É o Espiritismo o Consolador?

Fernando Porto

Confesso que fui instigado a elaborar esse texto declarando de antemão que não tenho nenhuma pretensão de impor uma tese, muito pelo contrário. No entanto, não posso me abster de defender uma posição que considero fundamental, sem fanatismo ou clericalismo.

É interessante observar o quanto nós refletimos em tudo o que fazemos um conteúdo emocional, sendo quase impossível uma análise plenamente imparcial de um assunto, ainda mais em se tratando de Espiritismo. Surgem, assim, pessoas que no afã de "defenderem" a Doutrina, procurando preservá-la, acabam fazendo observações insustentáveis, mas acaloradas e, portanto sedutoras para os incautos.

Refiro-me a observação de que a posição de Kardec sobre o Espiritismo como Consolador Prometido nada mais foi do que uma opinião pessoal(*), sem nenhum respaldo no ensino do Espíritos. Vejamos os fatos.

Primeiro em A Gênese, no capítulo Caracteres da Revelação Espírita, após expor a importância do Espiritismo quanto ao entendimento do verdadeiro ensino do Cristo, Kardec propõe, a seguir (item 42): "Se considerarmos, além disso, o poder moralizador do Espiritismo pelo objetivo que ele assinala a todas as ações da vida, pelas conseqüências do bem e do mal que ele expõe claramente; pela força moral, a coragem, a consolação que dá nas horas de aflição por uma inabalável confiança no futuro, pelo pensamento de termos a nosso lado os seres a quem amamos, pela certeza de os rever, a possibilidade de conversar com eles, enfim, pela certeza de que, de tudo o que fizemos, de tudo o que adquirimos em inteligência, em ciência, em moralidade, até o último instante de nossa vida, nada se perdeu, que tudo serve para o nosso adiantamento, reconhecemos que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo no que diz respeito ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa de seu advento também já se realizou, porque, pelos fatos, deduzimos que é ele o verdadeiro Consolador".

Como podemos observar, Kardec fala sempre em nome dos fatos. Mas quais são esses fatos? Além dessa exposição filosófica, Kardec possuía alguma comprovação palpável de que o Espírito de Verdade, diretor espiritual dos trabalhos da codificação, era o mesmo das promessas evangélicas? Quem ou o quê é o Espírito de Verdade?

Primeiro é preciso distinguir essa entidade espiritual do Espírito Santo. Jesus quando profetizou a vinda do Consolador, se referia ao Bom Espírito; não usou em absoluto a expressão Espírito Santo que foi certamente uma alteração nas traduções.

Hoje nós sabemos que a expressão Espírito Santo simboliza os Espíritos que trabalham a serviço de Deus e já naquela época envolveram os discípulos de Jesus, na festa de Pentecostes, provocando a eclosão da faculdade mediúnica, levando-os a falarem em diferentes línguas aos estrangeiros do local (xenoglossia).

Mas de onde parte esta certeza de que o Espírito de Verdade não é uma representação de um grupo de entidades e sim um único Espírito? Em O Livro dos Espíritos, no Prolegômenos, vários Espíritos assinam uma mensagem dada a Kardec, entre eles o próprio Espírito de Verdade, comprovando essa tese. Se assim não fosse, se representasse uma entidade coletiva, bastaria haver uma única assinatura. Aliás, no Evangelho Seg. o Esp. existem vários exemplos: Um Espírito Amigo, Um Espírito Protetor, etc. Entidades que por um motivo qualquer não desejavam se identificar.

Agora nós vamos entrar em um terreno mais espinhoso, sem pretensão alguma de estarmos com a razão. E para aqueles que acreditam que o Espírito de Verdade é Jesus? Essa hipótese tem fundamento? Vamos novamente aos fatos. Vejamos algumas passagens da codificação:

"Assim como o Cristo disse: 'Não vim destruir a lei, porém cumpri-la', também o Espiritismo diz: 'Não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução (...) Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra" (ESE, Cap. I, item 7).

Seria mera coincidência o fato de Kardec colocar que o Cristo preside à regeneração pelo Espiritismo nessa passagem do Evangelho e logo acima, na mensagem que citamos de A Gênese, é o Espírito de Verdade que preside a essa regeneração?

Acreditamos que não.

A comprovação definitiva, no meu modo de ver, para essa tese é a que trataremos agora. Em O Livro dos Médiuns, no cap. intitulado Dissertações Espíritas, Kardec apresenta várias comunicações sobre diversos assuntos, procurando exemplificar como reconhecermos pelo conteúdo da mensagem se ela provém de um Espírito Superior, deixando ao final do capítulo uma parte para as mensagens apócrifas, isto é, mistificações reconhecíveis pela linguagem e conteúdo.

Entre as comunicações que tratavam do Espiritismo uma nos chama a atenção imediatamente. É uma mensagem bastante semelhante àquela encontrada no capítulo VI de O Ev. Seg. o Esp. (aliás, o título desse capítulo é O Cristo Consolador; por quê será?), assinada com o nome de Jesus de Nazaré. Em seu comentário, o codificador se refere aos escrúpulos que devemos ter quanto à assinaturas de nomes venerados. No entanto reconhece o valor da mensagem, não somente pela linguagem, como também pelo fato de ter sido psicografada por um dos principais médiuns da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, sr. d'Ambel, médium mecânico. Por quê esta mensagem aparece um pouco modificada em o ESE? A própria entidade espiritual, provavelmente fez as alterações, inclusive a da assinatura, por um motivo simples. Antes da publicação do Evangelho, foi prevista uma grande reação da igreja com a publicação dessa obra (Obras Póstumas, Seg. Parte, 9 de agosto de 1863). Por esse mesmo motivo Kardec publicou-a com o nome de Imitação do Evangelho em sua 1ª edição.

Ao que tudo indica, Kardec durante muito tempo permaneceu sem conhecer a identidade de seu Espírito Protetor, que para ele se denominava A Verdade. Mas engana-se quem acredita que o mestre lionês só veio a descobri-la após o desencarne.

Kardec fez um interessante comentário, tempos depois, a um colóquio que teve com o seu protetor. É o seguinte:

"A proteção desse Espírito, de cuja superioridade eu estava então longe de suspeitar, nunca me faltou". (Obras Póstumas, Seg. Parte, 9 de abril de 1856).

A seguir vejamos alguns trechos que revelam, por parte dos Espíritos, a verdadeira finalidade do Espiritismo como Consolador Prometido e quanto a natureza do Espírito de Verdade:

"Desde que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus qual é a utilidade do ensinamento dado pelos Espíritos? Têm eles mais alguma coisa para nos ensinar?

O ensino de Jesus era freqüentemente alegórico e em forma de parábolas, porque ele falava de acordo com a época e os lugares. Faz-se hoje necessário que a verdade seja inteligível para todos. É preciso, pois, explicar e desenvolver essas leis, tão pouco são os que as compreendem e ainda menos os que as praticam. Nossa missão é a de espertar os olhos e os ouvidos para confundir os orgulhosos e desmascarar os hipócritas: os que afetam exteriormente a virtude e a religião para ocultar as suas torpezas. O ensinamento dos Espíritos deve ser claro e sem equívocos a fim de que ninguém possa pretextar ignorância e cada um possa julgá-lo e apreciá-lo com sua própria razão. Estamos encarregados de preparar o Reino de Deus anunciado por Jesus, e por isso é necessário que ninguém possa interpretar a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei que é toda amor e caridade"

(LE, Q. 627)

"Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta, ao receber a ordem de comando, espalham-se sobre toda a face da Terra. Semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos aos cegos.

Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos". (Espírito de Verdade, Prefácio de o Ev. Seg. o Esp.)

Não bastassem a semelhança quanto ao conteúdo, Kardec introduz uma nota ao final desse prefácio indicando que ele representa o verdadeiro caráter do Espiritismo, como também o verdadeiro sentido da obra, elucidar o Evangelho, as leis de Deus, em espírito e verdade.

"Aproxima-se a hora em que terás que declarar abertamente o que é o Espiritismo e mostrar a todos onde está a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo. A hora em que, à face do Céu e da Terra, deverás proclamar o Espiritismo como a única tradição realmente cristã, a única instituição verdadeiramente divina e humana". (em Obras Póstumas, Seg. Parte, 9 de agosto de 1863)

Neste diálogo o codificador questiona sobre a importância da obra que estava elaborando, o Evangelho Segundo o Espiritismo, na qual trabalhava em absoluto sigilo e isolamento, tendo, inclusive, se recolhido a uma propriedade em Sainte-Adresse. Este trecho da resposta é bastante contundente e preciso por parte do comunicante, sem deixar possibilidades a múltiplas interpretações.

É compreensível a razão pela qual alguns intelectuais no movimento espírita, certamente bem intencionados, manifestem preocupação com a parte científica do Espiritismo, seu caráter evolucionista. Mas esse progresso se faz sobre as bases em que a doutrina está edificada. Desejar o seu progresso pelas vias da ciência, negando-se a sua verdadeira origem, acabaríamos por descaracterizá-la. Um dos pilares da doutrina é o Evangelho e retirá-lo ou negligenciá-lo, conduzindo a sua derrocada. Nas palavras de Kardec:

"Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem" (A Gênese, I - 13)

Uma vez que identificamos o Espiritismo como o Cristianismo Redivivo, nem por isso afirmamos que ele seja uma religião. Como na maioria das vezes, as palavras são condições limítrofes para o entendimento entre os homens. A questão certamente teve seu início quando associou-se a expressão cristianismo a catolicismo, o que são duas coisas bem diferentes, uma vez que é possível ser cristão sem professar nenhuma religião. Mas essa questão de o Espiritismo ser ou não uma religião(**) fica para uma outra oportunidade.

Sintetizando, nada melhor do que essas belas palavras do Espírito de Verdade (curiosamente sempre na 1ª pessoa do singular), confirmando tudo o que temos dito nesse despretensioso artigo:

"Venho, como outrora aos transviados filhos de Israel, trazer-vos a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. Revelei a doutrina divinal. Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso no seio da Humanidade e disse: Vinde a mim, todos vós que sofreis."

"Espíritas! Amai-vos, este o primeiro ensinamento; instrui-vos, este o segundo. No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do além-túmulo, que julgáveis o nada, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece, Jesus Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade". (Espírito de Verdade, ESE, Cap. VI, item 5)

Um abraço,

Fernando Porto

(Publicado no Boletim GEAE Número 336 de 16 de março de 1999)