Um Estudo Comparativo Sobre a Psicografia

Jáder Sampaio

Parte II

(Continuação Boletim anterior)

Psicografia e escrita automática: a faculdade de Staiton Moses

Os espíritas de países de língua inglesa geralmente utilizam diferentemente os termos relacionados à escrita mediúnica. A palavra psicografia designa os fenômenos de escrita direta, que Kardec denominava como pneumatografia. Para os médiuns escreventes, os anglo-saxões denominam sua faculdade como escrita automática. (ERNY, 1982. p. 42)

Um dos médiuns ingleses que nos legou uma descrição do desenvolvimento da sua mediunidade foi Staiton Moses. A psicografia (no sentido kardequiano) iniciou-se em março de 1873. Inicialmente sua escrita era miúda, irregular e lenta, de tal forma que tinha que vigiar a mão para que o ditado não acabasse incoerente ou com garatujas. Como possuísse psicografia mecânica, com o passar do tempo pode prescindir destes cuidados.

No livro traduzido para o português (MOSES, 1981) ele apresenta alguns expedientes que ele adotava, como psicografar em um determinado caderno que lhe facilitaria esta atividade (tese da impregnação pela aura psíquica), que consideramos desnecessários e improváveis nos dias de hoje.

Uma de suas preocupações era de preservar o caráter sério e os objetivos de instrução e esclarecimento através de suas faculdades, o que certamente o preservou de expor-se a espíritos levianos (encarnados e desencarnados).

As primeiras comunicações obtidas por ele tinham por comunicante um espírito que se identificava como Doctor, e que tinha o papel de instrutor do médium. Posteriormente vieram outros, mas uma peculiaridade do trabalho de Staiton Moses era a presença continuada de um espírito que se identificava como Rector, que psicografava através dele com muita facilidade, e que muitas vezes trabalhava como uma espécie de secretário de outros espíritos, isto é, escrevia o que lhe diziam. Um dos espíritos que se servia de Rector é o espírito Imperator, que ditou quase todas as mensagens que compõem o livro “Ensinos Espiritualistas”.

Com o desenvolvimento de suas faculdades, Moses chegou a distrair-se intencionalmente durante as comunicações para certificar-se de que estas não provinham de si mesmo.

“De fato, as comunicações tomaram logo um caráter sobre o qual não podia eu ter dúvidas, pois que as opiniões emitidas eram contrárias ao meu modo de pensar. Distraía-me propositadamente durante o tempo em que a escrita se produzia, e cheguei a abstrair-me na leitura de um livro e a seguir um raciocínio cerrado, enquanto a minha mão escrevia com constante regularidade. As comunicações assim dadas enchiam inúmeras páginas, sem haver correção nem faltas de composição, revelando muitas vezes um estilo belo e vigoroso.” (MOSES, 1981. p. 27)

Ainda nos dias de hoje alguns autores propõem que os médiuns psicógrafos em desenvolvimento façam este tipo de exercício, psicografando ao mesmo tempo em que ocupam a mente com conteúdos diversos, como é o caso de Armond (1986).

Mecanismos da psicografia

Encontramos dois momentos nos livros do espírito André Luiz onde este se detém a tecer considerações mais detalhadas sobre a psicografia.

Em “Missionários da Luz”, no capítulo “o psicógrafo”, o autor espiritual descreve a sua percepção de uma sessão de psicografia. Um dos pontos bem destacados pelo autor espiritual é o desenvolvimento da idéia de que o médium não é um ser passivo, um mero aparelho, mas um espírito, tendo por conseqüência, participação ativa no fenômeno da psicografia. Ele se detém na preparação do ambiente e do médium, descrevendo minuciosamente as intervenções que os espíritos fazem no sistema nervoso dos intermediários entre “dois mundos”.

Posteriormente, o autor se detém na glândula pineal, descrevendo o seu papel nas comunicações mediúnicas de uma forma geral. Ela, entre outras funções, participaria no processo de “recepção e emissão das ondas peculiares à esfera espiritual”, que se intensificaria no exercício mediúnico.

Outra descrição curiosa diz respeito à atuação dos espíritos no cérebro do médium. André Luiz descreve o espírito comunicante “vasculhando” o centro da memória do psicógrafo, minutos antes da comunicação, em busca de elementos que lhe facilitem a expressão das idéias. Outra descrição curiosa diz respeito à atuação de um terceiro espírito junto às “fibras inibidoras do lobo frontal”, o que reduziria a influência do médium no fenômeno.

Uma explicação importante que este espírito desenvolve no seu trabalho, lança luzes ao mecanismo das comunicações mediúnicas em geral, e da psicografia em especial. O processo de “apossar-se do braço” do médium se dá com intermediação do cérebro do mesmo e não diretamente sobre o braço. No livro citado acima, ele registra uma “mudança de coloração da zona motora do cérebro” durante a comunicação através da psicografia, causada, portanto, em decorrência da atuação do comunicante. As áreas motoras do córtex cerebral são parte das grandes vias eferentes, ou seja, os impulsos nervosos seguem delas em direção aos órgãos efetuadores (e não o contrário), sendo responsável pelos movimentos voluntários (sistema piramidal) ou por movimentos automáticos, regulação de tônus e postura (sistema extrapiramidal). Ao leitor que desejar mais informações sobre o assunto, sugerimos a leitura de MACHADO (1983).

Em um outro livro (ANDRÉ LUIZ, 1977), o autor espiritual retoma a discussão dos mecanismos da psicografia, deixando ainda mais clara esta sua afirmação.

“Com base no magnetismo enobrecido, os instrutores desencarnados influenciam os mecanismos do cérebro para a formação de certos fenômenos, como acontece aos musicistas que tangem as cordas do piano na produção da melodia. E assim como as ondas sonoras se associam na música, as ondas mentais se conjugam na expressão. (...)

Nessa base, identificamos a psicografia, desde a estritamente mecânica até a intuitiva, a incorporação em graus diversos de inconsciência, as inspirações e premonições.” (ANDRÉ LUIZ, 1977. p. 133-134 - os grifos são nossos)

Outro autor que trata sobre o mesmo assunto é o neurologista (e espírita) Jayme Cerviño. Ele se detém na distinção entre a psicografia mecânica e a intuitiva, como se pode observar no parágrafo abaixo:

“Na psicografia e na psicofonia, os centros e as vias motoras que constituem a base material da linguagem escrita ou falada expressam, de modo automático, a mensagem, parapsíquica. Os médiuns psicógrafos ou escreventes são, desde Allan Kardec, classificados em intuitivos, “mecânicos” ou automáticos e “semi-mecânicos” ou semi-automáticos. A primeira categoria, válida para fins meramente didáticos, é criticável em termos de ciência.” (CERVIÑO, 1979. p.129)

Cerviño entende que a diferença entre os tipos de psicografia é devido à área cerebral afetada pelo espírito durante a comunicação. A intuição envolveria as regiões pré-frontais ou pólo-frontais do córtex, sem a participação dos centros verbo-motores. Já a psicografia motora relacionar-se-ia com os centros gráficos da palavra, região cortical que atuaria dissociadamente das demais, durante o transe.

Este autor entende que os psicógrafos intuitivos são criticáveis em termos de ciência, porque nas comunicações ordinárias ficar-se-ia em dúvida se o conteúdo da

mensagem é dele próprio ou de um espírito desencarnado.

Assim como outros autores, ele considera que a palavra psicografia deveria ser empregada quando é visível a participação automática dos centros e vias motoras, ou seja, no caso das psicografias mecânica e semi-mecânica de Kardec. Não consideramos tal procedimento necessário, mas concordamos que para efeito de compreensão, dada a diferença entre os fenômenos, a classificação deva ser sempre feita por completo (psicografia intuitiva, psicografia mecânica ou psicografia semi-mecânica).

As colocações de André Luiz e Cerviño vão de encontro à tese que Pastorino (1973) levanta para a explicação da psicografia mecânica ou escrita automática com um mecanismo diferente.

“Quando a ligação do espírito se faz pelo chakra umeral, atinge em cheio o plexo braquial, provocando o que chamamos de “escrita automática” ou “psicografia automática”. Neste caso, o que o espírito comunicante escreve, não passa através do cérebro do médium, que apenas empresta a mão e o braço para o exercício da grafia” (PASTORINO, 1973. p. 80)

Pastorino não deixa claro em seu ensaio de onde tira idéias como esta. Diante deste impasse, até que sejam feitos estudos esclarecedores, nossa opinião é simpática à tese de André Luiz e Cerviño. Um estudo poderia ser realizado, analisando-se os impulsos elétricos das áreas motoras de um psicógrafo mecânico, dando base empírica para a discussão deste ponto.

Algumas Questões e Conclusões

Apesar de ser uma faculdade bem difundida desde a codificação kardequiana. a psicografia ainda traz algumas questões importantes que devem ser melhor estudadas.

Haverá algum fenômeno de efeitos físicos concorrente à psicografia? Em outras palavras, se o espírito pode atuar diretamente sobre um lápis, fazendo-o mover, será possível atuar sobre a mão de uma pessoa, servindo-se do ectoplasma de algum médium de efeitos físicos? É possível que um espírito faça uma pessoa escrever sem qualquer influência psíquica? Embora a lógica nos responda que sim, não encontramos em nossa revisão bibliográfica qualquer desenvolvimento desta hipótese, seja por autores encarnados ou desencarnados. Sua aceitação implicaria na realização de uma subdivisão em classes dos fenômenos de pneumatografia e uma distinção clara entre este fenômeno e a psicografia mecânica.

Verificou-se que nem sempre há a mudança da letra do médium nos casos de psicografia mecânica. Por que isto se dá? Trata-se de uma peculiaridade deste tipo de psicografia (grau de profundidade do transe, para Cerviño) ou uma alternação entre mensagens obtidas mecanicamente e intuitivamente? Embora possamos nos perder em especulações e hipóteses, não encontramos na literatura subsídios para esta discussão.

Há médiuns dotados apenas da psicografia mecânica?

Quais os padrões elétricos e as alterações químicas do cérebro de um médium mecânico em trabalho de psicografia? Por melhores que sejam as descrições de Cerviño, ele não indica base empírica ou experimental para as suas idéias, o que nos obriga a tratá-las como hipóteses de trabalho.

Os estudos sobre a psicografia já nos ofereceram extenso material que sugere claramente a participação de espíritos tidos como “mortos” no fenômeno. No sentido oposto, em função dos mecanismos da mediunidade, mesmo os médiuns mecânicos são passíveis de influenciarem no conteúdo do material psicografado, o que demanda senso crítico e observação cuidadosa por parte dos grupos mediúnicos.

Os relatos de Moses nos ilustram o processo de desenvolvimento da mediunidade mecânica, relevando a necessidade da prática e dedicação por parte do médium, até obterem-se fenômenos com um grau de automatismo evidente. Seria extremamente enriquecedor um estudo com médiuns psicógrafos reconhecidos, onde se focalizasse o desenvolvimento das suas faculdades.

Ainda estamos no início do estudo das faculdades mediúnicas e a aceitação deste “estado da arte” talvez nos leve, mais e mais, a buscar respostas e renovar perguntas. Quem sabe assim possamos aprimorar com sensatez as numerosas atividades relacionadas à mediunidade nas casas espíritas?

Fontes Bibliográficas

(Publicado no Boletim GEAE Número 450 de 25 de fevereiro de 2003 )