Polêmicas dogmáticas

Recentemente o jornal “O Domingo”, um semanário litúrgico distribuído nas missas de quase todas as igrejas do Brasil, num total de uns vinte milhões de exemplares, criou uma polêmica dogmática, por ter usado a expressão herética: “Jesus é uma pessoa humana”.

O teólogo Pe- José Cândido da Silva condenou veementemente esse jornal, em seu programa na Rádio América, da Arquidiocese de Belo Horizonte. MG, “Questões de Fé”, pois recebeu desse informativo católico uma resposta negativa à critica que fez sobre o assunto.

Essas polêmicas não têm fim. E começaram no dia em que o conturbado e polêmico Concílio de Nicéia (325) decretou que Jesus era Deus, quando Deus é um só, o Pai. “Subo para meu Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20,17).. De lá para cá, nunca mais houve paz no Cristianismo.

Já o Papa Libério (352-366) foi acusado de arianismo, a mais poderosa heresia de todos os tempos. Não aceita a divindade de Jesus, e tem como seu expoente máximo Ário, um gênio em teologia. E o Papa Honório foi condenado pelo Concílio Ecumênico de Constantinopla (681) e pelo Papa São Leão II (682-684), por ter-se envolvido com o monoteísmo. Essa heresia bizantina ensinava que Jesus Cristo só tem uma vontade (uma única operação teândrica), quando a ortodoxia defendia para Ele duas vontades..

O ariano Nestório ensinava que havia duas pessoas para Jesus, uma divina e outra humana. E, por conseqüência, a doutrina do “Cristotókos”, isto é, de que Maria é Mãe da pessoa humana de Cristo, e não de Deus. Mas o Concílio de Éfeso (431) promulgou o dogma de que Jesus tinha uma só pessoa, ou seja, a Pessoa Divina, e, conseqüentemente, do princípio de “Theotókos”, ou seja, de que Maria é Mãe de Deus. Daí a Igreja ter acrescentado a “Santa Maria” à “Ave Maria”.

Veio a vez de Eutiques que concluiu que, se Jesus só tinha a Pessoa Divina, deveria ter, igualmente, uma só natureza, a natureza divina. Porém, o Concílio de Calcedônia (451) determinou que em Jesus Cristo havia duas naturezas, a divina e a humana. Mas como Jesus ter natureza humana, se, segundo o Concílio de Éfeso, Ele não tem pessoa humana? E todo o mundo sabe que Jesus foi um ser humano, sendo ou tendo, portanto, uma pessoa humana!

Crer ou não crer nos dogmas para nada nos aproveita, não nos ajudando em nada em nossa caminhada em busca da perfeição. “Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai Celestial” (Mateus 5, 48). Faltam-nos humildade e desapego para reconhecermos essas coisas, e reconhecermos, sobretudo, a necessidade das reformas que o Cristianismo exige!

E a verdade é que a mensagem de amor, de justiça e de paz do Evangelho do Cristo sobrepuja as polêmicas dogmáticas e os próprios dogmas!

Autor de “A Face Oculta das Religiões” (adotado para trabalho pela USP), Ed. Martin Claret, entre outros livros. E-mail: escritorchaves@ig.com.br