Um estranho recanto do Universo

Carlos Alberto Iglesia Bernardo

Um extra-terrestre que descesse em uma de nossas cidades no Natal, provavelmente se questionaria sobre a identidade do velhinho simpático, de roupas vermelhas, que parece onipresente em todas as manifestações festivas desta época.

Nosso extra-terrestre talvez se espantasse com a extrema valorização dos festejos, centrados em guloseimas e presentes fora do alcance da maioria dos habitantes do planeta. Com grande certeza perceberia os lampejos de uma compaixão pelos mais desfavorecidos, quase que apagada entre o anseio de parecer mais feliz, usando o poder de compra e a capacidade financeira de reunir um grande número de amigos. Mas acredito que dificilmente ele perceberia que nesta compaixão se encontra a verdadeira razão da data festiva.

A comemoração, que rememora o nascimento de um homem extraordinário - que mudou os rumos da civilização ensinando o amor ao próximo como lei básica da criação - tão desvirtuada está de suas finalidades que o nome dele é pouco citado e muito menos são enfatizados seus ensinamentos. Um ou outro presépio, nos lembram dele e que ele nasceu tão pobre que seu primeiro berço foi uma manjedoura em um estábulo. Se teve presentes trazidos por viajantes do oriente distante, teve também, em tenra idade, que fugir do ódio de um tirano ensandecido, tornando-se refugiado, como milhões de outras crianças pobres em nossos dias.

Por toda sua vida o vemos exaltando os bens do coração e do espírito, ensinando a solidariedade e o desapego. Mesmo no momento mais poético de sua pregação, quando sobre o monte se dirigiu a multidão, são as bem-aventuranças aos pobres de espírito, aos sofredores e aos famintos de justiça que marcam para sempre sua mensagem. Nunca mais nenhuma instituição humana poderia ignorar os desvalidos e os pequeninos de toda a sorte, para os quais o Reino dos Céus se abriu.

No "Pai Nosso", uma nova relação entre o homem e Deus inaugura-se, não mais o criador possessivo e ciumento, não mais o senhor dos exércitos a exigir sacrifícios, não mais o juiz severo, nem mesmo o carrasco impiedoso, mas sim o Pai amoroso e sábio. Mesmo nesta prece, proferida diante dos injustiçados do mundo ensinando-os como se dirigir ao Pai eterno, os pedidos feitos a Causa Primaria de todas as coisas são singelos. Jesus não enumera riquezas imensuráveis, nem prazeres mundanos, nem mesmo honrarias ou distinções, pede apenas o pão nosso de cada dia e o perdão de nossas dividas.

È assim que nosso hipotético extra-terrestre, nada ouvindo destas coisas, reportaria no seu planeta de origem, que visitou estranho recanto do Universo, onde seus habitantes adoram um velhinho simpático que distribui presentes e se veste com pesadas roupas de inverno, enquanto batalham furiosamente para buscar uma felicidade transitória que mal dura a abertura das embalagens.

Estranho recanto do Universo onde se canta em glória ao rei menino e se esquece que esse menino cresceu e respondendo a seus perseguidores disse que "meu reino ainda não é deste mundo".

Deus permita que a Boa Nova de Jesus de Nazaré, tão esquecida em nosso mundo, jamais se perca de todo. Que no progresso do ser e da humanidade, finalmente venhamos a compreendê-la verdadeiramente e, como crianças que deixam as ilusões da infância e descobrem que o Papai Noel não existe, um dia cheguemos a ver no Natal não o pobre peru ou a arvore repleta de presentes, mas a lembrança de que o Reino de Deus está dentro de nós e que só seremos verdadeiramente felizes ao encontrá-lo.

"Glória a Deus nas alturas,
Paz na Terra,
Boa Vontade para com os homens".

Feliz Natal,

(Publicado no Boletim GEAE Número 447 de 24 de dezembro de 2002 )