Novas Idéias e a Doutrina

Deolindo Amorim (espírito)

médium Elzio Ferreira de Souza, Brasil

(Texto extraido do livro Espiritismo em Movimento, publicado pelo Círculo Espírita da Oração de Salvador, Bahia - circulus@svn.com.br)

Acho que ninguém tem dúvida da necessidade de fortalecer o pensamento espírita. Antes, porém, de pensar nisto ou em divulgá-lo, deve todo adepto sentir a necessidade de estabelecê-lo com firmeza e precisão para que não se espalhe e divulgue, como sendo espírita, aquilo que é apenas pensamento pessoal de um ou outro confrade, idéias que, se bem respeitáveis, não podem por si representar o pensamento doutrinário; não porque possam ser colocadas de lado como visceralmente errôneas, mas pelo fato de não terem ainda amadurecido suficientemente para que possam ser aceitas como fazendo parte do conteúdo doutrinário.

É esta falta de amadurecimento, ausência de reflexão, que produz a aceitação facilitada de toda idéia que surge no campo doutrinário, exposta por oradores, ou em livros e jornais, com completo esquecimento daquelas que constituem o pensamento da Doutrina, com enraizamento na codificação.

Por outro lado, existem companheiros que têm uma completa neofobia e rejeitam qualquer idéia que já não esteja sedimentada, esquecidos de que o Espiritismo não parou no tempo, nem pode paralisar-se, que ele tem de acompanhar o progresso das relações sociais, saber enfrentá-las e compreendê-las para ajustar ao seu pensamento, a fim de poder sobreviver aos desafios que os tempos hodiernos oferecem, sem o que correria o perigo de se ver ultrapassado, quando, sem dúvida, ele possui força suficiente para oferecer soluções certeiras, contanto que não se despreze a base doutrinária, que se a estude e compreenda.

Assim a questão não é citar Kardec, muitas vezes abusivamente, sem compreendê-lo suficientemente, para defender essa ou aquela idéia, ou para combater aqueloutra. O problema é de compreensão. Não se pode apenas amarrar um galho em uma árvore e pensar que se fez enxertia válida; por outro lado, realizar um enxerto exige cuidados para que a planta não morra e a árvore se revitalize. Uma idéia nova deve ser pensada, amadurecida, testada, antes que passe a fazer parte do contexto doutrinário, aceito. Até lá, é importante que as idéias sejam discutidas, sem afogadilho, cada um colaborando no seu exame, o que naturalmente não pode ser feito com paixões e interesses em jogo, uns e outros desconhecendo as lições já centenárias do mestre lionês. Sobretudo, se nos voltarmos para a história, veremos o método seguido por Allan Kardec no estabelecimento das bases doutrinárias, método ainda perfeitamente válido, apesar do tempo decorrido. Kardec não aceitou a própria explicação espírita do fenômeno que ele podia compreender, em face do seu conhecimento do magnetismo, sem antes experimentar, pensá-la com relação a outras possíveis soluções, a fim de buscar a causa mais simples e mais ampla na explicação das mesas que se moviam; procedeu prudentemente, e podemos acrescentar cientificamente, ao procurar uma causa que pudesse abranger a maior parte dos fenômenos (1). Mas, por outro lado, soube ver que nem todos eles procediam da comunicação dos chamados "mortos", e que, em determinados casos, certos indivíduos poderiam provoca-los sem auxílio, ao menos direto, dos Espíritos. Aí, já estamos no terreno do animismo, e Kardec soube reconhecê-lo, antecipando-se, portanto, às críticas dos que, posteriormente, como Hartmann, nele criam encontrar a explicação de toda a fenomenologia espírita (2). Tudo isso foi feito com tempo, amadurecendo as idéias no silêncio da noite, sem apressuramento, sabendo modifica-las e ajustá-las à realidade. Soube assim alterar seu próprio pensamento - refiro-me ao período Rivail -, mas com isto não aderiu a tudo o que os Espíritos trouxeram, fosse qual fosse o nome subscritor da mensagem, por mais respeitável tivesse sido esse nome na Terra, ou a honra que se lhe tributasse. Em O Livro dos Espíritos, colheu de toda a parte, pois lhe interessava saber aspectos reais da vida espírita, e não apenas como pensavam os anjos já desligados das duras fases de evolução no planeta(3). Não teve preferências mediúnicas; importava saber se a mensagem poderia suportar o exame do raciocínio, num momento em que a "dona razão" sofria de uma exacerbação, muito compreensível por sinal, por terem as religiões olvidado o respeito ao homem, impingindo-lhe certos posicionamentos fideístas que escorraçavam sua própria dignidade, tornando-o um joguete do fanatismo e da ortodoxia. A inquisição pode falar historicamente sobre isto.

Pois bem, o modo de proceder do mestre deve ser seguido. Para não alongar-me mais, devo dizer que, se o movimento espírita assim proceder, terá capacidade de absorver toda idéia nova qualquer que seja sua fonte científica ou filosófica, contanto que se mostre verdadeira, depois de convenientemente testada, sem que com isto desfiguremos a Doutrina, nem a tornemos obtusa e envelhecida, voltando as costas ao progresso (4).

Meio termo em tudo. Mas se posso recomendar algo é que as lições de Kardec possam ser estudadas com mais profundidade para que se possa reconhecer seu verdadeiro pensamento.

NOTAS DE ELZIO FERREIRA DE SOUZA

(1) vide Oeuvres Posthumes - "Minha primeira iniciação no Espiritismo", p. 243 s. (retorna ao texto)

(2) Eduard Von Hartmann, um dos grandes filósofos do inconsciente ao lado de Carl Gustav Carus (1789-1869) e Arthur Schopenhauer (1788-1869), escreveu um livro intitulado O Espiritismo, publicado em 1885, em que procurou explicar os fenômenos mediúnicos com base no animismo. Alexander Aksakof replicou a tese em seu livro Animismo e Espiritismo (1890) , que foi traduzido para o português a partir da edição francesa e editado pela Federação Espírita Brasileira. Em 1869, Hartmann publicou sua famosa obra Filosofia do Inconsciente em que descreveu três estratos do inconsciente: "1) o inconsciente absoluto que constitui a substância do universo e a fonte das outras formas de inconciente; 2) o inconsciente fisiológico, que, do mesmo modo que o inconsciente de Carus, opera na origem, desenvolvimento e evolução dos seres vivos, incluindo o homem; 3) O inconsciente relativo ou psicológico, que jaz na origem de nossa vida mental consciente" (H. F. Ellenberger - El Descubrimiento del Inconsciente, p. 247).
Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, ainda que não se utilizasse do termo animismo, reportou-se aos casos de indivíduos capazes de produzir fenômenos de efeitos físicos ou intelectuais sem a intervenção de Espíritos - n.º 74, XX e n.º163 (pessoas elétricas, torpedos humanos); n.º 172 a 174 (sonâmbulos). Além de dedicar todo o capítulo XIX ao estudo da influência anímica do médium nas comunicações - "Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas" (vide, sobretudo o n.º 223, 2.a, 3.a, 4.a e 5.a questões), ao estudar a influência moral do médium (cap. XX), referiu-se, no item n.º 230, às intervenções anímicas deste nas comunicações espirituais. Além disso, Kardec já recolhia ali o ensino dos Espíritos sobre a existência de visões que eram simples efeitos da imaginação, constituindo-se em verdadeiras alucinações sem base espiritual (n.º 113). O mesmo sobre alucinações sonoras (n.º 151). E, na Revista Espírita de maio de 1865, transcreveu uma mensagem do Espírito Georges, sob o título - "Estudo sobre a mediunidade", em que é feita a diferença entre os médiuns inspirados pelos fluidos espirituais e os que agem apenas sob o impulso do fluido corporal, fazendo, em seguida, considerações a respeito (p. 149-150).
António J. Freire (Ciência e Espiritismo, p. 155) relembrou que, já nos primórdios do Espiritismo, observadores e experimentadores, como Andrew Jackson Davis, em 1855, Metzger e outros, entre os quais o célebre médium intuitivo americano Hudson Tuttle, salientaram a origem humana de muitas mensagens.
Hudson Tuttle, um dos pioneiros da mediunidade e da literatura espírita nos Estados Unidos, em seu livro Mediumship and Its Laws, chamava, inclusive, a atenção sobre a participação anímica do médium na comunicação mediúnica; segundo as observações feitas, a comunicação obtida por cada médium tem um tom ou cor própria de cada um deles, como se fosse proveniente do seu cérebro, ou de um único controle (p. 44). "Quanto mais perfeitamente o caráter do médium concordar com o do Espírito, mais perfeitas serão as comunicações transmitidas. A eliminação da influência do médium exigiria o mais atento cuidado" (p.45).
Por sua vez, Léon Denis (No Invisível, p. 88 - 89) advertiu que a união de forças e vontade dos assistentes podia "ser suficiente para provocar efeitos físicos e mesmo fenômenos intelectuais, que vão logo sendo atribuídos à intervenção de personalidades invisíveis", sendo medida de prudência e de bom aviso "só admitir, por conseguinte, essa intervenção, quando estabelecida por fatos rigorosos'. Vide ainda p. 93 - 94. (retorna ao texto)

(3) "(...); segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado deste mundo, seus costumes, se assim se pode exprimir; eu vi logo que cada Espírito, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, desvelava-me uma face, da mesma maneira que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando-se os habitantes de todas as classes e de todas as condições, cada um podendo ensinar-nos alguma coisa, e nenhum, individualmente, podendo ensinar-nos tudo; é ao observador que cabe formar o conjunto com a ajuda dos documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e conferidos uns com os outros" (Oeuvres Posthumes - "A minha primeira iniciação no Espiritismo", p. 244). Vide também - Qu' est-ce que le Spiritisme ?: 2.º diálogo ("Diversidade dos Espíritos", p. 67-71); Revista Espírita, abril de 1866, p. 103 ("Da revelação"); Le Livre des Esprits, Introdução, n.º X, XII e nota ao n.º 613. (retorna ao texto)

(4) Ensinava Kardec - "O Espiritismo não admite, pois, como princípio absoluto senão o que está demonstrado com evidência, ou o que resulta logicamente da observação. Tocando todos os ramos da economia social, às quais empresta o apoio de suas próprias descobertas, ele assimilará sempre todas as doutrinas progressistas, de qualquer ordem que sejam, alcançado o estado de verdades práticas e saídas do domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria; em cessando de ser o que é, ele desmentiria a sua origem e o seu fim providencial." (La Genèse, cap. I:55) (retorna ao texto)

(Publicado no Boletim GEAE Número 355 de 27 de julho de 1999)