Fé e justificação

José Reis Chaves

Fé (do Grego “pistia”, e do Latim “fides”) significa ter crença em alguma coisa. Mas tem também a conotação de fidelidade. E é nesse sentido de fidelidade a Deus e a Cristo, que nós deveríamos entendê-la.

Já a justificação, para seus adeptos, quer dizer que o homem passou de seu estado de pecado para o da graça, e, conseqüentemente, se tornou merecedor da salvação, através do sangue derramado de Jesus na cruz.

Lutero e Calvino são os expoentes dos exageros da importância da fé (crença) e da justificação. O frade Pelágio, do século 5, é contrário a ela. Não aceita o pecado original, e ensina que a nossa salvação depende de nosso livre-arbítrio. A Igreja está mais para Pelágio do que para Lutero e Calvino. Aliás, o Concilio de Trento condenou a afirmação de Lutero de que “a fé só por si justifica”. De fato, ela é frontalmente contrária à Bíblia: “A fé sem obras é morta.” (Tiago 2,16). “A cada um será dado segundo suas obras” (1 Pedro 1,17). “Se eu tiver a fé, até o ponto de transportar montes, e não tiver caridade, nada sou.” (1 Coríntios 13, 2).

Teólogos, com “diplomas comprados no Paraguai”, explicam essas passagens, sem, no entanto, convencerem seus fiéis mais inteligentes e que raciocinam. Segundo esses “professores de teologia”, a fé verdadeira implica boas obras. Isso até está de acordo com a fé no sentido de fidelidade. Mas é só por seu livre-arbítrio que o indivíduo pode ter essa fidelidade a Deus e a Cristo. E disso se infere, pois, que agora a salvação só depende de nós ou da nossa vontade. O Pai é o doador infinito de graças para todos nós, que somos receptores finitos. E nós só recebemos na medida em que quisermos receber. O que cabe a Deus e a Jesus fazerem, já foi feito do melhor modo possível. Agora é a nossa vez. É como no caso do Sol. Ele só entra em nossas casas, com a condição de abrirmos as portas e as janelas. Jesus é, sim, o salvador do mundo, porém não tanto pelo seu sangue derramado, que respeitamos, mas pelo seu Evangelho, que, entretanto, enquanto não for vivenciado por nós, continuaremos excluídos da salvação ou da difícil passagem pela Porta Estreita, passagem essa a ser feita por nós, e não por Deus e Jesus. Santo Agostinho deixa isso muito claro num solilóquio dele com Deus: “Agostinho, eu te criei sem ti, mas não posso te salvar sem ti !”

E perguntamos aos afeiçoados da fé (crença) e da justificação: Será que Deus mesmo condicionaria seu perdão aos pecados da humanidade à exigência da prática de mais outro pecado, ou seja, a morte cruel de seu Filho inocente na cruz? Poderia um juiz absolver alguém de um crime, com a exigência de que se praticasse outro crime? Mas os teólogos atribuíram a Deus esse absurdo, como se Ele fosse um espírito de trevas do tipo que não se contenta apenas com sacrifícios de animais, mas que só se deleita e se acalma com o sangue humano derramado!

Que pesadelo para quem crê num Deus assim tão estranho!

Autor de “A Face Oculta das Religiões” (Ed. Martin Claret), entre outros livros. E-mail: escritorchaves@ig.com.br