Os Mistérios - Um Encontro de Época Romanceado

Milton B. Piedade

Entrei apressado para fugir da chuva e não tive oportunidade de ver a fisionomia das pessoas. As silhuetas eram irreconhecíveis. Um movimento incomum desviou minha atenção do filme. O barulho do projetor 35mm quase não me permitia ouvir. Aproximei a cabeça e direcionei o ouvido.

Fixei minha atenção na voz de tom mais agudo, daquele senhor de estatura baixa:

- ...mas todos foram facilmente desmascarados por Richet, Geley, Schrenck-Notzing, Harry Price.

Seu interlocutor não se exaltou:

- Isso só prova que ao lado do fenômeno falso, há o verdadeiro. Ao lado das fraudes conscientes, há as fraudes inconscientes. Sua generalização é tola e imprudente. Causa dó o teorista que pretende, ainda hoje, desconhecer tais fenômenos.

Ainda com os respingos da chuva e a respiração ofegante, eu não havia me desligado completamente de minhas angustias. Estava sendo uma década apreensiva. Depois da morte de Stalin na URSS e o cessar fogo na Coréia veio a revolução Cubana. A guerra fria foi ganhando novos contornos e eu me voltara mais para as questões da política internacional e de minha própria existência. Aquele encontro casual no cinema parecia ter um sabor especial. Ouvia nomes pouco familiares mas que me levavam a memórias distantes. Uma agradável sensação de prazer intelectual foi tomando conta de meu ser.

- Você se esquece do livro As Fraudes do Médium Laszlo, certamente.

Ponderou o senhor baixo.

Apesar do tom aparentemente mais ríspido, o senhor calvo se mostrava sereno e perguntou:

- Estou esperando você dizer da paixão de William Crookes pelo fantasma de Katie King, ou será que o prof. Leonídio Ribeiro já lhe convenceu que a avassaladora paixão foi por Florence Cook?

Nesse momento reconheci o outro interlocutor. Tratava-se de profissional de fama. Médico que havia se celebrizado nas letras, por várias obras, umas de cunho científico, outras de cunho filosófico. Pessoa que deixava atrás de si um rastro luminoso como de certos meteoros quando sulcam o espaço. Aquele senhor de estatura baixa e voz aguda era sem dúvida o Dr. Silva Mello. Havia ouvido falar de seu último livro "Mistérios e Realidades deste e de outro Mundo". Eram seiscentas páginas onde ele tentava provar que algo não existia. Não me recordava ao certo.

O senhor de voz aguda parecia pensar, quando seu interlocutor continuou:

- Eu não conseguiria enumerar todos seus equívocos. Você é um contador de anedotas.

Pareceu-me duro demais, porém necessário.

- Então devo eu acreditar que um elefante pode voar?

Questionou o senhor de tom agudo.

- Voar, no sentido de criar asas, concordamos na impossibilidade. Mas o acumulo de forças fluídicas em determinadas condições que levem o elefante ao ar sim, isto é possível. E o fenômeno da levitação explica o fato.

- E quem diz isso é o Mirabelli!

Afirmou categoricamente com seu tom agudo característico.

- É Lombroso, em companhia de Bianchi, Tamburini, Vizioli, Ascensi...

Depois de rápido silêncio, que me pareceu pausa para reflexão, continuou:

- Bom... Ao menos desta vez você não citou Crookes.

- Então, não lhe dei oportunidade de se resignar a encarar Crookes como um imbecil, o que seria mais imbecil ainda.

Ficara evidente que tratavam-se de dois homens de letra. Este que por último se pronunciara causava excelente impressão. Demonstrava conhecimento profundo daquilo que falava. Se expressava com autoridade e levava sobre seu adversário a vantagem do estilo, de uma ironia, talvez a pior para o protagonista, porque é aquela que faz rir, e o riso do ouvinte, atuando como um pé de vento, põe embaixo, com uma só rajada, o volumoso castelo de ilusões que o outro havia armado com tanto jeito.

- Tenho também meus pontos convergentes.

Afirmou o senhor de estatura baixa.

- ???

- Richet não aceitava a levitação, eu também não aceito. Logo, não mereço a má vontade dos espíritas.

Me lembro de ter acompanhado sem muito interesse esta polêmica pela revista O Cruzeiro do ano passado. O Dr. Silva Mello teve enorme destaque com fotos muito bem produzidas e espaço suficiente para defender suas teses e atacar todos que lhe eram contrários. Seu trabalho social foi enaltecido. Me lembro apenas ter me chamado a atenção que esta figura ilustre havia declarado à revista que fizera tratamento psicanalítico na Europa e não havia conseguido se livrar das muitas histórias de assombração que teria ouvido em sua infância. Ora, num pais de crendices como o nosso, estas histórias são perfeitamente naturais. O que não vejo com naturalidade é um médico, depois de tratamento psicanalítico, não ter se livrado de seu trauma de meninice.

- Isto por desconhecer a carta que Richet escreveu a Ernesto Bozzano, no final de suas experiências e no final de sua vida, onde esposou a hipótese espírita.

O senhor de tom agudo demonstrava inquietação, enquanto seu interlocutor continuou:

- E ainda aguardo argumentação a respeito da opinião de Richet e Crookes sobre a materialização que Richet batizou de ectoplasmia.

- Falsas suposições e errôneas interpretações.

Argumentou sem muita convicção.

- Foi fato experimentalmente verificado. Para se admitir um fenômeno científico como demonstrado é preciso ser tão severo com as provas quanto se tratasse de condenar um homem à morte.

Neste momento me lembrei de outra polêmica, e esta havia acompanhado junto com minha esposa, onde o padre Álvaro Negromonte nesta mesma década escrevera o livro "O que é o Espiritismo". Ele dizia que "nós sabemos que estas manifestações só podem ser o demônio..." Mesmo sem ter conhecimento do assunto achei explicação deveras simplista para pessoa inteligente, teóloga e que, pela sua condição de padre, não podia deixar de ter estudos de filosofia. E, de tanto minha mulher ouvir a rádio Progresso de São Paulo, sempre as 20:00horas o programa Hora Espiritualista, terminei por me voltar um pouco à estas questões.

- Sem sustentação filosófica. O que faço em minha biopsicologia, sustentado por Max Dessoir.

Propagandeou o Dr. Silva Mello.

- Isto se Schopenhauer não tivesse escrito As Ciências Ocultas. Se a clarividência não confirmasse a doutrina kantiana da idealidade do espaço, do tempo e da causalidade... Se a vontade não fosse a "coisa em si", sugerida por Locke, examinada por Kant, mas solucionada pela filosofia de Schopenhauer.

O senhor calvo pouco respirou para continuar:

- Lembre-se sempre de Emmanuel Kant: "Age de tal modo que as máximas de tua vontade possam sempre, ao mesmo tempo, servir como princípio de uma legislação universal".

Este encontro me trouxe reminiscências de notícias em jornais. Vinha eu de familia militar e não pude deixar de observar que há exatos 4 anos atrás acontecera a Cruzada dos Militares Espíritas de Florianópolis, em Santa Catarina. Ali estiveram presentes durante 4 dias representantes de inúmeras ordens religiosas de todo o pais e do exterior onde meu pai, se vivo, gostaria de estar presente. Me questionava sempre porque corriam processos contra Espíritas como Chico Xavier por causa de direitos autorais. Ali no cinema me senti absorto em pensamentos aos quais não conseguia ter controle algum. Ouvia meus interlocutores mas me sentia distante e como sendo levado a compreender coisas que para mim, até aquele momento, pareciam sobrenaturais e sem grande interesse. Quando, depois de vários problemas técnicos o filme foi suspenso e o gerente prometia devolver o dinheiro dos poucos presentes me aprofundei em meus pensamentos e perdi de vista os dois cavalheiros que propiciaram aquelas minhas ponderações.

Não me inquieto por não lembrar o nome do filme, como não me incomodei com a garoa fina daquela noite, à saída do cinema. Sentia-me com enorme apetite intelectual e, como se houvesse sido desperto para algo muito além de mim. Caminhei demoradamente pelas ruas, aguardando a autorização do relógio para que fossem abertas as primeiras livrarias do dia seguinte. E lá, na primeira que encontrasse, procuraria o livro de Sergio Valle "Silva Mello e os seus Mistérios", editado pela LAKE, naquele ano de 1959.

(Publicado no Boletim GEAE Número 472 de 16 de março de 2004)