Médiuns, mediunidade e mediunismo

Robson Gonçalves

Etimologicamente, a palavra médium significa meio. Em uma tradução menos literal, instrumento ou veículo. Em outros termos, a adoção dessa palavra pelo Espiritismo justifica-se em face da constatação, feita desde os tempos do Codificador Allan Kardec, de que as pessoas que nos transmitem as mensagens do plano espiritual são apenas parte de um mecanismo de ligação entre os dois mundos ­ o material e o espiritual. Nesse sentido, o termo médium encontra-se perfeitamente contextualizado: numa visão metafórica, sem o instrumento musical, a melodia não pode sair do mundo das idéias do músico em direção aos ouvidos e à própria sensibilidade artística dos ouvintes.

Ainda assim, como também já foi extensamente discutido desde as primeiras obras da Codificação Espírita, não se deve menosprezar a importância das qualidades morais e psíquicas dos médiuns. Uma mente povoada pela desordem emocional ou por pensamentos e sentimentos moralmente inferiores, certamente interfere na qualidade das transmissões vindas do plano espiritual assim como um instrumento em estado inadequado ou simplesmente desafinado não pode reproduzir fielmente a melodia que surgiu na mente do compositor.

Em resumo, muito embora seja tão somente um meio , o médium é grandemente responsável pela fidelidade e mesmo pelo nível moral das mensagens que veicula, haja vista que não seria concebível, pela princípio das afinidades, que alguém de baixo padrão moral pudesse ter companhias de caráter angélico em suas atividades mediúnicas.

Até aqui, nosso argumento não acrescenta muito ao que já foi extensamente discutido na literatura espírita. O papel relativamente passivo do médium, sua responsabilidade e o princípio das afinidades são os elementos centrais do estudo da mediunidade. Nesse ponto, porém, devemos passar ao tema da pessoa do médium.Todos aqueles que dispõem de uma percepção um pouco mais aguçada sabem descrever as características básicas da pessoa dos médiuns. Antes de mais nada, eles têm grande sensibilidade emocional, com muita facilidade para o reconhecimento de sentimentos que encontram-se no íntimo daqueles que os cercam, elevados ou não. Quando iniciados nos valores do Evangelho e, sobretudo, na Doutrina Espírita, os médiuns revelam grande equilíbrio emocional e senso de oportunidade para expressarem suas opiniões e firmarem suas atitudes. No mais das vezes, essa sensibilidade se explica pelo fato de que os médiuns reconhecem o atmosfera espiritual em que vive cada um daqueles que o cercam. Nossa mente, que também participa dos elos de ligação entre o corpo e o espírito, recebe sempre, a cada momento, a influência interna de nosso padrão moral e emocional de pensamentos e, ao mesmo tempo, é continuamente bombardeada pela influência externa das energias espirituais que nos envolvem. Essa troca constante de emanações compõe o que se poderia chamar de atmosfera espiritual pessoal de cada um de nós. E o médium possui grande habilidade em percebê-la e interpretá-la. Daí se pode afirmar que os bons médiuns são sempre grandes psicólogos amadores ou, ao revés, que os bons psicólogos são sempre grandes médiuns em potencial.

Essa caracterização da figura pessoal do médium traz consigo um resultado de muita importância para nosso argumento. O médium, muitas vezes, atrai para si a simpatia e a gratidão de quantos podem beneficiar-se de sua atuação. Sequer é necessário referirmo-nos aos casos mais dramáticos, como as mensagens veiculadas por médiuns que trazem aos corações aflitos de familiares as palavras dos entes queridos que já retornaram à vida espiritual. Podemos nos limitar à referência aos médiuns que, nas suas atividades mais corriqueiras do dia-a-dia, cativam os colegas, amigos e vizinhos com sua presença marcante, seus conselhos serenos e sua palavra de conforto, consolação e esclarecimento, por vezes nas conversas mais despretensiosas. Isso porque, o fenômeno mediúnico não possui somente o caráter ostensivo das sessões espíritas, mas também reveste-se de um aspecto extremamente sutil e dioturno: o médium dispõe das faculdades mediúnicas continuamente.

Mas um tema que, em geral, gera grande inquietação e que pode tornar-se autêntica pedra de tropeço na atividade mediúnica ­ para usar uma expressão emprestada ao Evangelho ­ refere-se à sobrevalorização da pessoa do médium.

É necessário convir que, como seres humanos que somos, não podemos nos furtar a um sentimento de grande admiração por figuras como Bezerra de Menezes, Waldo Vieira ou Chico Xavier. O trabalho de cada um deles é imenso, suas virtudes são inspiradoras e seu comportamento ético, um exemplo. No entanto, não podemos nos esquecer que, dentre tantas qualidades, esses médiuns carregam uma que é absolutamente essencial: a humildade.

Certa vez, Chico Xavier respondeu de forma exemplar à afirmação de uma entrevistadora, vivamente impressionada por sua figura veneranda. Ela dizia que, diante de todos os seus anos de trabalho em prol dos sofredores ­ dentre as quais a própria entrevistadora se colocava ­ Chico só poderia ter uma ligação direta e muito especial com Jesus. Diante disso, revestido de uma indignação muito calma e condescendente, o médium respondeu mais ou menos com as seguintes palavras: Eu não poderia ter a presunção de ter tal ligação com o Mestre ! Ainda estamos muito distantes dEle, embora a sua luz nos alcance todos os dias... Ainda nos resta muito mais trabalho a fazer para que possamos ter condições de um contato direto com Jesus. Eu apenas me esforço para trazer aos sofredores um pouco da consolação que Ele nos oferece a todos, sem distinção...

Ao reproduzir essa resposta do médium, talvez eu mesmo não esteja sendo totalmente fiel à forma, mas o conteúdo é preciso e muito claro. É indiscutível o fato de que Chico Xavier representa um exemplo e um verdadeiro arquétipo para o espírita dedicado à Doutrina. Ele merece reconhecimento e gratidão, não apenas da parte de nossa geração, mas de todas as que vierem no futuro, as quais certamente ouvirão falar dele. Mas ele se furta a qualquer tipo de idolatria de sua pessoa, e é essa uma grande lição.

O Espiritismo se distingue de praticamente todas as demais práticas religiosas por não aceitar, em absoluto, que nenhuma figura humana seja alvo de culto. Nesse sentido, o Livro dos Espíritos é muito claro quando reserva a Lei de Adoração tão somente a Deus, nosso criador. O médium, que carrega o peso de grande responsabilidade, é nosso companheiro de jornada evolutiva, semelhante a seus irmãos em tudo e, portanto, em essência. Não possui vínculos privilegiados com o mundo espiritual, mas apenas utiliza, de forma mais ou menos responsável e elevada, os dons que desenvolveu em vidas passadas. O exemplo de Chico encontra, ademais, raízes no ensinamento de outro grande médium, relatado no Novo Testamento. Em Os Atos dos Apóstolos, como também no livro de Emmanuel, Paulo e Estêvão, encontramos uma narrativa em que alguns gregos da Ásia Menor quiseram adorar a Paulo de Tarso e a Barnabé como os deuses mitológicos Zeus e Mercúrio. A indignação de ambos não se deve apenas ao fato de tratarem-se de entidades pagãs; deve-se, igualmente, ao fato de que eles vinham anunciar uma mensagem muito superior a eles mesmos e se consideravam meros emissários de Jesus e de seus ensinamentos renovadores.

Sabemos que a prática da missão mediúnica não é privilégio do Espiritismo. Muitos dos sacerdotes de outras crenças religiosas, conscientes ou não, são portadores das mensagens do plano espiritual. É famosa a representação católica do papa Gregório Magno, recebendo ao ouvido o sussurro do Espírito Santo, em forma de pomba branca, a inspirá-lo na criação dos cantos gregorianos. Como não reconhecer isso como uma representação de autêntica prática mediúnica ! Ocorre que, ao contrário de tantas outras crenças, o Espiritismo não se presta ao culto do médium ou mediunismo. Por esses termos, queremos designar a colocação da figura do médium acima da mensagem que ele traz, algumas vezes através da prática do ato mediúnico de modo espetacular, como se fora o ponto central da atividade religiosa. Essas práticas são verdadeiramente anti-evangélicas e não devem ser admitidas com complacência pelos seguidores da autêntica Doutrina Espírita. O próprio Jesus não aceitou ser chamado de bom mestre , em exemplo indiscutível de humildade em sua missão, a qual não pode ser comparada a de nenhum outro médium na Terra! E mesmo a transfiguração no Monte Tabor, com a materialização de figuras espirituais, foi realizada de forma discreta, unicamente na presença de uns poucos discípulos, e não de forma espetacular, em meio à multidão.

Aos que abraçam a Doutrina Espírita e, em especial, àqueles que estão travando seus primeiros contatos com ela, ficam aqui essas observações. O desenvolvimento de práticas mediúnicas sempre foi um dos pilares de nossa religião. Ao mesmo tempo, porém, o Espiritismo nem comporta personalismos nem valoriza os fenômenos espíritas mais que os ensinamentos que recebe através deles. Acreditamos que, em mundos mais elevados que o nosso, o intercâmbio entre os planos espiritual e material é muito mais intenso mas também muito mais sutil e discreto, não permitindo que ninguém se sinta em condições especiais de elevação moral ou intelectual por ser médium. Em resumo: o Espiritismo tem como essencial os médiuns e a mediunidade, mas não comporta o mediunismo.

(Publicado no Boletim GEAE Número 384 de 15 de fevereiro de 2000)