São Paulo 450 Anos - O Espiritismo na Imprensa Paulistana

Marcos Paulo Garcia

A imprensa paulistana, possivelmente pelo interesse despertado em seus leitores, sempre deu espaço as notícias sobre o Espiritismo. Uma pesquisa no Arquivo do Estado de São Paulo - http://www.arquivoestado.sp.gov.br - revelou fatos interessantes, como o acompanhamento das eleições de diretorias de grupos espíritas na coluna "Movimento Associativo" do jornal "O Estado de São Paulo". Por exemplo, nela se publicou em 10 de fevereiro de 1915 a notícia da eleição de uma nova diretoria da "União Espírita do Estado de São Paulo" tendo o Dr. Augusto Militão Pacheco como presidente.

Também se publicavam informações sobre conferências - por exemplo em 23 de setembro de 1914 se noticiou uma conferência sobre "Ciências Ocultas" no salão nobre da "Associação Espírita do Estado de São Paulo" feita pelos palestrantes Henrique de Macedo e Raul Silva - e casos prosaicos como a detenção de um médium do "Centro Espírita Nossa Senhora da Aparecida" por exercício ilegal da medicina. Segundo o noticiário de 11 de outubro de 1939, a polícia encontrou um grande número de pessoas em frente ao prédio onde se localizava o centro, pois eram tantos os que procuravam as consultas que não cabiam nas suas dependências. O texto ainda informa que foi apreendido um cartaz que fixava em 5$ o preço das consultas e que o número de "clientes" atendidos diariamente era de 80.

Dentre as curiosidades encontradas no Arquivo do Estado está um artigo sobre Camille Flammarion, publicado na "Folha da Manhã" de 19 de agosto de 1925, que transcrevemos abaixo:

FENÔMENOS MISTERIOSOS

CASAS ASSOMBRADAS

Como Camillo Flammarion encarava os Fanstasmas que vivem a meter medo nas pessoas

Camillo Flammarion, o famoso astrônomo francês cuja morte a pouco se registrou, tratou no seu livro “Casas Encantadas”, de interessantes fenômenos aparentemente fantásticos, mas que estão fora de toda dúvida.

As “Casas Encantadas”, para Flammarion, não são um mito e sim uma realidade.

O leitor vai ler uma das manifestações mais notáveis que ele descreve no seu livro em que se evidencia o desejo de uma esposa querida de mostrar-se ao seu marido e aos seus amigos aqui da Terra.

Acompanhe o leitor conosco a leitura de Flammarion:

“O caso ocorreu na noite de 26 para 27 de abril de 1918, na casa nº13 da rua La Palle, em Cheburgo. A casa é de propriedade do Dr. Bonnefoy que era então médico chefe do hospital da Marinha. Eu estive lá em setembro de 1914, com minha esposa, minha secretária, senhorinha Renaudot, e nossa fiel cozinheira, a convite da senhora Bonnefoy.

A senhora Bonnefoy tinha para comigo uma verdadeira idolatria: chegou a colocar em sua casa uma placa comemorativa da minha estada.

Ao regressar ali em 1918, em nova temporada, a senhorinha Renaudot e a cozinheira viram coisas tão extraordinárias que lhes pedi que me descrevessem.

Devo fazer notar que minha secretária é uma mulher de grande instrução e cultura, que não é nada impressionável. A cozinheira que não possue o mesmo nivel intelectual, também sentiu os mesmo fenômenos.

Eis aqui a narração:

“Quando cheguei pela segunda vez a casa que havia sido a residência da senhora Bennefoy, foi-me designado o quarto onde ela tinha morrido e onde o Dr. Colecionava todas as recordações da sua primeira esposa. Na primeira noite não pude dormir. Passei a pensar em minha amiga defunta e a contemplar o seu retrato que pendia diante da cama numa parede.

A segunda noite, ou seja a 26 de abril, pensei em dormir bem, não me preocupando com as recordações.

Mas apenas havia dormido uma hora quando uma batida na porta me despertou. Fui abri-la e não encontrei ninguém. Depois as batidas continuaram na janela, nas paredes, bem distintas, inconfundíveis com os barulhos de ratos, gatos e quaisquer outros noturnos.

Acendi a luz e continuaram os ruídos, que agora assemelhavam passos dentro do quarto. Logo depois, ouvi o ruído de uma pessoa que tira seus sapatos e o movimento da cama provocado por uma pessoa que nela se encosta. Levantei-me não mais podendo dormir.

No dia seguinte levei a cozinheira para o meu quarto. E as duas da madrugada repetiram-se os barulhos, com maior intensidade, precisamente atras do retrato da senhora Bonnefoy. Parecia que alguém se agitava dentro dele. Logo se ouviu o ruído de uma pessoa que salta do alto.

Parece pois que a senhora Bonnefoy usou do seu retrato como porta de entrada a residência do seu esposo, aonde se manifestava a amigos queridos.”

Eis aqui outro caso contado por Elen Webler, intima de Flammarion:

“No verão de 1874, mudamo-nos para a residência onde até hoje vivemos, 106, High Street, Oxford. Escolhemos um quarto do andar térreo para o dormitório. Na primeira noite não pudemos dormir: uma sensação de terror, de algo invisível que caia do teto, se apoderou de mim de tal sorte que as duas da madrugada tive que levantar-me e não mais deitei.

A mesma sensação repetiu-se nas noites posteriores, fiquei doente com a falta de dormir. Transladada para Cambridge, prontamente recuperei a saúde enquanto me chegava a notícia de que logo após minha saída, o teto do quarto desmoronou esmagando-me a cama. E então fiquei certa de que tudo foi um aviso para minha salvação.”

O referido livro de Flammarion esta cheio de narrações como essas. Como homem da ciência e investigador psíquico, o grande francês tinha a convicção de que os fantasmas não são mais do que materializações de eflúvios individuais que se impregnam nos lugares e as coisas que vivem em contato conosco.

Como a voz registrada num gramofone perdura e sobrevive à morte do seu autor, tais pensamentos também ficam em tudo que nos rodeia e quando uma pessoa sutil e sensitiva os interpreta surge o fenômeno. A doutrina de Paracello e Jacob Bohne já nos diz que “aonde quer que passemos algo de nosso deixamos”.

E Flammarion indica, como Bozzano, que a analogia é completa e que nenhuma consideração cientifica pode opor-se a teoria de que a matéria inerte possua propriedades idênticas às da substancias vivas.

DOCUMENTO: Folha da Manhã – 19 de agosto de 1925.

CÓDIGO: 04/244 – Folha da Manhã – 1925

ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO

(Publicado no Boletim GEAE Número 473 de 6 de abril de 2004)