A misericórdia e os Espíritas

Há no Canal 23, TV a cabo, de Belo Horizonte, MG, um programa de debates bíblicos e teológicos. Mas só entre pastores protestantes e evangélicos. Para ser melhor, ele teria que ter também participantes católicos, espíritas e judeus que são também seguidores da Bíblia. A exceção é o professor de Teologia da PUC Minas, Pe- José Cândido da Silva, no momento o teólogo mais badalado da mídia da Capital, que, de quando em vez, participa dele. E são eruditos os pastores Gustavo, Jairo e Márcio Moreira. Mas muitas pessoas não estão gostando dessa “panelinha de debatedores” e do fato de eles ignorarem algumas das participações mais polêmicas de telespectadores que são feitas por telefone e fax. E é atendendo pedidos de algumas dessas pessoas, que faço esta matéria.

No último programa a que assisti, surgiu aquela questão do Apocalipse que coloca no meio dos infiéis a palavra “cão”. E ninguém do debate sabia que “cão” é um termo empregado pelos judeus e até cristãos, para designar os gentios ou pagãos. Aliás, os muçulmanos, por sua vez, denominavam os cristãos de “cães danados”, o que hoje deve estar fora de moda. Nesse programa, os pastores repetem todos os dias, como nem papagaios - lavagem cerebral? -, que os espíritas não são cristãos, porque não crêem que Jesus é Deus, e, principalmente, porque aceitando a reencarnação, negam a misericórdia divina. Mas São Paulo disse: “Deus é um só!” (Romanos 3, 30). E, se Jesus é também Deus mesmo, há mais de um Deus! E o Nazareno ensinou que se conheceriam os seus discípulos por se amarem uns aos outros como Ele os amou. Como se vê, é pela vivência do Evangelho do Mestre que nos tornamos cristãos. “A cada um será dado segundo suas obras”, e não segundo suas crenças e seus dogmas! E o espírita crê, sim, e de modo incondicional, na misericórdia divina, pois ele acredita que Deus lhe dará tantas chances ou reencarnações para a sua regeneração, quantas forem necessárias para isso. Aliás, se uma só alma fosse para o inferno medieval, que já foi descartado pela Igreja, a misericórdia divina deixaria de ser infinita. A Bíblia nos mostra também o fim desse inferno: “A morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo” (Apocalipse 20,14). “Onde está, oh inferno, a tua destruição?” (Oséias 13, 14). E já dizia, na década de 40, do século 20, o grande sábio jesuíta francês Teilhard de Chardin: “Perdoe-me, oh Deus, mas para mim ninguém vai para o inferno!”

Quem fica ainda manipulando as pessoas com a cantilena das ameaças do fantasioso inferno de Dante na sua “Divina Comédia” - o da Bíblia é metafórico -, e falando mais no aposentado e desacreditado satanás do que em Deus e Jesus, é que, na verdade, não aceita a misericórdia divina, o que jamais ocorre com os espíritas!

Autor de “A Face Oculta das Religiões” (Ed.Martin Claret), entre outros livros. E-mail: escritorchaves@ig.com.br