Fé cega

O Dr. Evaldo D’Assumpção, cujas matérias em “O Tempo” aprecio muito, pensa que eu sou contra a Igreja. Mas na verdade, tenho até admiração por ela. Apenas sou contra a fé cega.

A respeito do seu artigo: “O Corpo e o Espírito” sobre o meu “Kardec e Darwin”, Santo Tomás de Aquino não afirma que “não existe corpo sem espírito, e nem espírito sem corpo”, mas sim: “as coisas espirituais contêm as coisas em que estão, como a alma contém o corpo” (Sum. Theol.. I, q, 8, art. 1, ad. 2 um). Já a propalada unidade entre espírito e corpo existe somente enquanto o espírito está encarnado. E eis a grande diferença entre os dois: enquanto o corpo volta para a terra, o espírito volta para Deus (Eclesiastes 12, 7).

E concordo com o Dr. Evaldo no tocante às referências que fez sobre “O Tempo”. De fato é muito importante a filosofia do deputado federal Vittorio Medioli sobre a liberdade de expressão em “O Tempo”. Realmente, nesse mais cultural órgão da imprensa mineira, todos têm vez para expressarem suas opiniões filosóficas, religiosas, políticas e esportivas. Com minha coluna, sei que sou uma gota d’água num oceano diante da Igreja. Mas há muitos padres e bispos que gostariam de falar o que eu e outras pessoas leigas falamos. Eles têm votos de obediência às autoridades hierarquicamente superiores a eles. E, se falassem certas coisas, teriam problemas com essas autoridades e com seus próprios subordinados.

São Paulo afirma que as heresias são necessárias (1 Coríntios 11,19). Shakespeare escreveu: “O herege não é aquele que morre na fogueira, mas aquele que acende uma fogueira!” E poucos sabem do que aconteceu nos concílios de Nicéia (325), Constantinopla (381), Calcedônia (451), Tolosa (1229), Constança (1414-1417) e Basiléia (1431-1449).E peca-se também por omissão. O Papa Inocêncio III disse: “Tudo o que é contra a consciência leva ao inferno.” Santo Tomás de Aquino afirmou: “A fé não pode violentar a razão”. E Kardec, “o bom senso encarnado”, escreveu: “A fé só é inabalável, quando puder enfrentar a razão, face a face, em qualquer época da História da humanidade.” Com a evolução da humanidade, já vai longe a época em que se diziam coisas do tipo: “este ferro é de pau”, e todos engoliam!. E, realmente, o Espiritismo vem sendo o Cristianismo Primitivo. Nota-se também que a Igreja, discreta e reservadamente, segue suas pegadas. E enquanto isso, felizmente, vão sendo esquecidos o Silabo, o “Index”, as Decretais, a proibição do casamento civil, as Anatas, as Prebendas dos Canonicatos, as Concordatas e outras medidas do Direito Canônico que, no passado, criaram o terror entre nações, entre papas e cardeais, entre bispos e cardeais, entre padres e bispos e entre papas e concílios.

Como, pois, ter conhecimento dessas coisas próprias de uma fé cega, e das quais até agora há resquícios por aí afora, e ficarmos em silêncio, como se a Inquisição ainda existisse?

Autor de “A Face Oculta das Religiões” (Ed.Martin Claret), entre outros livros. E-mail: escritorchaves@ig.com.br