A mãe do filho de Deus

José Reis Chaves

O nome do filme do padre Marcelo: “Maria, Mãe do Filho de Deus”, está provocando uma grande polêmica entre os teólogos, embora eles só falem nisso à boca pequena.

Nestório, Bispo Patriarca de Constantinopla, ensinava que Jesus Cristo tinha a pessoa humana e a divina, e que Maria era mãe só da pessoa humana de Jesus (“Cristotokos”). Essa sua tese foi condenada pelo Concílio de Éfeso (431), para o qual Jesus Cristo só tinha a pessoa divina, e que, portanto, Maria era Mãe de Deus (“Teotokos”). E a Igreja criou a oração “Santa Maria, Mãe de Deus...” Já Eutiques, um abade sábio de Constantinopla, liderava um grupo de teólogos, que ensinavam o Monofisismo, ou seja, a doutrina de que Jesus Cristo tinha uma só natureza, a divina, em detrimento, pois, da humanidade do Mestre. Essa doutrina foi condenada pelo Concílio de Calcedônia (451), que instituiu haver em Jesus Cristo duas naturezas: uma divina e outra humana Essas polêmicas desses Concílios Ecumênicos de Éfeso (431) e Calcedônia (451), que culminaram com a decretação do dogma de que “Maria é Mãe de Deus” (“Teotókos”), são conseqüências do da divinização de Jesus, proclamada pelo Concílio Ecumênico de Nicéia (325), convocado e controlado pelo Imperador Constantino.

Se, de acordo com o dogma católico, Jesus tem duas naturezas, a divina e a humana, por que Ele só tem uma pessoa, a divina? Você, leitor, tire suas próprias conclusões. Fique com o dogma, aceitando que Jesus Cristo é uma pessoa só divina, violentando a sua razão, ou fique com a lógica e o bom senso, aceitando que Ele é uma pessoa humana, de que, aliás, você tem certeza!

Para as pessoas simples, o nome do filme do padre Marcelo não tem nada de mais. Mas, para os teólogos, as frases “Maria, Mãe de Deus” e “Maria, Mãe do Filho de Deus” são muito diferentes, pois a do filme nega sutilmente a maternidade divina de Maria. Na verdade, Jesus é o Nosso Senhor, o Deus (Logos) do nosso Sistema, mas não é igual ao Nosso Senhor Deus (Theos) do Universo, o Pai, o Único ou o Brâman do Hinduísmo, que não é bem uma religião politeísta (que crê em muitos deuses), pois o Deus Único hinduísta não se confunde com os outros seus deuses secundários. O Cristianismo é que se torna politeísta, se nós cristãos insistirmos em que Jesus é outro Deus mesmo!

Para explicarem que Maria é Mãe de Deus, os teólogos criaram comparações sofísticas, as quais não resistem a uma análise mais criteriosa. E eis uma delas: A mãe de um jovem torna-se mãe de um médico, depois que esse jovem se forma em medicina. E, assim, também, Maria se tornou Mãe de Deus, depois que Cristo se encarnou como sendo Filho dela. Acontece que a mãe do jovem, que se torna médico, já era mãe dele, antes de ele ser médico. Mas Maria não era Mãe de Cristo, antes de Ele se encarnar no homem Jesus, pois espírito não pode ter mãe biológica. Ademais, Jesus nunca foi Deus mesmo. E o fato de o Cristo encarnado Nele ser da mesma substância (“Omoio Ousios”) ou natureza de Deus não importa, pois que nós, em espírito, o somos também.

A doutrina de que Maria é Mãe de Jesus, e não de Deus, é defendida pelo Espiritismo, por outras correntes cristãs, inclusive católicas, e todas as outras religiões. E ela não diminui em nada o respeito, a admiração e o amor que nós temos para com Maria e Jesus. É como disse o escritor e padre francês François Brune, representante do Vaticano para a Transcomunicação (contato com os espíritos via eletrônica): “Eu gostaria de que os católicos amassem a Jesus como os espíritas O amam.”

Parabéns, pois, ao padre Marcelo Rossi, pelo nome de seu filme!

Autor de “A Face Oculta das Religiões” (Ed. Martin Claret), e participante do programa espírita de TV, “O Mundo Espiritual”, do Geraldo Sader, Canal 24, de Belo Horizonte.

E-mail: escritorchaves@ig.com.br Telefax: (31) 3373-6870.