Cristãos ateus?

Reportamos-nos à nossa coluna: “Polêmicas Dogmáticas”, publicada em “O TEMPO”, em 3-3-2003, objeto de comentários na seção “Dos Leitores”, de 15-3-2003, por parte do jornalista Paulo Narciso, de Montes Claros, e do escritor Jethro Mourão da Cunha, de Belo Horizonte. A ambos os meus agradecimentos.

Já disse alguém: “Uma sociedade humana sem conflito não seria uma sociedade de amigos, mas de formigas”. É através das opiniões diferentes que surge a verdade. E a citada coluna nossa trata justamente de polêmicas teológicas entre teólogos do próprio clero católico, assunto com o que não parece simpatizar muito o Sr Jethro. Mas essas polêmicas estão por aí dentro da Igreja. Em 27-1-2003, o Cardeal Ratzinger, da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Tribunal do Santo Ofício), excomungou 7 mulheres, que foram ordenadas sacerdotisas na Áustria, por um bispo argentino (“A Flama Espírita” No 2.744, de Uberaba, MG). Sempre houve heresias, inclusive na época da Inquisição. E hoje há mais católicos hereges do que os não hereges, só que poucos têm coragem de o dizer. Ademais, muitos nem sabem que são hereges, entre eles padres, bispos, cardeais e até papas, pois, com o tempo, se esquecem dos estranhos dogmas que estudaram!

Para o Sr. Jethro, digo que a teologia estuda Deus numa visão unilateral de determinada religião. Já a Teosofia estuda Deus com uma visão unilateral, isto é, sob um prisma geral de todas as religiões, e sem sectarismo, o que nos parece mais racional do que as idéias forçadas dogmáticas sobre Deus. Allan Kardec, talvez, nos tenha deixado a melhor definição de Deus, recebida de um espírito iluminado: “Deus é a Inteligência Suprema, a Causa Primeira de todas as coisas.” Uma outra idéia falsa e traumática dos teólogos é a da morte, quando ela pode ser até uma libertação definitiva de nossas reencarnações expiatórias, depois que se pagar até o último centavo. E assim, aproveito o ensejo para parabenizar o deputado federal Vittorio Medioli, pela sua matéria publicada no PAMPULHA, de 8.3 a 14.3.2003: “A morte atraente”, que nos dá uma idéia otimista e consoladora da morte, como já o era na Mitologia Grega. A Igreja, porém, apesar de seus erros - a verdade deve ser dita -, fez chegar até nós a grande mensagem de amor do Nazareno. Mas assim como só com a democracia uma nação pode se tornar grandiosa, assim também, só com os princípios religiosos racionais e convincentes, uma religião pode transformar-se em instrumento da nossa evolução moral e espiritual.

Enquanto, pois, o Cristianismo não se desvencilhar de suas idéias teológicas anti-racionais, os cristãos continuarão com suas polêmicas e divisões sem fim, sendo a frieza e a indiferença para com a fé cristã a sua companheira de sempre, e, o que é pior, como vem acontecendo, há séculos no Ocidente, com o risco de muitos deles se tornarem ateus! Autor de “A Face Oculta das Religiões” (Ed.Martin Claret), entre outros livros. E-mail: escritorchaves@ig.com.br