Os Diversos Caminhos da Evolução Anímica

Renato Costa

Estudos Recentes da Inteligência não-humana Ajudam-nos a Entender uma Cautelosa Nota do Codificador

(Artigo originalmente publicado pela Casa Editora O Clarim: http://www.oclarim.com.br/ na edição de Maio da Revista Internacional de Espiritismo)

No Item 56 do Capítulo I da Segunda Parte de “O Livro dos Médiuns”, diz Kardec: “Com pequenas diferenças quanto às particularidades e exceção feita das modificações orgânicas exigidas pelo meio em o qual o ser tem que viver, a forma humana se nos depara entre os habitantes de todos os globos. Pelo menos, é o que dizem os Espíritos.

Apesar de, logo a seguir, ter o Codificador tirado algumas ilações tendo como base a afirmação contida na primeira frase cotada, gostaríamos de chamar a atenção dos leitores para a segunda, onde ele diz “Pelo menos, é o que dizem os Espíritos”. Kardec, como todos os que estudam a Codificação sabem, não fazia nenhuma afirmação conclusiva sem antes passar a mesma pelo crivo da razão e do bom senso. A cautela expressa na segunda frase denota claramente que tal não se havia dado com respeito à afirmação de que “a forma humana se nos depara entre os habitantes de todos os globos”. Procuraremos mostrar neste trabalho que Kardec tinha bons motivos para ter tal cautela.

Desde as mais remotas eras o homem tem percebido que determinadas espécies de animais denotam alguns comportamentos semelhantes aos humanos e que, quando nos referimos à nossa espécie, são tidos como inteligentes. Assim foi que animais tão diversos como cães, corvos, golfinhos, papagaios, chimpanzés e corujas, entre outros, foram, ao longo dos séculos, associados a conceitos como fidelidade, esperteza, amizade, habilidade e sabedoria.

A partir do século XX a questão da “Inteligência Não Humana” começou a despertar um interesse crescente na comunidade científica, proliferando hoje em todo mundo cientistas dedicados ao estudo daquelas e de outras espécies. Tais cientistas se dividem entre os estudiosos de Psicologia Associativa, um ramo da ciência que surgiu nos EUA na década de 20 e os estudiosos de Etologia, outro ramo da ciência, este surgido na Europa na década seguinte. É importante frisar, com base nessa informação, que no século XIX não havia nenhum ramo da ciência dedicado especificamente ao estudo do comportamento animal, um fato que justifica a hesitação de Kardec em aceitar o que haviam dito os Espíritos a respeito da forma hominal nos diversos mundos.

No início desses estudos predominava a noção de que a inteligência animal tinha que ser comparada com a humana e avaliada a partir dela. Com esse enfoque comparou-se o tamanho absoluto dos encéfalos das diversas espécies, o seu tamanho relativo, o quociente de encefalização e a quantidade de circunvoluções no córtex cerebral, sendo que nenhum desses métodos demonstrou ser suficientemente correto. Hoje em dia muitos estudiosos têm defendido a tese de que inteligência é algo que não deve ser analisado entre as espécies e sim avaliado para cada uma em função dos desafios que tem por enfrentar e do modo como escolhe, dentre os conjuntos de informação de que dispõe, aquele que lhe oferece o melhor meio para enfrentar tais desafios com sucesso.

Defrontado com os inúmeros estudos hoje disponíveis que comprovam a inteligência das mais diversas espécies de animais, alguém poderia objetar quanto à sua evolução anímica, afirmando que os indivíduos que a elas pertencem fazem hoje exatamente o mesmo que faziam há séculos atrás ou mesmo desde que a história registra a sua existência. Longe de se constituir tal afirmação em uma objeção válida, no entanto, ela denota, a nosso ver, apenas uma percepção equivocada quanto à própria evolução da inteligência humana. O ser humano, assim como os demais animais, não denota ter feito significativa evolução em inteligência nos últimos milênios, conforme demonstra a sofisticação de escrituras e escritos filosóficos milenares das diversas tradições. A evolução que houve na raça humana foi, predominantemente, de ordem científica e tecnológica, devendo-se ela, basicamente, à habilidade do homem na construção de ferramentas e ao seu domínio de uma forma complexa de comunicação, dotada de sintaxe e semântica e que é chamada de linguagem.

Para sabermos, portanto, se uma outra espécie está em condição de chegar algum dia a nível semelhante àquele onde o ser humano hoje se encontra não nos basta saber se eles possuem inteligência, mas, mais que isso, precisamos saber se os indivíduos de tal espécie têm condição de criar ferramentas e de estabelecer entre si uma forma de comunicação que mereça ser chamada de linguagem. Ocorre, porém, que o patamar onde o homem se encontra não representa, necessariamente, um estágio obrigatório para todas as espécies. Apesar de ser verdade que o domínio da linguagem se afigura como essencial característica evolutiva, o mesmo não se pode afirmar com respeito à habilidade para construir ferramentas. Esta última faz-se necessária ou não, dependendo do meio onde a espécie vive e das condições que ela tem de sobreviver nesse meio.

Capacidade de comunicação complexa e muito mais são características que têm sido verificadas pelos pesquisadores como existentes em diversas espécies, havendo, entre elas, algumas que vivem na terra, outras no mar e outra, ainda, que se locomovem pelo ar. Em artigo posterior daremos um exemplo de cada uma delas de forma a caracterizar bem essa informação.

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Maria João de Deus, a querida mãezinha de nosso Chico Xavier, referiu-se aos habitantes de Saturno com as seguintes palavras: “Nada tinham de comum com os tipos da humanidade terrena, afigurando-se-me extraordinariamente feios com a sua organização animalesca, com suas membranas à guisa de asas, tão estranhas para mim, as quais lhes facultavam o poder de volitar à vontade.” Ante o seu assombro, o instrutor a esclareceu quanto às condições de vida naquele mundo e, referindo-se aos seus habitantes, disse a Maria João: “Essas criaturas que te parecem animais egressos das plagas terrestres, onde os zoófitos encontram os seus elementos de vida, são altamente dotados de sabedoria, sensibilidade e inteligência. Seus sentidos e percepções são muito superiores àqueles com que foram aquinhoados os homens terrenos e a preocupação máxima da sua existência é a intensificação do poder intelectual.

Nosso pequeno estudo mostrou que as espécies evoluem de forma diferente conforme o meio onde vivam e os desafios que tenham que enfrentar. E, mais, que cada uma delas, apesar de trilhar um caminho evolutivo que lhe é próprio, chegará, um dia, ao reino hominal para alçar-se, daí, à angelitude. Processando-se a evolução em dois mundos, sabemos que as mudanças necessárias no corpo físico se refletem no corpo sutil e vice-versa. Logo, o animal que vem evoluindo, há milênios, em meio líquido possui um corpo físico totalmente adaptado para o meio líquido, com tal adaptação perfeitamente refletida em seu corpo sutil, o mesmo se podendo dizer, mutatis mutandis, do animal que vem ao longo da sua evolução, deslocando-se pelo ar.

Aquilo que Maria João percebeu em Saturno, portanto, não foi fruto de sua ilusão, mas algo perfeitamente possível de se esperar. Sendo Saturno um imenso mundo gasoso, os seres inteligentes que lá existam têm, forçosamente, que ter seus corpos sutis adaptados ao meio. Ao constatarmos que espécies de aves vêm evoluindo em inteligência, é válido, portanto, supor que o caminho que elas irão seguir venha a levá-las, daqui a vários milênios, a estágio semelhante.

Esperamos ter mostrado evidências bastante apontando para a conclusão de que os caminhos da evolução anímica são vários e diversos e que a forma humana que conhecemos na Terra é uma e não a única destinada a receber a alma quando de seu ingresso no reino hominal. Saudamos, neste ponto, mais uma vez, a sábia cautela do Codificador.

Bibliografia

(Publicado no Boletim GEAE Número 474 de 27 de abril de 2004)