A primeira polêmica cristã e a humildade de Pedro

José Reis Chaves

O Cristianismo surgiu entre os Apóstolos e primeiros discípulos de Jesus como sendo uma espécie de seita judaica, pois, naquela época, em sua maioria esmagadora, quase todos os habitantes da Palestina eram judeus, inclusive o próprio Mestre dos Mestres.

Destarte, foi inevitável a sua judaização, mormente quando ele começou a ser instituído. E é sobre esse tema que dedicamos estas linhas, embora devamos reconhecer que houve também nele outras influências religiosas - como as há até hoje -, notadamente as oriundas das Culturas e Filosofias Grega, Zoroastrista e Maniqueísta.

Dos grandes líderes dos primórdios do Cristianismo, destacam-se Pedro e Paulo. Este, mais afoito, já que era dotado de uma inteligência de gênio, assimilou mais de pronto e mais a fundo a Mensagem Evangélica de Jesus, enquanto que aquele, um simples pescador, além de ser muito humilde - não tanto de recursos materiais, mas, de virtude -, parece ter sido tomado de uma certa dificuldade para se libertar, totalmente e de imediato, das Leis Mosaicas.

Assim é que, por ser a prática ritualística da Circuncisão uma das características fundamentais do Judaísmo - e ainda hoje o é - , não deu outra na conversão dos judeus ao ainda mal estruturado e frágil Cristianismo: uma grande parte dos judeus recém-convertidos a ele, por estar ainda muito apegada às tradições da Lei Antiga, entendeu e passou a ensinar que quem não era judeu e, portanto, não circuncidado, deveria submeter-se, primeiro, a esse importante ritual judeu, como sendo uma espécie de um tirocínio, antes de se converter ao Cristianismo.

Havia, pois, dois blocos de cristãos: o dos apegados à exigência incondicional da Circuncisão, e o dos que a consideravam dispensável à conversão ao Cristianismo. E essa polêmica passou a atingir, principalmente, os gentios (povos pagãos, ou não judeus), que não eram, pois, circuncidados, tornando-se um problema sério para esses povos abraçarem a Nova Doutrina, já que simpatizavam com ela, mas não aceitavam a Circuncisão.

E esse problema passou a ser sentido bem de perto por Paulo, o Apóstolo dos Gentios, porquanto era ele o líder cristão dos pagãos, isto é, daqueles povos de nações distantes da Palestina, o que vale dizer daqueles povos completamente desligados da influência dos costumes judaicos, entre eles, o da Circuncisão.

E Paulo não teve dúvidas. Apesar de ter até circuncidado Timóteo – o que fez para não escandalizar judeus gregos, segundo ele mesmo no-lo afirma -, passou quase a desmoralizar a Circuncisão, a qual para ele era simplesmente uma mudança exterior, material, enquanto que os cristãos deveriam primar por uma mudança interior, do Eu Espiritual.

E tanto Paulo criticava a Circuncisão, como criticava os seus adeptos. E, talvez, tenha-lhe faltado até um pouco de humildade, o que, conforme à nossa menção acima, era uma virtude especial de Pedro.

E o certo é que São Paulo, de tanto esbravejar, assim, contra a Circuncisão, e de tanto mostrar a sua inutilidade, ao mesmo tempo em que criticava seus defensores, acabou mostrando-nos que São Pedro liderava o bloco oposto a ele, ou seja, o dos circuncisos, sendo o pregador do Evangelho para eles, enquanto que ele, Paulo, o era dos incircuncisos Isso, que estamos afirmando, consta de Gálatas 2:7. É, pois, o próprio Paulo que nos fala desses dois blocos e dessas duas lideranças, exercidas na pregação do Evangelho, por ele e por Pedro, aos seus respectivos subordinados, isto é, os incircuncisos e os circuncisos.

E, quando destacamos a virtude da humildade de Pedro, temos um motivo para isso, pois tudo o que sabemos sobre essa polêmica envolvendo os cristãos daquele tempo, afeiçoados da Circuncisão e os que passaram a renegá-la, chegou-nos através da fala paulina encontrada em suas Epístolas e em Lucas, em Atos, já que o humilde Pedro não nos deixou registrada uma palavra, sequer, a favor da Circuncisão e dos seus correligionários, ou contra a Incircuncisão e os seus defensores liderados por Paulo. Mas este, como vimos, não poupou críticas a seus adversários.

Esse assunto sempre causou um certo mal-estar nos teólogos cristãos, que, geralmente, evitam fazer abordagem dele, pois ele nos mostra a fragilidade dos próprios dois grandes Apóstolos de Jesus, e que, no entanto, escreveram partes das mais importantes da Bíblia, ou mais precisamente, do Novo Testamento, fato esse que traz certas dúvidas para o cristão.

O Concílio de Jerusalém, em 49, teve por objetivo principal resolver essa polêmica. E, quando todos esperavam que Pedro, ao tomar a palavra, fizesse uma veemente condenação do bloco dos incircuncisos, nem aí a sua humildade deixou de vir novamente à tona, pois não mencionou uma só palavra sobre esse assunto. E esse seu virtuoso e respeitado silêncio serenou os ânimos.

Daí em diante, é verdade que ainda houve entreveros entre os dois blocos adversários, mas, aos poucos, prevaleceu o ponto de vista Paulino, graças à humildade de Pedro, sem a qual o Cristianismo ter-se-ia rachado ao meio, antes mesmo de acabar de ser instituído!

José Reis Chaves, escritor, palestrante, radialista e professor de Português e Literatura, formado na PUC-Minas. E-mail: escritorchaves@ig.com.br