Em Defesa da Vida – Alguns Argumentos contra a Prática do Aborto IV

Rubens Santini

Continuação do Boletim anterior

No astral inferior: O Vale da Revolta 7

“À medida que nos aproximávamos do Vale,a vibração ia caindo. Era sufocante. Andávamos com dificuldade. Uma neblina enfeiava a paisagem. (...) Pelas ruas encontramos mulheres correndo como loucas, com os cabelos em desalinho. Estavam grávidas e víamos o feto como se galopasse dentro dos seus ventres.

O mau cheiro era terrível e o nosso caminhar muito penoso. (...) Assim era aquela vila: moradia de mentes perturbadas, cujos perispíritos eram compostos de toxinas, formando uma crosta ácida e viscosa, que os alucinava.

Passávamos por eles, mas não éramos percebidos. Nossa equipe orava em silêncio. Quando pude falar, perguntei:

- Este Vale é composto só de aborteiros?

- Sim, e de algumas mulheres e homens que, sem piedade, abusaram do direito de possuir um corpo físico.

- Mas é terrível este lugar! Igual a este só o Vale dos Suicidas.

- Tem razão, Sérgio, são os mais tenebrosos lugares do astral inferior, decorrentes dos crimes contra a vida. Os aborteiros são os piores inimigos da vida, cruéis exterminadores dos sonhos daqueles que aspiram a reencarnar. (...)”

(Em sua maior parte, os aborteiros tinham o perispirito envoltos por Espíritos obsessores - fetos que foram por eles abortados - causando uma grande deformação em seu corpo, deixando-o todo gelatinoso).

“Nisso, avistamos Leocádio. Era uma larva humana e junto a ele vários rostos deformados. Leocádio xingava demais. Era bem visível em sua fisionomia as torturas que sofrera, mas mesmo assim não parava de esbravejar:

- Se preciso for, voltarei a matá-los, a todos, seus fetos imundos! Deixem-me em paz, estou cansado de tê-los junto a mim!

Ísis, aproximando-se de Leocádio, foi chamando pelo nome um por um dos abortados e eles foram se desprendendo da massa gelatinosa, como quando se joga inseticida numa planta e caem os parasitas. Assim também foram caindo sobre o aparelho que Ísis tinha nas mãos. Ela conseguiu retirar de Leocádio uns 20 Espíritos, que Ísis fez adormecer com amor.

Leocádio, com voz orgulhosa, falou:

- Obrigada colega. Agora, ajude-me a voltar a ter um corpo humano. Não sei por que Deus permitiu que esses fetos imundos me atormetassem tanto. Só fiz o que os pais me pediram, nada mais. Sou um profissional, montei uma das melhores clínicas abortivas, na Grande São Paulo, dando todo conforto à gestante. Não acha mais nobre tirarmos as mulheres das mãos das curiosas aborteiras? Na clínica, a mulher recebe toda assistência, o que não acontece em casa de curiosas. Agora, não sei por quê, vejo-me junto a esses fetos mal cheirosos. Eu, o doutor Leocádio, eminente médico brasileiro.

- Irmão, como médicos, temos por dever lutar pela vida e o irmão, quando escolheu a sua profissão de médico, bem sabia que teria de consagrar o seu trabalho à saúde e ao prolongamento da vida física de seus pacientes. Interromper uma gravidez ‚ extinguir vida humana em sua fase embrionária, é tolher o plano divino, que prepara as almas para cumprir sua etapa no mundo físico.

- Pensei que fosse médica, mas pelo visto ‚ mais uma fanática religiosa.

- Engana-se, irmão, sou uma filha de Deus que se esforça para servir a todos os que de mim precisam.

- Deixemos de conversa e me ajude. Quero só a forma humana.

- Sobre isso eu nada posso fazer, o seu corpo está deformado pelo ódio no seu coração, e ele é o seu cirurgião plástico. Por enquanto, o irmão não tem condição de moldar um novo corpo humano. Até lá, será prisioneiro dessas horríveis deformações perispirituais. Não será Deus, nem seremos nós, os médicos mensageiros, que iremos livrá-lhe dessas lesões perispirituais. O seu corpo verdadeiro, o criado por Deus, está latente dentro dessas deformações. Só depende do seu coração ressuscitá-lo.

- Mas eu não suporto mais esse sofrimento...

- A quantos Espíritos o irmão negou um corpo? Por isso hoje o seu é esta massa gelatinosa, composta de fluídos repugnantes. Se ficar livre do orgulho, os fluídos divinos logo o envolverão.

Visão materialista da medicina8

“Grande parte da sociedade na Terra é preconceituosa e cega ante a realidade espiritual e, apoiada por uma facção da medicina materialista, houve por bem apoiar o aborto quando, pelos aparelhos sofisticados já existentes, detecta que a criança que é portadora de doença congênitas, deficiências físicas e mentais, dever ter sua vida interrompida.

No entanto, se esquece de que tais deformidade fazem parte de programação superior para a reencarnação, para o devido reajuste das almas, na escola terrena, sem a qual, os homens não serão libertos dos débitos criados por eles próprios em vidas passadas.

É preferível reencarnar em tais situações extremamente constrangedores e quitar débitos para o crescimento espiritual, a permanecer em regiões próximas da Terra, revendo dívidas que não só aterrorizam o Espírito, como também evidenciam o quanto ele está distante da liberdade de consciência e felicidade”.

“O jovem, ao se drogar, está em busca de algo; a mulher, ao abortar, julga livrar-se de algo que a atrapalha. Ambos são doentes precisando de amor e esclarecimentos. (...) Precisamos auxiliar o encarnado para que ele não dê trabalho quando desencarnar. Os Espíritos ajudam os homens a conquistar a paz do seu próximo e os homens cooperam com os Espíritos com suas preces e com seu trabalho em prol dos Espíritos doentes”.(8)

Código Penal e o Aborto9

O Código Penal Brasileiro, em sua parte especial, inclui o aborto entre os crimes contra a pessoa, entre os crimes contra a vida, cap. I, artigo 124 a 128. “Só é permitido o aborto quando não há outro meio de salvar a vida da gestante (o aborto terapêutico ou necessário) e se a gravidez resulta de estupro (aborto moral). Nesses casos o aborto só é feito com o consentimento da vítima ou de seu representante legal, na hipótese de incapacidade daquela para opinar.”

Joanna de Angelis nos diz: “Examinando-se ainda a problemática do aborto legal, as leis são benignas quando a fecundação decorre da violência pelo estupro... Mesmo em tal caso, a expulsão do feto, pelo processo abortivo, de maneira nenhuma repara os danos já decorridos... Não raro, o Espírito que chega ao dorido regaço materno, através de circunstâncias tão ingrata, se transforma em floração de benção sobre a cruz de agonias em que o coração feminil se esfacelou... A renúncia a si pela salvação de outra vida concede incomparáveis recursos de redenção para quem se tornou vítima da insidiosa trama do destino... Sucede, porém, que o sofredor inocente de agora está ressarcindo dívida, ascendendo pela rota da abnegação e do sacrifício aos páramos da felicidade. Não ocorrem incidentes que estabeleçam nos quadros das Leis Divinas injustiça em relação a uns e exceção para com outros...”

Consciência do erro 10

“O conhecimento espírita tem evitado que muitas mulheres comprometam-se no aborto provocado, esse “assassinato intra-uterino”, mas constitui, também, um tormento para aquelas que o praticaram. Medo, remorso, angústia, depressão, são algumas de suas reações. Naturalmente isso ocorre sempre que somos informados do que nos espera em face de um comportamento desajustado.

No entanto, equivocados estão os que pretendem ver na Doutrina Espírita a reedição de doutrinas escatológicas fustigantes e anatematizadoras.

Estribando-se na lógica e no raciocínio e exaltando a liberdade de consciência, o Espiritismo não condena, mas esclarece; não ameaça, conscientiza. E muito mais que revelar o mal que há no homem, tem por objetivo ajudá-lo a encontrar o Bem.

Espíritos imaturos, comprometidos com leviandades e inconseqüências, somos todos, ou não estaríamos na Terra, planeta de expiação e provas. Pesa sobre nossos ombros o passado delituoso, impondo-nos experiências dolorosas. Nem por isso devemos atravessar a existência cultivando completamente de culpa.

O que distingue a mulher que praticou o aborto é apenas uma localização no tempo. Ela se comprometeu hoje, tanto quanto todos nos comprometemos com males talvez mais graves, em vidas anteriores.

E se muitos estão resgatando seus crimes nas grades do sofrimento, com cobrança rigorosa da Justiça Divina, simplesmente porque nada fizeram a respeito, há que se considerar a possibilidade de nos redimirmos com o exercício do Bem.

“Misericórdia quero e não sacrifício” - diz Jesus, lembrando o profeta Oséias (Mateus, 9:13), a demonstrar que não precisamos nos flagelar ou esperar que a Lei Divina nos flagele para o resgate de débitos. O exercício da misericórdia, no empenho do Bem, oferece-nos opção mais tranquila.

A mulher que cometeu o crime do aborto, pode perfeitamente renovar seu destino dispondo-se a trabalhar em favor da infância desvalida, em iniciativas como a adoção de filhos, socorro a crianças carentes, trabalho voluntário em creches, berçários ou orfanatos...

Seu empenho nesse sentido proporcionar-lhe-á preciosa iniciação nas bençãos da Caridade e do Amor, habilitando-as à renovação e ao reajuste, sem traumas e sem tormentos”.

“Vai-te e não tornes a pecar”

Pergunta: O que fazer no caso de uma adolescente, quando esta ficar grávida e não tiver condições materiais, emocionais e psicológicas para poder criar esta criatura que está no seu ventre? Não seria pior trazê-la à vida, e no futuro sofrer maus tratos dos pais, ou podendo ser abandonada?

Resposta de um Mentor Espiritual: Existe uma Lei e esta deve ser respeitada. Olhemos o caso de um suicida, por exemplo. Na sua maioria são pessoas sem nenhuma fé religiosa e descrentes de uma vida após a morte. Acham que, interrompendo a sua vida, passarão a eternidade num sono profundo, aliviando assim o seu sofrimento. Quando chegam do outro lado, vêem que não é bem assim. Mesmo tendo o total desconhecimento do Mundo Espiritual, da reencarnação e das Leis de Deus, eles terão que arcar com as conseqüências deste seu ato infeliz. Daí a necessidade de esclarecer as pessoas para poderem evitar este tipo de atitude. Com relação ao aborto, o que pode ser feito é um trabalho preventivo, orientando as pessoas das conseqüências que poderão acarretar se praticá­lo. Deus deu a inteligência ao homem, e este, através da ciência criou métodos anticoncepcionais para evitar a gravidez. Agora, quem já praticou o aborto, não adianta ficar se remoendo de dor, lamentando o tempo inteiro o dano causado. Após a orientação recebida, vamos fazer um trabalho daqui para a frente. Vamos nos libertar das amarras que nos prendem às dores do passado. O que pode ser feito para aliviar a dor do aborto praticado é procurar praticar a caridade. Ajudar as pessoas menos afortunadas. Desenvolver um trabalho assistencialista em creches e orfanatos, ajudar no esclarecimento de outras pessoas à respeito da prática do aborto. Repetimos: não adianta ficar se remoendo de remorso o tempo inteiro pelo que já foi feito. Deus é infinitamente bom e caridoso, sempre nos dando novas oportunidades para reparar os nossos erros praticados no pretérito. Procurem sempre se aperfeiçoar e lembrar das palavras do Mestre Jesus: “ Vai-te e não tornes a pecar”.

7. "Deixe-me viver" - Luiz Sérgio

8. "Deixe-me viver" - Luiz Sérgio

9. "Familia e Espiritismo" - Edições U.S.E.

10. "Quem tem medo da morte" - Richard Simonetti

Final

(Publicado no Boletim GEAE Número 471 de 24 de fevereiro de 2004)