O Aborto é Legitimo ?

José Lucas

Muito sucintamente, o aborto é a interrupção da gravidez, provocando a morte do feto. Desde sempre praticado, mais ou menos às escondidas, o aborto tem-se tornado quase como que uma banalidade na nossa sociedade. Há quem o repudie energicamente e quem o admita como sendo um processo perfeitamente banal, que se poderá enquadrar no âmbito da vida de uma mulher. Argumentos de um lado e de outro da barricada são enfileirados, numa luta que se pretende que saia do plano da consciência para se generalizar, quando tal não é possível, por mais que se queira. O aborto poderá ser espontâneo ou provocado. O aborto espontâneo é aquele em que a mulher aborta sem querer, espontaneamente, num processo ao qual ela é alheia. O aborto provocado é, como a própria palavra indica, provocado exteriormente por alguém. Pode ser terapêutico, eugénico, ou simplesmente por opção conjuntural. O aborto terapêutico, é quando numa gravidez, o médico tem de optar por salvar a vida da mãe ou do filho, não havendo hipótese de se salvar ambas as vidas. Nesse caso opta-se por salvar a vida da mãe, abortando terapeuticamente o filho. O aborto eugénico é quando se faz o aborto devido a malformação do feto. O aborto meramente conjuntural é aquele que se faz por opção, sem ser eugénico ou terapêutico. A mãe decide abortar por várias razões, desde falta de condições económicas, falta de apoio familiar, violação, opção de vida, entre outras razões que se poderão alegar.

É pena que um tema tão importante como este sirva de meio de lutas políticas, de negócios de bastidores, como se a vida humana pudesse assim, ligeiramente ser decidida, de ânimo leve, ao sabor dos interesses mais imediatistas dos nossos governantes.

No que concerne a este referendo* sobre a despenalização da lei do aborto, que se for aprovada permitirá que se efectue abortos até às 10 semanas de gravidez, faz-nos parecer que toda esta polémica se baseia numa falsa questão, pois dever-se-ia perguntar em referendo se se concorda com a legalização do aborto ou não. Ora, este referendo apenas discute os prazos em que o aborto se pode realizar ou não. Curiosamente, a falta de informação é uma constante, e pergunte-se ao vulgo dos mortais, por esse Portugal fora e veremos as pessoas pensarem que ao votarem NÃO estarão a votar contra o aborto, quando na realidade estarão sim a votar contra o alargamento do prazo em que é permitido abortar. Num país que já aboliu (e bem) a pena de morte, é sintoma de grande hipocrisia e incoerência moral, estarmos a referendar se devemos matar um ser indefeso com uma ou outra idade.

É pena que um tema tão importante como este sirva de meio de lutas políticas, de negócios de bastidores, como se a vida humana pudesse assim, ligeiramente ser decidida, de ânimo leve, ao sabor dos interesses mais imediatistas dos nossos governantes.

O QUE PENSA O ESPIRITISMO

O Espiritismo ensina-nos que o feto é um ser vivo, já que ali, no útero materno, encontra-se completo na sua estrutura básica, e ligado ao espírito reencarnante desde o momento da concepção. Vamos encontrar em «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec, na questão n.º 880:

«Qual é o primeiro de todos os direitos naturais do homem?», a seguinte resposta: «É o de viver; e é por isso que ninguém tem o direito de atentar contra a vida do seu semelhante, nem de fazer qualquer coisa que possa comprometer a sua existência corpórea.»

Na questão n.º 358 vemos a seguinte questão: «O aborto provocado é um crime, qualquer que seja a época da concepção?», à qual os espíritos dão a seguinte resposta: «Há sempre crime, no momento em que se transgride a lei de Deus. A mãe, ou qualquer outro, cometerá sempre crime, ao tirar a vida da criança antes do seu nascimento, porque isso é impedir a alma de passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento.»

Mais à frente, vemos ainda na pergunta n.º 359: «No caso em que a vida da mãe estaria em perigo, pelo nascimento da criança, há crime em sacrificar a criança para salvar a mãe?», a que se recebeu a seguinte resposta: «É preferível sacrificar o que não existe a sacrificar o que existe.»

Pergunta-se ainda na questão n.º 372: «Qual é o objectivo da Providência, ao criar seres desgraçados como os cretinos e os idiotas?», à qual se obteve a seguinte resposta: «São espíritos em punição que vivem em corpos de idiotas. Esses espíritos sofrem com o constrangimento a que estão sujeitos e pela impossibilidade de se manifestarem através de órgãos não desenvolvidos ou defeituosos.»

Uma última questão, a pergunta n.º 373: «Qual o mérito da existência para seres que, como os idiotas e os cretinos, não podendo fazer o bem nem o mal, não podem progredir?» Resposta - «É uma expiação, imposta ao abuso que tenham feito de certas faculdades; é um tempo de suspensão.»

Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a Lei

Estudando o Espiritismo, verificamos que somos seres eternos, que já vivemos antes e que voltaremos a ter novos corpos de carne, não perdendo a nossa individualidade, o nosso psiquismo, os nossos conhecimentos, aprendizagem, ao longo das reencarnações sucessivas. Aprendemos que somos seres altamente responsáveis pelas nossas atitudes, e que hoje somos mais ou menos felizes e equilibrados, de acordo com o equilíbrio ou falta dele que gerámos em vidas passadas, objectivando esta reencarnação um esforço de aprendizagem moral e intelectual, bem como a reparação de erros passados, de molde a libertar a nossa consciência do complexo de culpa que geramos, quando nos apercebemos do quanto prejudicámos a, b ou c, nesta ou naquela situação. Aprendemos assim, que não temos o direito de interromper a vinda (reencarnação) de um ser que necessita voltar para evoluir, não estando nas nossas mãos o poder de dar ou retirar a vida humana. Aprendemos assim, que com excepção do aborto terapêutico, todos os outros são de evitar, à luz do Espiritismo, sob pena da mãe contrair graves débitos na sua consciência, que lhe irão decerto gerar grandes fontes de sofrimento, que se poderão ainda repercutir em próximas existências.

O Espiritismo ensina-se que nada acontece por acaso na vida, e que dentro da Lei de Causa e Efeito vemos que as nossas vidas sucessivas se encadeiam como elos de uma corrente, numa solução de continuidade que nos assombra pela lógica dos conceitos. O Espiritismo mostra-nos pois, quem somos, de onde vimos, para onde vamos, porque vivemos, porque sofremos, dando-nos uma visão global da existência humana, que nos ajuda a entender a vida sob um ponto de vista muito mais abrangente.

Um assunto a ser muito bem estudado, cujos conceitos poderão ser melhor compreendidos através da leitura dos livros de Allan Kardec, ou então entrando em contacto com uma associação espírita federada na Federação Espírita Portuguesa.

REGRESSÃO DE MEMÓRIA - UM DEPOIMENTO

António Santos, recorreu certo dia a um terapeuta, mais propriamente a um psiquiatra, no sentido de tentar superar determinadas dificuldades de relacionamento com a esposa. Foi encaminhado para uma nova terapia, a TRVP - Terapia Regressiva Vivencial Peres - uma terapia em que as pessoas fazem regressão de memória, mas sem seres hipnotizadas, elas ficam num estado alterado de consciência, como se estivessem no estado alfa. Contou-nos um facto muito interessante. Mesmo sem nunca ter pensado nisso, e mesmo sem que isso alguma vez lhe fosse factor de perturbação, numa das regressões viu-se a reencarnar, assim dizia, já que ele sentia-se como um ser, diferente fisionomicamente da sua actual cara, que ia voltar à Terra, via os pais no quarto, no momento da concepção, e a natural repulsa que ele sentia, pois não queria voltar à Terra. Relatou com riqueza de pormenores, ao psiquiatra, as suas sensações durante os três primeiros meses na barriga da mãe, bem como durante a restante gestação até ao momento do parto. Embora com descrições bem interessantes, que dariam para outro artigo, pareceu-nos razoável reportar este caso, já que vão sendo cada vez maiores as evidências científicas de que existe uma entidade pensante (espírito) que preexiste ao corpo físico, evidências essas que nos são dadas pela TRVP bem como por outras técnicas de natureza regressiva e que a medicina transpessoal vem utilizando com enorme sucesso. Uma situação que nos dá que pensar, e que mostra a justeza dos postulados espíritas, no que concerne a esta problemática do aborto, bem como à realidade da imortalidade da alma e da existência da reencarnação.

* O texto foi escrito em junho de 1998, na proximidade de um referendo sobre o aborto em Portugal (Nota do Editor)

(Publicado no Boletim GEAE Número 319 de 17 de novembro de 1998)