Homossexualismo

Luciano Bonfim

Caros confrades e confreiras do grupo de estudos avançados espíritas:

Inicialmente gostaria de saber porque ha duas semanas não recebo mais os boletins do GEAE e a seguir envio um comentário sobre o texto Homossexualismo - O que nos aconselha a Doutrina?, de Vladimir Aras; as quais gostaria que fossem publicadas.

Primeiramente gostaria de parabenizar o Vladimir por ter ousado escrever sobre uma temática tão árida. E aqui começo de fato minha reflexão, questionando o significado de uma corrente filosófica e cientifica que se propõe abordar todas as questões que afligem a alma humana, pouco discutir a temática da sexualidade no que diz respeito ao homossexualismo. E aqui, se me permitem, vou usar o recurso aristotélico do ou A ou B; ou seja, ou esta questão já foi suficientemente explorada pela literatura espírita ou o moralismo social - por favor não confundir com moralidade - dos pensantes espíritas " proíbem" uma aberta e relaxada, porem científico-filosófica discussão sobre o tema. Um rápido lançar de olhos na literatura espírita denota a sua "indiferença" quanto a questão do homossexualismo, e isto se agrava quando investigamos os cursos, seminários, doutrinarias e atividades de grupos de estudos; ai o descaso e maior ainda. Isto significa dizer que o moralismo social tem " proibiu" a discussão do homossexualismo? Não necessariamente, pois outras causas, talvez mais serias que esta podem também esta determinando este fato. O que nos interessa aqui neste momento da reflexão, e primeiro pontuar esta carência e, segundo, provocar sua discussão.

Nesta segunda parte de nossa reflexão gostaria de me deter nos pressupostos sobre os quais um texto espírita escrito ou verbal deve esta fundamentado. Uma discussão espírita tem no meu entender três grandes objetivos: explicar a questão nas suas determinações; consolar o leitor/audiente; e explorar metodologicamente caminhos para a superação do mal que aflige o ser humano. Os três pressupostos/objetivos devem ser dialeticamente considerados, isto e, nas múltiplas inter-relações; uma vez que consolar pressupõe explicar, que por sua vez pressupõe a adoção de princípios metodológicos coerentes com a gênese do fato, a fim de possibilite o desvendamento de caminhos para superação do problema. Isto tudo, pressupondo-se, e claro, que a abordagem de um aspecto do comportamento humano deve pautar-se pelo respeito aa riqueza da questão, evitando-se a todo custo o recurso usual do senso comum: o generalismo.

Com base no acima exposto eu pergunto:

  1. Quais as passagens do texto do Vladimir Aras que podem ser interpretadas como de valor consolativo?
  2. Quais os momentos nos quais o referido autor expõe as determinações do problema; ou seja, por que certas pessoas tem impulsos pelo outro do mesmo sexo?
  3. Quais as passagens indicadoras de alternativas para superação do homossexualismo?

No que diz respeito aa terceira questão o referido autor foi um pouco mais atento indicando o caminho necessário para superação do homossexualismo segundo uma das maiores autoridades espíritas no assunto, o psicólogo e pesquisador espírita Jorge Andrea: `Para o homossexual existiria necessidade intransferível de vivencia na castidade construtiva, a fim de encontrar a harmonia para as futuras formações corpóreas que as reencarnações podem propiciar. E alem de pontuar de forma feliz alguns princípios cristãos e outros específicos da doutrina espírita. Mas no que diz respeito aa primeira e segunda questões o texto faz um profundo silencio.

Eu fiquei a pensar nos colegas espíritas que tive no meu tempo de juventude espírita que lutavam ardorosamente para vencer suas inclinações homossexuais; fiquei a pensar nos homossexuais que não se enquadram no perfil pressuposto e atacado teoricamente pelo Vladimir e fiquei assustado nas implicações que a leitura de um texto como este poderia provocar nessas pessoas, uma vez que nem todo homossexual tem segundo ele " atração compulsiva por pessoas do mesmo sexo...". Certamente esta não foi a intenção do Vladimir, mas ele precisa pensar a questão pensando nos seres de carne e alma que são objetos de sua reflexão, no que diz respeito à recepção e decifração da mensagem. Por isto eu pergunto como se sentiram as pessoas com tendências homossexuais ao ler o referido texto, principalmente nas seguintes passagens? Grifos e negritos são por nossa conta:

  1. "Mas evidentemente o homossexual (como também o heterossexual desregrado) não e um ser em equilíbrio espiritual. Ao contrario, tanto um quanto outro quase sempre estão sob cerrado ataque fluídico negativo ou em estrito conluio psíquico com entidades trevosas.
  2. "O homossexualismo(...)o mais visado pelo vampirismo - desde os íncubos e súcubos da Idade Media ate os nossos dias -, que incidem hoje os destemperos criminosos dos libertinos diplomados." (citação de Herculano Pires)

No que diz respeito aa primeira afirmativa, o autor incorre na transgressão do principio básico para discussão de uma temática, qual seja, guardar a sua diversidade, o seu pluralismo. O autor pressupõe que toda pessoa com inclinação homossexual e um desregrado nas praticas sexuais. E preciso distinguir o impulso pelo mesmo sexo da concepção vulgar de exercício da sexualidade; pois o universo da homossexualidade não se resume ao modelo preconcebido pelo autor de alguém que esta a todo instante desejando se entrelaçar corporalmente com alguém do mesmo sexo, como alguém que esta em "estrito conluio psíquico com entidades trevosas". O homossexual e primeiramente um espírito encarnado em um corpo que não aceita pelo fato deste ser o oposto da sexualidade com a qual o espírito mais se ligou em suas reencarnações. A sua moralidade, a sua concepção de exercício da sexualidade e uma questão moral sim. Não vejo imoralidade, falta de espiritualidade esta em conflito com sua sexualidade. Naturalmente, vejo desequilíbrio sim, no cultivo do desejo com alguém do mesmo sexo. Discutir esta temática com fronteiras tão delgadas pressupõe o domínio bem preciso de conceitos, a fim de não incorrer em generalismos.

E quanto à segunda questão, creio que o mestre Herculano Pires se refere ao cultivo do homossexualismo, e não aquilo pressuposto pelo autor, ao afirmar que "em sua explanação , Herculano Pires considera os homossexuais como pessoas sujeitas ao fenômeno espiritual do vampirismo, em que uma entidade trevosa liga-se, em simbiose, ao perispírito de um ser encarnado para compartilhar energias polarizadas negativamente, no caso as sexuais".

O texto amplia sua tibieza teórica na medida em que o autor serve-se da corrente naturalista, como se esta desse conta de explicar um fenômeno que atinge o ser consciente. O autor, sem perceber, contribui teoricamente na justificação da prática de certa anomalia sexual ao servir-se de um belo porem ineficaz argumento dito pelo escritor e pesquisador espírita Carlos Imbassahy para criticar a pratica do homossexualismo:

" O homossexualismo como pratica costumeira em detrimento do hetero (sic) e pernicioso porque contraria a lei natural dos seres vivos. Só as lesmas e que são bissexuadas; isso deve ser ponderado para analise. O porque do fato. Se o homossexualismo, em si, devesse ser adotado, a própria Natureza nos dotaria simultaneamente de ambos os órgãos, como no caso das flores e dos hermafroditas."

Pergunto: A prática do hermafroditismo deve ser ou não encarado como transgressão das leis divinas?

E por fim o autor manifesta uma concepção radicalmente anti-dialética, totalmente linear da lei de causa e efeito, quando afirma que " ...aquele que se excede nas praticas sexuais retorna a carne em condição inversiva, ou seja, no sexo oposto aquele no qual se excedeu...". E evidente que qualquer transgressão das leis divinas implica em correções futuras, mas dai afirmar que a condição de homossexual e o destino comum de todos que hoje adentram na pratica sexual em desajuste com a lei do amor, e mecanizar o processo evolutivo. Este entendimento nivela de uma forma radical os vários níveis de desregramentos, alem de desconsiderar o fato de que a evolução espiritual do ser humano se da sobre a categoria da contraditoriedade. Não ha evolução linear, senão vejamos os capítulos do Livro dos Espíritos sobre Lei de Progresso e a Lei de Destruição.

Certamente que Vladimir ao escrever sobre o Homossexualismo estava movido das suas melhores intenções, no entanto a não observância dos pressupostos abordados no inicio deste, tornaram seu texto avesso ao seu objetivo. E isto esta expresso em dois momentos belíssimos de seu texto, os quais transcrevo enquanto encerramento de minhas observações:

Obviamente, nossos irmãos homossexuais merecem o respeito devido a todos os seres da criação; não podem ser discriminados, nem rejeitados, pois, como disse meigo Rabi da Galiléia, "aquele dentre vos que não tiver pecados, atire a primeira pedra".

Por isto creio que faltou ao autor um maior cuidado como o que ele próprio afirma no final de seu texto, servindo-se de uma citação de Emmanuel:

"Diante de toda e qualquer desarmonia do mundo afetivo, seja com quem for e como for, colocai-vos, em pensamento, no lugar dos acusados, analisando as vossas tendências mais intimas e, apos verificardes se estais em condições de censurar alguém , escutai, no âmago da consciência, o apelo inolvidável do Cristo: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei."

Quanto aa questão do homossexual assumir ou não um cargo em uma instituição espírita, e uma outra discussão , com questões de critérios práticos extremamente complexas.

Deixo este desafio para alguém mais qualificado, com mais experiência na temática. A complexidade da questão começa com a simples pergunta: Como identificar com cem por cento de segurança que alguém e homossexual? Pelo andar, pelo falar ou por que não tem companheiro(a)? O problema e ser homossexual ou exercer o homossexualismo? Ou tanto faz?

Como ficariam os outros males morais a serem controlados pelas instituições na escolha de seus dirigentes e trabalhadores em geral? Difícil questão, e preciso muita prudência para discuti-la, e bem domínio conceitual da questão, a ausência de um destes elementos pode deflagrar bandeiras perigosas no seio do movimento espírita. Muita Paz!

Luciano Bomfim, Kassel/Alemanha

(Retirado do Boletim GEAE Número 263 de 21 de outubro de 1997)