendo algo como uma "virtude" que a matéria adquire e que potencializa o movimento (a energia é uma das constantes associadas a um determinado estado de movimento). Já com áreas da física mais modernas - e dependendo do objeto de estudo como no caso das partículas elementares, energia e matéria se associam intimamente. Há partículas que não tem massa definida, por exemplo. De qualquer forma é importante ressaltar a diferença de interpretação e cuidado que se deve ter ao se utilizar a palavra "energia" fora de seu sentido próprio que é o fornecido pela área da física em particular. Fora desse escopo é possível encontrar as mais variadas definições que guardam pouca relação com o significado original.

[Alexandre] É muito difícil definir de forma precisa os conceitos de matéria e energia hoje. A resposta do Ademir acima é muito boa e não há necessidade de repetir. Quero aproveitar o ensejo da pergunta para dar uma idéia de como as coisas são mais difíceis do que a gente pensa quando pretendemos fazer a ponte entre física e espiritismo.

Concordamos que muitos resultados da física moderna corroboram algumas afirmativas dos espíritos, questões essas impossíveis de serem testadas ou avaliadas por Kardec com o conhecimento científico de sua época. Porém existe, ao meu ver, um excesso de entusiasmo quando se passa a idéia de que “a ciência está comprovando o espiritismo” ou “a física dá suporte...” ou “a física leva ao espiritismo”. Isso pode ser pensado num sentido filosófico particular mas não no sentido mais profundo. Eu quero dizer que podemos interpretar alguns desses resultados como sendo a favor do que os espíritos disseram. Mas do ponto de vista científico essas afirmativas tem tão pouco valor quanto aquelas que dizem que Deus não existe, que a alma não existe, usando, também, conceitos científicos. O que quero dizer é que nós espíritas facilmente “julgamos” aqueles que dizem que Deus e o espírito não existem dizendo que “isso é um preconceito de materialista”. Mas ficamos muito entusiasmados quando um colega deles, afirma publicamente que acredita em Deus e nos espíritos. Isso não é um critério honesto e muito menos científico. Como mencionado anteriormente, opinião é sempre opinião seja a favor ou contra.

Vejamos o seguinte exemplo: “a física mostra que a matéria não existe porque vivemos num mundo de energias”. Mas o materialista pode muito bem usar a mesma base científica e dizer que “o mundo de energias é material”. Isto pois quando usamos a equação de Einstein E=mc^2 para dizer que a matéria “densa” é energia a relação vale como m=E/(c^2) o que pode ser interpretado de forma inversa. Na verdade, o que podemos dizer, como físicos, é que matéria (massa) e energia são dois “estados” de uma mesma “coisa”. Infelizmente, cientificamente isso não prova nada com relação aos fluidos espirituais. Isto não é um argumento científico forte para dizer que temos um corpo espiritual que sobrevive à morte do corpo físico.

14) Em que a física quântica muda os conceitos de matéria e energia já consagrados? Em que a física quântica abriria espaço para interpretações espiritualistas?

[Ademir] Não é possível nesse espaço responder com suficiente propriedade a essa questão. Isso porque a mecânica quântica é um paradigma da física que exige um tratamento especial, com a inserção de outros conceitos fundamentais não presentes na física clássica e que demandariam maior espaço para apresentação. Há várias referências sobre o assunto que o leitor pode consultar. Digamos entretanto que noções como posição no espaço e definição de estado - o que uma coisa realmente é num determinado momento - adquirem interpretações bastante peculiares na mecânica quântica, o que parece ter causado a impressão de que a mecânica quântica tenha aberto a possibilidade de conexão com interpretações espiritualistas. Pelo que sei grande parte do debate gira em torno de questões de interpretação da teoria. Mas não a ponto de se tentar estender o paradigma (quântico) já existente que funciona muito bem. A questão é saber que extensão (e conexão com conceitos fora da teoria) poderia trazer a tona um paradigma que funcione melhor que o existente e que justifique sua adoção. Se isso não acontecer essas tentativas podem ser enquadradas como meras especulações.

[Alexandre] Uma das maiores contribuições que a física moderna (mecânica quântica e teoria da relatividade) trouxeram foi o que eu chamaria de “desmaterialização” da matéria. A matéria tem uma estrutura íntima que em essência é algo bastante sutil. Isso é um conceito que à época de Kardec não se tinha. Então isso deveria sugerir às mentes dos cientistas de que “há mais entre a terra e o céu do que a vã” ciência já descobriu.

Mas isso é um passo e faltam muitos até chegarmos à alguma constatação da existência dos fluídos por meios da física. Eu tenho estudado um pouco as interpretações da teoria quântica tentando analisar as conseqüências para os conceitos espíritas. Estou trabalhando numa futura publicação em que discuto que alguns destes conceitos quânticos trazem conflitos com princípios espíritas básicos como a questão da causa e efeito. Portanto, se por um lado a física quântica ajudou a mudar a mentalidade com relação a matéria, precisamos ter cautela pois ela pode não estar em completo acordo com o Espiritismo.

E a julgar pelo extenso debate que ainda temos hoje, sobre as interpretações da mecânica quântica eu ficaria com o Espiritismo aguardando o desenvolvimento da primeira.

Para dar um exemplo de que a gente tem que ser mais cauteloso com as nossas conclusões, na revista Nature de 6 de fevereiro de 2004 foi publicada uma nota de divulgação sobre alguns trabalhos sobre a tentativa de se medir alguma variação na velocidade da luz em referenciais diferentes. Segundo esta nota, os cientistas bolaram um experimento altamente preciso cujos resultados eram coisa do tipo 30 vezes melhor do que já foi feito antes. Mesmo assim eles mediram que a velocidade da luz não se altera com a diferença de referencial. Eles comentaram que isso tem forte implicações nas teorias modernas de supercordas, por exemplo. Isto pois, segundo essas teorias (supercordas), deve existir uma diferença pequena na velocidade da luz em determinados limites. Como as medidas não mostraram essa diferença isso sugere que essas teorias modernas (freqüentemente usadas para dar ênfase ao espiritismo) ainda não estão corretas.

Continua no próximo Boletim

(Publicado no Boletim GEAE Número 480 de 31 de agosto de 2004)