Fiquemos com Deus...

Humberto Pazian

Era um belo dia de domingo, daqueles ensolarados, que prometem lazer em qualquer aventura que façamos. Ainda muito cedo, não para um dia normal de trabalho no qual a essa hora o trânsito e a agitação das pessoas já estaria evidente, mas para um domingo...

Alguns gatos, ainda acordados, passeavam calmamente pelos telhados e pelas calçadas, aproveitando um pouco mais do seu sossego.

Levantei-me bem cedo nesse dia, tinha alguns trabalhos para terminar e precisava utilizar-me de todos os espaços livres para concluí-los. Alguns documentos importantes, tinha esquecido no escritório e, com uma certa dose de mau-humor, fui até lá buscá-los.

Demorei-me pouco para recolher as anotações que necessitava e retornei até meu carro que havia estacionado em frente. Geralmente, costumo olhar em volta e precaver-me quando da aproximação de estranhos. Mas era muito cedo, domingo, e estava tão absorto que, de repente, uma frase proferida próxima à janela do meu automóvel fez-me dar um salto sobre o assento:

--- Bom dia!

Era um senhor de meia idade, asseado, de um sorriso muito franco e largo e sem constranger-se pelo tremendo susto que me dera, e sem perder a tranqüilidade com que aparecera, continuou:

--- Desculpe se o assustei! O senhor gostaria de conhecer a palavra de Deus? Ao mesmo tempo que falava, estendia o braço mostrando uma revista.

Àquela altura, qualquer coisa que ele me apresentasse, compraria!

--- Um real.

Apanhou o dinheiro, com reconhecimento, e olhando-me com uma firmeza e alegria que se fez notar, disse com um tom muito sincero:

--- Fique com Deus!

E se foi.

Fiquei parado, ainda por alguns instantes, refazendo-me do susto, mas na verdade, havia algo naquele “fique com Deus” que me forçava a refletir. Olhei pelo retrovisor do carro e fiquei observando aquele homem que se afastava a passos lentos, firmes e harmônicos. Havia uma harmonia em todo seu ser, algo transcendia sua religião, sua crença, seus conceitos.

Na verdade, havia uma sinceridade que se fazia sentir: “Fique com Deus”... quantas vezes dizemos e nos dizem essa frase. E quantas vezes a dizemos de uma forma sincera e refletida ?

O que me chamou tanto a atenção nesse homem ?

Naquela bela manhã de domingo, onde tantas pessoas ainda aproveitavam o calor do leito, e onde outros, na companhia da família, tomavam a primeira refeição; quando jovens, anestesiados pelos embalos da madrugada, retornavam a seus lares: aquele homem estava pelas ruas, com sua malinha e suas revistas desejando aos transeuntes que ficassem com Deus.

Não fez um discurso, não escreveu um livro, não tentou expor suas convicções religiosas, nem tampouco, converter-me a elas. Apenas desejou-me que ficasse com Deus.

E era sincero... percebia-se que era.

Alguns momentos, que mais me pareceram um transe, fizeram repensar meu dia. Toda a minha agitação, toda a pressa e a responsabilidade de concluir meus trabalhos, fizeram com que me esquecesse de “ficar com Deus”. Naquela manhã, um homem com sua pastinha e suas revistas, silenciosamente, estava fazendo a sua parte, sem alarde, sem recompensas visíveis. Era o momento de fazer a minha... Poucos anos se passaram e essa cena sempre volta à minha mente. Faz-me lembrar que Deus se encontra em todo aquele que O busca e O serve, com sinceridade e devoção, independente do “rótulo” ou a religião que O expresse.

Num momento, onde as nações revisam seus conceitos sobre Deus, precisamos, individualmente, fazer a nossa parte, lembrando que só podemos dar algo quando realmente já o possuímos.

Estar com Deus, embora possa parecer-nos muito simples, necessita de nossa parte: desapegos, determinação e acima de tudo, muito respeito e devoção.

Reflitamos e tentemos estar com Ele.

Paz.

09-01-2002