O nosso ego e a copa

José Reis Chaves

De acordo com a Filosofia Oriental e várias correntes filosófico-religiosas do Ocidente, entre elas o Espiritismo, nós somos, em essência, espíritos imortais em busca da nossa perfeição espiritual e moral. Essa tese tem o respaldo do Evangelho do Nazareno e da Psicologia Transpessoal Junguiana, que distingue do nosso ego ou pessoa o nosso Eu Superior, denominado por Jung de self.

A etimologia de pessoa é persona em Latim, que quer dizer máscara, ou seja, o que encobre o nosso Eu Interior invisível, mas verdadeiro. São Paulo nos ensina que as coisas invisíveis são eternas, enquanto que as visíveis são transitórias, e, portanto, secundárias, o que se coaduna hoje, também, com o pensamento da Física Quântica.

Temos uma tendência inata para a busca egoísta e desenfreada dos prazeres hedonistas de Epicuro, e para a fuga das virtudes estóicas de Zenão, de Cício. Geralmente ninguém quer trabalhar sem salário. Todos buscam recompensa pelo que fazem. E até no desejo de ganharmos o céu, por paradoxal que seja, o nosso ego está presente. É por causa dele, também, que dirigentes e adeptos de determinadas correntes religiosas julgam, equivocadamente, que só pertencendo às suas religiões as pessoas podem ser salvas, erro este que a Igreja de hoje não comete mais. E isso nos traz à memória as advertências do Mestre: “Renuncie-se a si mesmo, se quiser ser meu discípulo” e “Quem condena, será condenado”. Por isso, jamais nos devemos deixar dominar por esse nosso anticristo interno.

Santa Teresa D’Ávila nos dá um exemplo de domínio total dele, num solilóquio com Deus: “Ó Deus, se eu oro, jejuo e dou esmolas, porque quero ganhar o céu, não me deixe entrar lá nunca. E, se eu faço todas essas coisas, porque tenho medo do inferno, lance-me lá agora!” Santo Agostinho disse: “O pecado é o amor a si mesmo”. E no Bhagavad Gîtâ, Arjuna simboliza o nosso ego, sendo ele o maior inimigo de nosso Eu Interior ou Cristo Interno, representado por Krisna. Mas ele deve ser disciplinado e não destruído pelo Eu Interior. É que, sem ele, a nossa vida perderia também o sentido, pois ele é mais ou menos para nós o que é o instinto de conservação da espécie para os animais irracionais.

No passado longínquo, o homem ainda pouco evoluído, e, conseqüentemente, mais escravo do seu ego, brigava e matava pelos motivos mais fúteis. Mas hoje, podemos dizer que é nas disputas esportivas que os arquétipos desses fatos em nosso inconsciente coletivo encontram as suas válvulas de escape.

E a Copa do Mundo é um exemplo disso, pois jogadores e torcedores tentamos satisfazer ao nosso ego, sim, mas com amor e respeito fraternais, sem estarmos nos prejudicando mutuamente uns aos outros.

Autor do livro, entre outros, “A Face Oculta das Religiões”, Ed. Martin Claret. E-mail: escritorchaves@ig.com.br