A paz vem de Deus

Jornal Mundo Espírita de Abril de 2001

Documento remetido pelo tribuno e médium Divaldo Pereira Franco ao Sr. Bawa Jain, Secretário Geral do Encontro de Cúpula Mundial de Líderes Religiosos e Espirituais pela Paz Mundial.

Herança do primarismo, que ainda predomina em a natureza humana, a guerra é vestígio de barbárie que necessita ser extirpada da Terra. Quando acossado, esfaimado ou atormentado pelo cio, que lhe faculta a procriação, o animal ataca e mata. O ser humano, no entanto, preservando essa herança ancestral, também se faz agressor do seu irmão, vitimado por fatores de profunda perturbação emocional, mental, social, econômica, religiosa, étnica, cultural, demonstrando que ainda não se identificou com Deus, ou se O conhece, o seu relacionamento é superficial ou fanático, não lhe havendo permitido uma perfeita sintonia com a paz que dEle se irradia, e que deve estender-se por todo o mundo. A paz é resultado da Lei natural - o amor - que vige em toda parte do Universo. Quando o sentimento de amor, que se encontra na base e na estrutura de todas as Doutrinas religiosas, se apossa dos sentimentos humanos, espalha-se e dirige todas as formas de comportamento, gerando saudável intercâmbio entre as criaturas, que se ajudam reciprocamente, contribuindo para a felicidade uma das outras, evitando qualquer tipo de relacionamento agressivo ou belicoso.

No entanto, porque o desenvolvimento intelectual do ser humano não se fez acompanhado daquele de ordem moral, homens e mulheres, grupos sociais e Nações ainda não conseguiram libertar-se da constrição do ego, que se lhes torna verdadeiro algoz, propelindo-os para a alucinação preconceituosa de falsa superioridade, que se destaca na conduta social, religiosa, econômica, racial, patriótica e espiritual, impulsionando essas suas vítimas - do egotismo - na direção das calamidades destrutivas, quais as perseguições inclementes que culminam nas guerras hediondas. Esse egoísmo avassalador é responsável pelo nascimento e crescimento do poder impiedoso que se apresenta na economia pessoal, nacional e internacional, fomentando a miséria de outros indivíduos e povos que lhe jazem sob o domínio insensato e perverso. Enquanto acumula fortunas incalculáveis, que somente podem ser mensuradas através de equipamentos de tecnologia avançada, centenas de milhões de outros indivíduos estorcegam na miséria, sem a menor dignidade humana, experimentando a fome, a desolação, as doenças pandêmicas e dilaceradoras variadas e a promiscuidade de toda natureza, havendo perdido, inclusive, o direito de existir...

Esses bolsões de miséria econômica, que proliferam mesmo nos países supercivilizados, constituem cânceres em desenvolvimento no organismo social, que terminam por degenerar, mais cedo ou mais tarde, a sociedade como um todo, ameaçando a própria vida inteligente na terra. Isto porque, os seus gritos de dor e de angústia, mesmo que abafados pelo estardalhaço das paixões desgovernadas naqueles que os oprimem, terminam por alcançar-lhes os ouvidos da alma, atormentando-os e produzindo neles a consciência de culpa, pela responsabilidade que lhes diz respeito nesse clamor resultante do desespero que envolve o planeta em que habitamos. Ninguém pode ser feliz a sós, ou apenas no seu grupo de fantasia e prazer, porquanto, embora a fortuna em que se refestela, não se pode evadir da presença interna de Deus, exteriorizando-se como libertação da anestesia do desinteresse pelo próximo; das enfermidades, que fazem parte do programa existencial do ser biológico e se encontram ínsitas na fragilidade orgânica; dos conflitos de natureza psicológica; dos desvios do comportamento mental; da solidão; da frustração e da falta de objetivo existencial, que se faz reconhecido como um vazio interior.

O ser humano foi criado por Deus para a glória estelar. Transitando pelas paisagens terrestres, onde desenvolve as potencialidades interiores que são herança divina nele insculpidas, tem por missão melhorar o mundo, que lhe serve de escola, promovê-lo, intercambiar valores morais, culturais, artísticos, tecnológicos e espirituais, trabalhando para a aquisição da paz interna e da plenitude, que deverá espalhar em volta dos passos, propiciando-as a todos os que o seguem na retaguarda.

A Humanidade cresce, etapa a etapa, em razão das conquistas ancestrais, que passam de uma a outra geração, sempre enriquecidas pelas experiências de engrandecimento e de sabedoria. Nesse ministério incessante, muitos homens e mulheres, se permitem sacrificar: uns na abnegação, outros na pesquisa incessante, outros mais em holocaustos pelos ideais que esposam e são prematuros, portanto, inaceitáveis nos seus dias, abrindo espaços para a sua implantação no futuro... De Sócrates, incompreendido e sacrificado, a Jesus Cristo, perseguido e assassinado, a Ghandi, a Martin Luther King Júnior, vitimados pela loucura da perversidade, disfarçada de preconceitos e hediondez, o fenômeno criminoso se repete, ameaçando as estruturas sociais e culturais, em vãs tentativas de impedirem que sejam eliminados o sofrimento e a desgraça social e econômica na Terra. Assim mesmo, lentamente embora, as criaturas vêm crescendo espiritualmente e aprendendo a respeitar o pensamento e a ação dos missionários do Bem e do Amor, que se convertem em vexilários da paz e fraternidade entre os povos, promovendo as criaturas humanas individualmente e a sociedade como um todo. Dessa forma, quando todos os religiosos se unirem nos fundamentos essenciais das suas diversas Doutrinas - Deus, imortalidade da alma, justiça divina, amor, fraternidade, perdão e caridade em relação ao seu próximo - esquecendo as pequenas diferenças, que decorrem das interpretações e exegeses, haverá o desarmamento interior dos indivíduos e, conseqüentemente, o entrosamento de todos, dando surgimento a um só bloco de seres humanos, harmônico e compacto, materializando o ensinamento de Jesus. Um só rebanho e um só Pastor, que será Deus, não importando o nome que se Lhe atribua, ou a forma sob a qual seja venerado.

Para que esse desiderato se faça alcançado, torna-se urgente a erradicação da miséria moral e as suas conseqüências imediatas: a social, a econômica, que vitimam e enlouquecem quase três quartas partes da Humanidade. Os governos compreenderão, por fim, que se torna uma necessidade de emergência a elaboração de programas de salvação, como a educação, a saúde, o saneamento de regiões infestadas, o trabalho digno, sem a utilização de mão-de-obra escrava, a recreação e os cuidados especiais com a criança, trabalhando-a moralmente, como medida preventiva, para que se evite o surgimento no futuro de cidadãos perversos e vingadores. Porquanto, tudo aquilo que a sociedade no momento negar aos seus coevos, eles o tomarão logo possam pela violência, quando as circunstâncias lhes permitirem. Educar, portanto, as novas gerações, dignificando-as, é terapia moral que prevenirá o porvir das calamidades que hoje assolam as ruas das pequenas e grandes cidades do mundo, das aldeias ou das megalópoles que se tornam, a cada dia, mais vítimas de insuportáveis agressividades e violências, transformadas como se encontram em palcos de guerras urbanas, embora vicejando a paz...

Por outro lado, o trabalho de conscientização política dignificadora, que os religiosos do mundo poderão empreender, evitará que personalidades psicopatas e extravagantes, portadoras de programas de extermínio e de crueldade, se apossem do poder e repitam as tragédias de canibalismo, de genocídio, de vandalismo, de guerras cruéis e ininterruptas, conforme vêm acontecendo.

O indivíduo religioso e espiritual tem o dever de descobrir que a sua vida somente tem um sentido: servir à Humanidade. E nesse mister, é convidado a empenhar-se para alterar o contexto da sociedade em que vive, mesmo que lhe seja necessário o sacrifício como forma de extirpar do mundo o crime, as agressões, o fanatismo de qualquer expressão, fomentadores das pequenas e grandes guerras que espocam diariamente em toda parte.

As tensões sociais e humanas, conseqüentemente, desaparecerão quando as criaturas se desarmarem e se amarem, se derem as mãos e intercambiarem os sentimentos de solidariedade e de amor, porquanto essa é a recomendação de Krishna, de Moisés, de Buda, de Lao-Tseu, de Jesus-Cristo, de Mahomé, de Lutero, de Allan Kardec, de Baha-ú-la e de todos aqueles que trouxeram para a Humanidade a Mensagem libertadora do PAI CRIADOR, em favor de todos os Seus filhos, portanto, irmãos entre si. Com esse propósito no imo dos sentimentos e da mente racional e lúcida, desaparecerão os focos de atritos, de paixões religiosas, de dominações políticas arbitrárias, de perseguições de todo jaez, e a paz lentamente estenderá o seu psiquismo de harmonia nos indivíduos, nos grupos sociais, nos povos e em todas as Nações da Terra.

(Jornal Mundo Espírita de Abril de 2001)