Sobre o emprego da luz vermelha em sessões de desobsessão - II

Edgardo Gerck e Paulo Wollmer

(Referente ao texto de mesmo título publicado no Boletim 296)

Em relação aa pergunta do Valdir e ao comentário do José Cid, vide Boletim 296, comento brevemente esse ponto tão controverso em geral:

1. O medico em um hospital de campanha na frente de batalha não é capaz de realizar as mesmas curas que em um hospital bem equipado e higiênico, embora despenda muito mais esforço. O hospital bem equipado é um fator externo imprescindível. A própria Terra é um fator externo imprescindível ao nosso aprendizado. A Natureza nos ensina que vivemos em função de fatores externos, como a Primeira Lei da Termodinâmica, a Lei da Gravitação, etc. Dizer que o médium não deve depender de fatores externos é uma opinião pessoal que não possui base na Natureza e que deveria o quanto antes ser eliminada como peca de tropeço de muitos médiuns bons mas que não conseguem trabalhar bem mediunicamente quando o companheiro ao lado não toma banho, usa perfumes fortes, fala alto ou usa palavras grosseiras.

2. O próprio Allan Kardec nos ilustra no Livro dos Médiuns, com o episodio da tabaqueira e suas reflexões a respeito, a importância que elementos "materiais" têem como parte de um canal de comunicação e identificação. Nesse ponto, até mesmo o estilo de escrita de um determinado espírito pode ser entendido como sendo algo "material" e, no entanto, parte imprescindível do processo de identificação - como Kardec (ibid) também explica. A questão das "mesas falantes" é outro episodio no qual Kardec (ibid) explica a utilidade de objetos inanimados no processo de comunicação espiritual.

3. Conforme o brilhante trabalho do matemático alemão Frege em 1910, símbolos são apenas referencias (Bedeutung) e não é possível se deduzir significado (Sinn) a partir de símbolos. Assim, a aparentemente intuitiva teoria referencial do significado está errada e (referencia, significado) são variáveis independentes para um determinado referente. Por exemplo, se eu digo que enviarei um "Gift" ao leitor, o que significa isso? Qual o significado do símbolo "Gift" em sua referencia ASCII nesta mensagem? Impossível dizer - por exemplo, em Inglês é "presente" ao passo que em Alemão é "veneno". Da mesma forma nos ensina Kardec: todo o mundo físico e todas as coisas são um símbolo, uma referencia, e não possuem significado espiritual por si mesmos - o significado espiritual não é dedutível da referencia material. O que conduz ao significado espiritual é o pensamento com confiança - onde confiança é conhecimento qualificado em sua aplicabilidade a um objetivo, por exemplo fé em Deus.

4. Passes não devem ser realmente dados sob sol forte ou iluminação forte. A ciência já comprovou a ação da iluminação sob a glândula pineal, no sentido de reduzir a sua atividade. Sendo a glândula pineal uma parte importante do processo mediúnico então é de boa lógica realizar trabalhos mediúnicos em situações favoráveis.

5. Mais ainda, sabemos que as pessoas obtêm mais ou menos do passe em função de sua própria receptividade e é em geral mais fácil meditar e orar em ambientes calmos e de pouca iluminação, sem cheiros fortes e sem movimentação. A isso a ciência correlaciona com o principio de "saturação neurológica".

6. A gesticulação natural e induzida pelo guia espiritual tem funções múltiplas, a nível físico, mental e espiritual. Ativa a circulação do médium e a sua irrigação local, conduz a uma concentração mental sobre o intercambio energético que utiliza as mãos como transceptor e atua espiritualmente por conduzir a uma retirada de miasmas ou a uma adição de fluidos por ação do perispírito dinamizado.

7. No caso da pergunta do Valdir e de acordo com minha opinião, que pode estar correta ou não, a luz vermelha atua como principio homeopático na recomendação de André Luiz e representa o veneno que cura em doses homeopáticas ao induzir a chamada "reação homeopática" e que parece um aumento da disfunção mas que é na verdade uma reação de cura. Assim, a luz vermelha em trabalhos de desobsessão, de intensidade fraca, faz com que os pacientes espirituais se sintam mais "aa vontade" e se mostrem como são - o que permite sua doutrinação. Nos ensina Kardec (ibid) que o mais difícil é o dialogo com entidades que dissimulam suas intenções. A luz vermelha fraca torna mais difícil a dissimulação para aqueles que vibram em seu potencial. Temos que ir além do símbolo se queremos entender o significado espiritual da recomendação de André Luiz.

8. Em trabalhos de cura, recomenda André Luiz a luz azul e em trabalhos de estudo ou de refazimento a luz verde clara.

9. Através das palavras, cores, perfumes, sons, mentalizações e até da presença espiritual estamos sempre usando símbolos - onde nenhum é mais significativo que outro como nos ensina Frege. Todos são referencias mas, não foi a presença diária de Jesus que fez Judas Iscariotes se espiritualizar e nem foi a presença diária de seu pai físico que fez Francisco de Assis se interessar por bens materiais.

Concordo assim com aqueles, inclusive o Cid, que pensam que um símbolo não é melhor nem pior que outro, menos ou mais necessário. Porem, Deus nos ensina com a Criação que os símbolos são necessários para nós e que deles devemos dispor para auxiliar o nosso progresso e o de outros aa nossa volta. Esse é o papel do hospital para o medico, do centro espírita para o médium e das condições ambientes no trabalho de desobsessão. Necessários para auxiliar os fins inteligentes do trabalhador.

Para Deus, porem, nada disso é necessário - pois Deus está além da referencia e além do significado. Nada que possamos sequer imaginar pode referir a Deus, nem mesmo toda a Criação. Porem Ele nos deu o exemplo ao nos educar em um Universo de forma ele nos mostra algo talvez mais elevado, que é o uso elevado da forma como meio de evolução. Assim, o exemplo de André Luiz.

Um abraço,

Edgardo Gerck


Comentário

Paulo Wollmer

(Referente ao texto de mesmo título publicado no Boletim 296)

Ao Valdir Gonçalves, quero comentar o seguinte :

1-Nas reuniões de desobsessão realizadas na casa espírita onde colaboramos também surgiu o questionamento sobre a utilização da luz vermelha conforme está no livro Desobsessão, ditado por André Luiz. Curioso é que alguém de fora do grupo, que uma vez foi tomar um passe antes da reunião levantou essa questão.

2-O dirigente do grupo, pessoa de elevado senso de responsabilidade, relembrando como o grupo iniciou os estudos ( estudo das obras Desobsessão supra citada, Dialogando com as Sombras, de Hermínio C. Miranda e Obsessão/Desobsessão. de Suely Caldas Schubert), colocou o assunto em discussão por alguns membros do depto. de doutrina do centro.

3-Para encurtar o caso, não se encontrou algo lógico que justificasse a luz vermelha. Tomou-se então a decisão de colocar isso aos mentores espirituais, pois não se deseja de forma alguma dificultar o abnegado trabalho destes irmãos da espiritualidade. A resposta foi que não atrapalharia esta ou aquela luz, desde que o grupo estivesse confortável a respeito disso. A partir dai passou-se a utilizar uma luz normal, de pouca intensidade. Tudo continua a transcorrer normalmente.

Cabe aqui, na minha opinião que devemos sim questionar o que foi colocado por um espírito, mesmo que este seja o André Luiz, esta recomendação é básica de Allan Kardec. Aliás, com a pergunta do irmão Valdir já há uma preocupação com a informação e também em fazer o correto, o que é muito bom para o grupo do qual ele faz parte. Aproveito para enviar ao grupo e especialmente ao Valdir as mais sinceras vibrações de paz, rogando ao Mestre Jesus o envolvimento de todo o grupo nas tarefas de muita responsabilidade que assumiram.

Um forte abraço a todos.

Paulo Wollmer

(Publicado no Boletim GEAE Número 297 de 16 de junho de 1998)