Ressurreição da carne ou do espírito?

Ressurreição e reencarnação seriam a mesma coisa? Veremos que, no conceito tradicional do Cristianismo, às vezes é, e, às vezes, não é. É comum ouvirmos de padres e pastores que a Bíblia fala em ressurreição, e jamais em reencarnação, e que esta nega aquela, o que é um equívoco. O Nazareno nos recomendou que examinássemos as Escrituras, o que quer dizer que as devemos estudar a fundo, de modo racional e sem viseiras, deixando de lado certos princípios de exegese e de hermenêutica, que, às vezes, não passam de distorções de textos bíblicos, com o objetivo de adaptá-los às teologias dos dogmas que foram sendo instituídos ao longo dos tempos.

Com efeito, sem falar nos cabalistas, que sempre defenderam a reencarnação, os judeus acreditavam nessa doutrina, chamada de ressurreição na Bíblia. Só que eles não entendiam bem o assunto. E não sabiam o que, de fato, ressuscitava, se o corpo, a alma, o espírito ou todos juntos. Vejamos um exemplo de que para eles ressurreição era realmente reencarnação, e que está em Mateus 16, 13 e 14: “... Quem diz o povo ser o Filho do homem? E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Jeremias, ou algum dos profetas”. Vamos examinar só o caso da hipótese de Jeremias, dizendo, antes, que não aceitamos essa hipótese, mas apenas a apresentamos, para comprovar que ressurreição para eles era reencarnação. Assim, se Jesus lhes poderia ser Jeremias, é óbvio que se trataria do retorno à vida terrena do espírito de Jeremias no corpo de Jesus, pois o de Jeremias era pó no cemitério em que fora enterrado, cerca de 600 anos antes de Cristo.

Geração na Bíblia significa também, em muitos textos, reencarnação ou geração do espírito. Por isso Jó (8, 9), falando justamente de gerações passadas, afirma: “Porque nós somos de ontem, e nada sabemos”. Esse ontem não é o tempo de 24 horas, antes, mas é um tempo longínquo de gerações (reencarnações) passadas.

São Paulo, em 1 Coríntios 15, 44, falando sobre a ressurreição, afirma que temos dois corpos, sendo um da natureza e outro espiritual, e que ressuscita o espiritual. Noutra parte, ele ensina que carne e sangue não podem herdar o reino dos céus. Jesus também disse que os ressuscitados são como anjos, e anjo, antes de mais nada, é espírito. Mas, em 1 Coríntios 15,39, São Paulo ensina que as carnes dos peixes, das aves, animais e do homem não podem se misturar, o que nos parece ser uma advertência contra os gregos que, naquela época, admitiam a metempsicose (retorno do espírito, também, em corpos de animais), Aqui , pois, ele fala em ressurreição de carne, em contradição ao que dele nos referimos acima. Assim, fica claro que ele admite dois tipos de ressurreição: do espírito fora da carne, ou seja, no mundo espiritual, e na carne (reencarnação), mas só em corpo humano. Se não aceitarmos essas explicações paulinas do modo como estamos interpretando, temos que admitir que São Paulo se contradiz nos dois textos citados.

Na verdade, na Bíblia há três tipos de ressurreição, que são sempre do espírito, o qual ressurge no mundo espiritual, quando desencarna, na carne, quando da reencarnação, e, em definitivo, no mundo espiritual, no final dos tempos, quando, compulsoriamente, não deverá voltar mais à Terra. Isso está de acordo com outro pensamento Paulino que, disse que o salário do pecado é a morte. Ora, só nos livraremos da morte, libertando-nos dos renascimentos na carne. Realmente, só reencarna quem ainda não se libertou do pecado, pois, reencarnou, “ipso facto”, tem que morre!

Resgatados os seus pecados, o indivíduo estará quite, deixando de ressuscitar na carne, para ressuscitar livre de qualquer pena no mundo espiritual. E Jesus nos deixou também um ensinamento que confirma isso: “Ninguém deixará de pagar até ao último centavo.” Isso quer dizer que só pagaremos o que devermos, o que deixa sem sentido as penas eternas, sem fim, dos teólogos.

De tudo isso se infere que a ressurreição é mesmo só do espírito, quer no mundo espiritual, provisoriamente, ou em definitivo, quer na carne, quando se dá a reencarnação do espírito. Isso, segundo a Bíblia. A tese teológica de que é a carne ou o corpo material que ressuscita não é, pois, da Bíblia, mas de um dogma polêmico, desde que a reencarnação foi condenada (há dúvidas sobre se houve mesmo sua condenação) no Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 553. É tão polêmico esse dogma da ressurreição da carne, que a Igreja o incluiu no Credo rezado nas missas, desde sua proclamação.

A ressurreição do corpo é de fato um contra-senso, pois como haver matéria no mundo espiritual? E para que a ressurreição da matéria, não basta a do espírito? Para que tanta exaltação da matéria? E estaria Jesus enganado, quando disse: “A carne para nada aproveita, o que importa é o espírito que dá vida”?

Atribui-se a Santo Atanásio a autoria da frase: “Creio na ressurreição da carne”. Mas, segundo alguns pesquisadores desse assunto, ele teria dito: Creio na ressurreição na carne, e não da carne!

Autor de “A Reencarnação Segundo a Bíblia e a Ciência” (Ed.Martin Claret), entre outros livros. E-mail: jrchaves@redevisao.net