Porque sou Espírita Kardecista

Ednilsom Montanhole

(Ver texto "Porque Não Sou Espírita Kardecista" do Wladisney, Boletim 429)

Existem algumas correntes dentro do Espiritismo que contestam o uso do termo "Kardecista", dizendo que não existe mais de um tipo de espírita, apenas aquele seguidor da codificação de Kardec, e que por isto mesmo é uma redundância.

Devo primeiramente dizer que concordo plenamente com esta argumentação, posto que ela está baseada na própria codificação, a qual não há absolutamente motivos para contestar.

Mas para me apoiar, vou usar a mesma codificação, especificamente o Evangelho Segundo o Espiritismo, em seu capítulo XVII, item 10, o segundo parágrafo nos diz:

"Não julgueis, todavia, que, exortando-vos incessantemente à prece e à evocação mental, pretendamos vivais uma vida mística, que vos conserve fora das leis da sociedade onde estais condenados a viver. Não; vivei com os homens da vossa época, como devem viver os homens. Sacrificai às necessidades, mesmo às frivolidades do dia, mas sacrificai com um sentimento de pureza que as possa santificar."

Assim, no meu entender, devemos viver o hoje, e não o período em que Kardec estava vivo. Acontece, que quando Kardec cunhou o termo espiritismo, ele estava sozinho em sua tarefa. Nesses nossos dias, uma miríade de variantes que seguem ou não os ensinos que ele nos legou também denominam-se espíritas.

Vejam o caso de meu vizinho, ótima pessoa, moral elevada, bom pai, trabalhador, nada que o desabone. Ele é médium. E freqüenta um centro de Umbanda. Vá, qualquer um destes que dizem que espiritismo só tem um, dizer-lhe que ele não é espírita. Ele fica uma fera! E vai argumentar uma dúzia de motivos que o fazem crer que é espírita.

Agora, não importa se ele está certo ou errado, o fato é que esta visão se espalha por toda a nossa sociedade. Qualquer um que não esteja diretamente ligado ao Movimento Espírita faz esta associação. Já vi evangélicos referindo-se a nós como "saravá", já vi católicos surpresos ao me declarar cristão, um colega judeu me perguntou se era eu que matava as galinhas do despacho, e por aí vai...

Em língua portuguesa, quando determinadas palavras, mesmo que alienígenas, tornam-se de uso corrente, elas são incorporada à língua. Hoje encontramos no Aurélio termos como deletar, escanear e leioute, estrangeirismos que devido ao uso e costume fazem agora parte de nosso vocabulário diário.

É assim que encaro o termo Kardecista. Quando começam a falar comigo sobre despachos, eu simplesmente comento: "Sou Kardecista", e a conversa muda de rumo.

Vivemos no mundo, e devemos "nos sacrificar às suas frivolidades", dizer-se Espírita Kardecista é uma delas, sem dúvida uma redundância, talvez até mesmo um desapreço ao nosso caríssimo Allan Kardec que certamente o desagradaria, mas na falta de termo melhor para me identificar em meio a este caldo que o pensamento popular chama de espiritismo, que seja.

(Publicado no Boletim GEAE Número 430 de 19 de fevereiro de 2002)