Kardec e a Geração Espontânea

Luiz Gustavo A. Vieira

Queridos amigos deste boletim,

Paz Conosco!

Gostaria de parabenizar o oportuno e ilustrativo comentário "A codificação" do confrade Alexandre Costa exposto no boletim 301. No referido artigo é relembrada a verdadeira origem e as principais características da doutrina espírita: "... sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos, e que a sua elaboração é o resultado do trabalho do homem." (trecho de "A Gênese" - referência no artigo citado).

Contudo ao deparar-me com o trecho abaixo no comentário, ocorreu-me a oportunidade de ligeiro esclarecimento a referida citação : "E o tempo mostraria, por exemplo, a inexistência da geração espontânea (que ele procuraria defender) e a confirmação da evolução das espécies (teoria com que Kardec não compartilhava) ".

É verdade que Kardec sempre demonstrou ter uma posição vitalista (teoria da geração espontânea) sobre o problema da origem da vida. Porem o tempo não demonstrou estar esta teoria destituída de razão.

A teoria da geração espontânea, na época de Kardec, era utilizada por seus defensores de maneira geral e permanente. Procurava apenas justificar o surgimento dos seres mais simples da natureza, mas era defendida como se fosse um fenômeno que se reproduzia incessantemente na formação dos seres microscópicos. Experiências de Pasteur provaram que tal principio, pelo menos, não atuava dessa forma ou que da forma que era defendido simplesmente não existiria.

Mas no campo da ciência da vida, outras teorias surgiam e algumas delas até hoje tem logrado êxito sobre, o que podemos chamar de 'o tema "A Vida na Terra"'; o exemplo mais clássico seria a "evolução das espécies" (citada no comentário) desenvolvida por C. Darwin e também independentemente por A. R. Wallace, ambos ilustres biólogos ingleses. Apesar disso nenhuma dessas teorias oferece uma explicação sobre a "origem da vida".

Embora a teoria vitalista tenha sido refutada, tal como era defendida no passado, a mais aceita proposta pela moderna biologia, a respeito do surgimento da vida no planeta, reafirma a geração espontânea na natureza. Elaborada pelo bioquímico russo A. Oparin, é um postulado teórico que explica como teria surgido o primeiro ser vivo da Terra.

Ele enuncia que no período de formação da Terra um conjunto de fatores (tais como: temperatura ambiente, constantes tempestades, composição da atmosfera do período etc. ) colaboraram para uma reação em cadeia que teve como produto resultante os primeiros seres vivos da natureza em diferentes pontos geográficos. Afirma também que estas condições não ocorrem mais no atual estado do globo e que, portanto, a geração espontânea de seres estaria restrita apenas a essa fase inicial da existência terrena. Daí, segundo Oparin, não ocorrer o nascimento espontâneo, isto é, a geração sem descendentes, de organismos biológicos nos dias de hoje.

Sem nos determos em detalhes desnecessários, gostaria apenas da acrescentar que o principal motivo da maior aceitação dessa teoria foi a comprovação experimental realizada por cientistas (como Miller e S. Fox) que obtiveram em laboratório a formação de compostos orgânicos (principais constituintes da formação de organismos) graças a reprodução das condições iniciais do orbe, propostas por Oparin, em modelos laboratoriais.

Apesar de Kardec não ter tido conhecimento das idéias de Oparin enquanto esteve encarnado, talvez ele sempre tenha proposto a teoria da geração espontânea, tal como é apresentada (como explicação da origem da vida), porque esse pensamento colabora para a percepção racional da presença divina nos quadros naturais, mostrando-se sempre atuante e glorificando ainda mais a criação pela grandeza da vida.

Afinal a geração espontânea da vida, seja qual for a maneira que a enuncie, sugere que um conjunto de fatores que, reunidos e organizados propiciam tal surgimento. Quem poderia ser o Idealizador, meus irmãos, o Artífice ideal que reúne e organiza os elementos no incessante engendrar dos infinitos quadros universais ? Certamente, os queridos amigos responderiam cada um a sua maneira: "Deus, o nosso Pai eterno , que ao conceder a todos os seus filhos a parte que lhes cabe no concerto harmonioso da criação, atua na natureza através dos Arquitetos Siderais (Espíritos Puros), tal como nosso Jesus, o Divino Mestre, que reflete Sua justiça e bondade incessantemente". Quanto a "origem das espécies" eu agradeceria se o Alexandre Costa ou qualquer outro amigo do boletim pudesse nos esclarecer com alguma passagem ou citação em que Kardec tenha mostrado não compartilhar com essa teoria, pois apenas achei um trecho de "A Gênese" onde ocorre justamente o contrario: - "Como em a Natureza não ha transições bruscas, é provável que os primeiros homens aparecidos na Terra pouco diferissem do macaco pela forma exterior e não muito também pela inteligência. Em nossos dias ainda ha selvagens que, pelo comprimento da cabeça, tem tanta parecença com o macaco, que só lhes falta ser peludos, para se tornar completa a semelhança. " (ultimo parágrafo de "Hipótese sobre a origem do corpo humano " do livro "A Gênese" por Allan Kardec, 36°ed. FEB)

Não estamos aqui dizendo se essa ou aquela teoria é ou não constituída da verdade, nem tampouco temos a ambição de sondar o pensamento Kardequiano, justamente por observarmos as afirmações de Kardec na Introdução de "A Gênese", tão bem rememoradas pelo irmão Alexandre Costa no Comentário motivo deste pequeno apontamento. Gostaríamos de apenas Expor despretensiosas opiniões que possam contribuir de alguma forma ao boletim do GEAE.

Abraço aos companheiros de ideal, em especial ao irmão Alexandre Costa que possibilitou com seu comentário o envio de minha primeira mensagem para o boletim.

Obrigado irmão! Grato aos editores, Luiz Gustavo

(Publicado no Boletim GEAE Número 306 de 18 de agosto de 1998)