Ecumenismo

José Reis Chaves

Sem querer polemizar, e com o devido respeito ao ilustre articulista, Dr. Evaldo D’Assumpção, autor da matéria do Jornal de Opinião Nº 654, intitulada “Espiritismo e Cristianismo – Entendendo as Diferenças”, vamos tecer – data vênia – alguns comentários sobre a mencionada matéria do citado autor.

Não é nossa intenção aqui fazer uma apologia do Espiritismo, é óbvio, mas há que se considerar que a Igreja é uma instituição viva – e como está viva, graças a Deus! -, e por isso vem sempre evoluindo e atualizando-se.

Assim, se ela condena o Espiritismo hoje, por certo não é com aquela mesma linguagem de décadas atrás, quando ainda não se sabia bem o que vinha a ser de fato o Espiritismo.

Há diferenças, sim, entre o Espiritismo e o Cristianismo - a chamada Doutrina de Kardec prende-se mais ao Cristianismo Primitivo, anterior à instituição da maioria dos Dogmas Conciliares -, como as há também entre as várias Igrejas Cristãs e até entre os próprios católicos, pois há entre nós, hoje, uma pluralidade de idéias, fruto duma liberdade de pensar reinante, atualmente, na Igreja pós-Concílio Vaticano II. E, convém registrar aqui, que os espíritas não discriminam os adeptos de nenhuma religião, amando-os todos, principalmente os católicos E amam também os santos e, de modo especial, Maria Santíssima. As últimas palavras de Bezerra de Menezes, o Médico dos Pobres, falecido em 1900, foi uma belíssima oração à Mãe de Jesus.

De fato, citar o Evangelho de Jesus não dá a nenhuma religião um selo de garantia de que ela seja cristã, pois foi o próprio Jesus que disse que se conheceriam seus discípulos pelo que eles fizerem, isto é, pela prática da caridade, prática esta estribada no “Novo Mandamento” Dele: “Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. É a caridade e o amor autêntico ao próximo que mais devem pesar na vida do verdadeiro cristão. Sacramentos, devoções e preces órfãos daquelas principais virtudes do “Novo Mandamento” são destituídos de valor perante Deus. Jesus no-lo ensinou, ao dizer-nos:

“Se você estiver no altar fazendo oferendas a Deus, e se lembrar de que não está bem com alguém, primeiro vá reconciliar-se com ele, depois você venha continuar a sua oferenda, o que quer dizer que esta é menos importante do que o estar bem com o nosso próximo. Mas é óbvio que a freqüência aos Sacramentos e Rituais da Igreja podem ajudar-nos a aproximarmo-nos daquelas virtudes-chaves do ensinamento de Jesus, desde que sejamos realmente sinceros naquelas práticas religiosas da Igreja, as quais,assim, forçosamente nos levarão a sermos verdadeiros discípulos do nosso Grande Mestre Jesus.

A conhecida frase do solilóquio de Santo Agostinho com Deus, em que Este lhe disse: “Eu te criei sem ti, mas não posso salvar-te sem ti” – empregada impropriamente por aquele nobre articulista, porque justamente ele estava querendo ressaltar no contexto a Redenção de Jesus -, mostra-nos o contrário do seu raciocínio de uma Redenção exclusiva de Jesus, porquanto a nossa salvação depende também do nosso querer, de uma espécie de auto-redenção nossa no pensamento agostiniano.

O Cristianismo nos ensina a amarmos a Deus e ao próximo. O amor a Deus é fácil. Mas é difícil o amor ao próximo. Acontece que aquele não existe sem este.

Deixando de lado as questões teológicas, pois ser teólogo não significa ser discípulo autêntico de Jesus, e muito menos, santo, e mesmo porque a Teologia de hoje pode ser superada pela Teologia de amanhã, como a de hoje supera a de ontem, pergunto àquele ilustre autor, cuja matéria estamos comentando, se os espíritas não estariam dando para nós um exemplo do Bom Samaritano, ou seja, de autênticos discípulos de Jesus, embora, teologicamente, não estejamos na mesma freqüência? Que seria, pois, mais importante para nós, estarmos identificados com uma Teologia do Evangelho ou com a vivência do Evangelho? Não se ama Jesus sendo desta ou daquela Teologia, mas sendo verdadeiro seguidor do seu Evangelho. O sábio Pe- francês, representante do Vaticano para Transcomunicação, François Brune, disse: “Gostaria de que os católicos amassem a Jesus como O amam os espíritas”. E não seria por isso que ficamos,às vezes, admirados com os exemplos da prática da caridade que nos dão eles?

Também o Bom Samaritano era um judeu herege, além de ser um pária da sociedade. E, no entanto, como vimos acima, foi citado por Jesus como o que cumpria o Maior dos Mandamentos da religião da época, o Judaísmo, em detrimento dos teólogos: um levita e um sacerdote.

Polêmicas teológicas sempre houve, e nem os próprios Apóstolos escaparam delas. E São Paulo chegou até a dizer que as heresias são necessárias – o próprio Jesus era um herege do Judaísmo, por isso os sacerdotes eram inimigos figadais Dele, e acabaram tramando a sua morte na Cruz . E é ainda São Paulo que nos ensina também que podemos ter uma fé que até remova montanhas, a qual,porém, de nada valerá, se não tivermos caridade.

A Igreja tem evoluído muito. Por isso tem sido prudente em criticar – referimo-nos às autoridades eclesiásticas - nossos irmãos espíritas e demais adeptos de outras religiões, cônscia que está hoje, lamentando um passado nebuloso, de que o verdadeiro ecumenismo parte do princípio de, primeiramente, termos em mente o princípio da “consciência de alteridade”, ou seja, de respeito ao pensamento do outro.

José Reis Chaves, escritor, professor de Português e Literatura, formado na PUC-Minas.