Até o último centavo

José Reis Chaves

A palavra salvação, de acordo com sua etimologia, significa “ação salva”. Numa linguagem oriental, poderíamos dizer “carma salvo”, no sentido de que alguém na sua vida fez mais ações boas do que más. Quem fizer o contrário, condena-se a si mesmo. Pela lei da Física, a toda ação corresponde uma reação de igual potência e reversibilidade. Moralmente, também, é assim, pois as leis cósmicas são inexoráveis, não falhando jamais.

Cosmos significa harmonia, beleza. Daí cosmético, cuja finalidade é embelezar a mulher. Assim, quem produz uma desarmonia, atrai uma desarmonia igual para si, não se tratando, porém, de castigo de Deus, e sim, do funcionamento disciplinar das suas leis morais, cujo objetivo é purificar-nos. Por isso o vocábulo castigo tem até a mesma raiz de castidade, ou seja, aquilo que purifica. Mas os nossos carmas podem ser também positivos, isto é, recompensas pelo bem praticado por nós.

E essas coisas merecem todo nosso respeito, pois constam da Bíblia e de todas as outras escrituras sagradas da humanidade. Quem não conhece as frases do nosso Mestre Nazareno e de São Paulo, respectivamente, “Com a mesma medida com que medirdes, vós sereis medidos” e “Colhemos o que tivermos plantado” ?

Temos muito respeito para com o Sangue de Jesus derramado na Cruz do Gólgota, e cremos mesmo que Ele o derramou por amor à humanidade. Mas não cremos, como tanto se ouve falar, que é o Sangue Dele que nos salva.

Existem dois princípios filosófico-doutrinários chamados auto-salvação e alo-salvação. O primeiro afirma que a salvação vem de nós, ou depende de nós mesmos. Já o segundo sustenta que a salvação vem de fora de nós, ou de outro ser diferente de nós, no caso, de Jesus, e mais especificamente, do seu Sangue derramado.

Não cremos que Deus seja igual a uma entidade sanguinária de baixo astral, e tenha exigido outro pecado, ou seja, o do derramamento do sangue de seu Filho todo especial, como sendo a única condição para fazer as pazes conosco. Ao nosso ver, Jesus veio ao mundo para trazer-nos a sua mensagem evangélica. E é a prática dessa mensagem que nos salva. Não fora assim, Ele não no-la teria trazido. Ademais, se fosse o seu sangue derramado mesmo que nos salvasse, teríamos até que agradecer aos seus carrascos, e mesmo aplaudi-los pelo seu monstruoso crime, sine qua non, segundo um ensinamento, não teríamos a salvação!

Santo Agostinho, num solilóquio com Deus, deste ouviu a advertência: “Agostinho, eu te criei sem ti, mas não posso te salvar sem ti”. De fato, a salvação depende do nosso livre-arbítrio, do que é um exemplo, também, a Parábola do Filho Pródigo.

E foi o nosso Maior Mestre que disse: “Ninguém deixará de pagar até o último centavo”, o que nos confirma que somos nós mesmos que nos resgatamos, e também, que a justiça divina é perfeita.

Mas nos fica ainda dessa afirmação do Nazareno a certeza de que, ao quitarmos o último centavo, nós estaremos quites, não nos restando mais nada a pagarmos, o que derruba a tese das penas eternas!

Autor do livro, entre outros, “A Face Oculta das Religiões”, Ed. Martin Claret. E-mail: escrfitorchaves@ig.com.br