Continuação do trabalho de Kardec

Luiz Felipe Perrone

Caros amigos,

Há quase 8 anos atrás resolvi abraçar a Doutrina Espírita depois de um bom período como ovelha perdida do rebanho Católico. Por um bom tempo, principalmente enquanto morava no Brasil, procurei me interar da doutrina através da leitura da codificação kardeciana, de livros de Emmanuel e André Luiz entre outros autores e de palestras no centro espírita e de discussões com pessoas que já a estudavam por mais tempo.

Talvez por falta de interação com outros companheiros que seguem por esse mesmo caminho, depois de alguns anos nos Estados Unidos da América, muitas questões sem respostas obvias começaram a surgir em minha mente. Fico feliz de poder contar pelo menos com o nosso Boletim do GEAE onde posso continuar meu aprendizado através das discussões levantadas pelos amigos.

Tenho que confessar, porem, que tenho certas perguntas que gostaria de trazer ao nosso fórum e que gostaria de poder discuti-las com o passar do tempo. Estou passando por uma fase de questionamento profundo que acredito ser essencial no entendimento aprofundado da doutrina e ficaria feliz de poder obter suas impressões e comentários sobre estas.

Tenho observado que existem diversas facções no movimento espírita internacional: algumas são mais conservadoras e se apegam fortemente nos escritos de Kardec, outras são mais liberais. Dado a minha formação diretamente cientifica, venho a perguntar a todos se existe alguma continuação do trabalho de Kardec no mesmo caráter e rigor com que este realizou a compilação que tomamos por base em nossa crença.

Me parece que desde o final do século 19, o espiritismo tem avançado por esforços quase isolados de pensadores e médiuns sem que exista algum trabalho de correlação dessas fontes segundo método cientifico. Quando ouço comentários que procuram realçar o fato de que a essência do espiritismo abrange ciência, filosofia e religião não posso deixar de pensar que em meu limitado contacto com o movimento espírita observei vários pontos que tive que adotar quase como dogmas de fé. Certos fatos relatados em volumes de literatura como, por exemplo, livros de André Luiz são, para mim, mais difíceis de aceitar porque foram obtidos através de um só médium e um só espírito. Será que estou sendo muito cético ou talvez extremizando a idéia de que a fé só é realmente sólida quando sobrevive o confronto direto com a razão ? Não tenho idéia de como outras pessoas experimentam o aprendizado espírita: será que todos passam por momentos de questionamento minucioso dos novos fatos que encontram na doutrina ?

A leitura dos escritos de Kardec, que considero as perolas mais preciosas produzidas até hoje na literatura espírita, me deixa a impressão de que não só como em nos espíritos imortais, a doutrina deveria evoluir continuamente e não somente através de informações vindas diretamente do plano espiritual, mas do esforço e dedicação comuns de homens da ciência, da filosofia e da religião.

No centro espírita que freqüentava no Brasil, ouvi de amigos e palestrantes que o plano espiritual teria feito vários esforços através da historia para instruir os homens na verdade universal e que as informações recebidas teriam muitas vezes sofridos severas distorções por imperfeições dos receptores. Este fato explicaria ao mesmo tempo a diversidade de religiões que surgiram através dos tempos e o núcleo básico que a maioria delas compartilha. Isto me levou a crer que da mesma forma que esses esforços foram imperfeitos ou incompletos a nossa doutrina deveria ter quase como obrigação um trabalho metódico de aperfeiçoamento e crescimento porque existe a possibilidade de não ter sido perfeita e completamente desenvolvida. Acredito fortemente que este trabalho esteja em andamento e gostaria de obter referencias para alguma bibliografia que conheçam e possam recomendar. Acredito também que o plano espiritual, que no esforço conjunto com Kardec nos passou a base doutrinaria, não nos tenha entregue todas as lições por não querer estimular a nossa preguiça intelectual na busca das verdades do universo e que cabe a nos o trabalho conjunto para seu desenvolvimento, agitando até mesmo as bases mais sólidas para que não sofram de estagnação.

Este raciocínio me tem sido útil quando passo a duvidar que seja realmente espírita por levantar tantas duvidas e questões sobre pontos da doutrina. Minha idéia pessoal de espiritismo é de que devemos manter a mente aberta e pronta para incorporar e aceitar criteriosamente `a nossa doutrina novos fatos e idéias que vão surgindo a medida que as diversas ciências, filosofias e religiões evoluem; as idéias trazidas do plano espiritual e material deverão convergir em algum ponto e não seria prudente nos basearmos somente em um dos lados da moeda.

Espero poder contar com seus comentários e impressões sobre o assunto.

Abraços,

Luiz Felipe Perrone, (EUA)

Veja resposta aqui.

(Retirado do Boletim GEAE Número 269 de 02 de dezembro de 1997)