Comunhão dos Santos

José Reis Chaves

Com a doutrina da Comunhão dos Santos, a Igreja se divide em três Igrejas que se comunicam entre si, e se ajudam mutuamente: a Militante, isto é, a da Terra, a Padecente, ou do Purgatório, e a Triunfante, a dos espíritos já gloriosos nos céus. Estão fora delas os espíritos impuros ou condenados. Mas, na verdade, eles também se comunicam conosco, podem ser ajudados por nós, e serão salvos, um dia. É a doutrina da “Apocatástase” (regeneração) de Orígenes (Mateus 19, 28, e Atos 3,21), a qual sempre foi defendida pela Igreja Ortodoxa Oriental, o Espiritismo, e agora, também, pela própria Igreja. Aliás, se Deus quer que todos se salvem, o que poderá contra a sua vontade? E o inferno será mesmo extinto, um dia: “Onde está, ó inferno, a tua destruição?” (Oséias 13, 14). “Então a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo” (Apocalipse 20, 14).

Os espíritos de luz, ou seja, os santos, podem trazer conhecimentos para nós, como o afirma Santo Agostinho em seu livro “De Cura Pro Mortuis” (“Tratado dos Mortos”). E esse grande vulto da Patrística no-lo comprova com seus próprios contatos com Santa Mônica, sua mãe, já falecida. Mas, os do Purgatório, podem ajudar-nos também. O católico recorre às almas dele. Já os condenados, como vimos, podem ser ajudados por nós. É o que o Espiritismo faz, instruindo-os.

Kardec, “o bom senso encarnado”, defende também o Purgatório, pois há espíritos bons, maus e muitos mais ou menos, todos pertencentes às várias moradas do Pai (céus, purgatório e inferno), as quais não são locais geográficos, como ainda pensa a maioria de nossos irmãos evangélicos, e sim, estados de consciências e vibrações. Desse erro a Igreja já se libertou. E os protestantes (não os evangélicos) viam no passado, com desdém, a idéia do Purgatório, e apegavam-se, com rigor, à do inferno. Mas hoje, defendem a existência do Purgatório, negando a do inferno, tendo eles, pois, atualmente, uma idéia de um Deus mais amorável! E nisso estão de acordo com a Igreja da atualidade, que ensina que todos seremos salvos. Só que ela está exagerando as coisas, afirmando que nós nos salvaremos, não por nossos méritos, mas só pela misericórdia de Deus (doutrina paulina), quando Jesus disse: “A cada um será dado segundo suas obras” e “Ninguém deixará de pagar até o último centavo.”

Com efeito, se Jesus afirmou: “Vós sois cá debaixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou” (João 8, 23), se somos, pois, terráqueos, se os espíritos já criaram afinidades com a Terra, se pecaram na carne, e se o Cristianismo Primitivo aceitava a reencarnação, por que, então, o Purgatório, que é também após uma vida passada, não poderia ser uma reencarnação de expiação aqui na Terra? Esse revezamento por parte dos espíritos não tornaria mais real a Comunhão dos Santos?

Autor do livro “Quando Chega a Verdade” (Ed.Martin Claret), entre outros. E-mail: josereischaves@cartadenoticias.com