A fé raciocinada

José Reis Chaves

Reportamos-nos à nossa coluna em O TEMPO, de 31-3-2003, com o título de "O Batismo", tendo em vista as dúvidas que alguns leitores nos apresentaram. Nela mostramos que o Espírito Santo e a Santíssima Trindade não constam do Velho Testamento nem das primeiras comunidades cristãs, e que, só a partir dos Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381), esses dogmas começaram a ser instituídos pelos teólogos. Mostramos, outrossim, que os originais bíblicos não dizem "o" Espírito Santo, mas, "um" Espírito Santo, pois Ele é transcendente, sim, porém é imanente também, já que Ele é, igualmente, o espírito ou centelha divina que somos nós e que habitamos nossos corpos.

Algumas pessoas disseram-me que há 3 Deuses: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Veja-se que é culpa do dogma da Santíssima Trindade esse politeísmo no Cristianismo! Outra questão abordada por mim foi: Se Jesus, que é nosso modelo, não batizou ninguém com água, exigiria mesmo isso de nós? Ademais, João Batista afirmou que o batismo dele era em água, mas que o de Jesus era em Espírito e de fogo. E nós vimos que o batismo era uma espécie de selo para a conversão ("metanóia", em Grego) da pessoa. Tomaram e tomam, pois, o efeito pela causa! "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" - dum Espírito Santo, no original grego - (Mateus 28, 19). Não estaríamos diante de mais uma das interpolações dos teólogos na Bíblia? E nesse texto, o batismo vem em segundo plano, como uma conseqüência do discipulado. E lemos no Evangelho (Marcos 16,16), que quem não crer (o batismo não é citado), será condenado. Além disso, o que é ser condenado? "Quem chamar o seu irmão de bobo é digno de ser condenado". Nesta frase, constatamos que a nossa condenação é uma coisa de somenos importância. Aliás, como nos mostraram os enciclopedistas do Século 19, "eterno" ("aionios", em Grego), da expressão "condenação eterna", significa "tempo longo e indefinido", e que os teólogos, exagerando as coisas, traduziram por "tempo sem fim", para amedrontarem e manipularem as pessoas.

Ficou claro naquela matéria, e nesta, também, que não abjuramos o Espírito Santo e o batismo com água, mas que, tão-somente, somos de opinião de que, com relação a eles, há divergências entre a Bíblia e os dogmas, e que, por isso, os espíritas preferem os ensinamentos do Evangelho de Jesus a alguns desses dogmas. E não foi por acaso que o Mestre disse, com o verbo no futuro, que entenderíamos a verdade, e que ela nos libertaria, ou seja, no futuro, a nossa fé seria intelectualizada e entendida, sem dogmas misteriosos, pois que creríamos e saberíamos por que, como creio e sei que dois mais dois são quatro.

E já está chegando esse tempo de fé inteligente e entendida, de fé com sabedoria, de fé sólida, de fé raciocinada!

Autor de "A Face Oculta das Religiões" (Ed. Martin Claret), entre outras obras. E-mail: escritorchaves.@ig.com.br