Afonia Espiritual (*)

Amélia Rodrigues (espírito)

Convidando Mateus a segui-lO em clara manhã arrebatadora de luz, os fenômenos produzidos por Jesus sucediam-se como se uma sinfonia de bênçãos alcançasse as massas sofridas e desiludidas dos caminhos...

Eles haviam esperado tanto por aquele momento! As notícias procediam de todo lado, trazidas pelos ventos anunciadores de esperanças. Fazia tempos que somente a dor era ouvida, na razão direta em que os socorros se tornavam escassos, quando não chegados. As sementes, que foram atiradas ao solo da fé, não conseguiram germinar, conforme seria de esperar-se, e uma terrível desolação tomava conta do povo abandonado de Israel..

Jesus chegou, e todas as vistas foram dirigidas no Seu rumo.

Desconhecido, Ele passeava a Sua misericórdia envolta em compaixão e entendimento. Porque conhecesse aquele povo e suas dores, usava de brandura e piedade, ajudando-o a sair do desencanto e da desconfiança.

Pior, às vezes, que as enfermidades, são os tormentos da alma, a perda do sentido existencial, a indiferença ante o que possa acontecer. Essa era, pois, a paisagem moral que Ele viera alterar, ensementando amor nos corações e luz nas sombras densas da ignorância.

Jamais alguém assim o fizera. Os profetas, raramente sentiam as angústias do povo; antes, ameaçavam-no, admoestavam-no, anunciavam tragédias. Bem poucos houve que trouxessem a chuva de misericórdia para as suas ardentes inquietações.

Ele, porém, por onde passava, deixava um rastro de estrelas iluminando a noite dos caminhos. Cânticos de gratidão e de glória se levantavam para bendizer-Lhe os feitos.

...E Ele seguia, tranqüilo e suave, como as nuvens garças carreadas por ventos brandos no azul do céu...

Não fazia muito e ele trouxe de volta ao turbilhão da vida física, a menina tida por morta. A catalepsia condenava-a à sepultura, quando Ele percebeu que ainda vivia e solicitou que todos saíssem do ambiente _ músicos, carpideiras, familiares e curiosos _ chamando-a para que retornasse, o que aconteceu de imediato.

Ainda não se haviam silenciado as vozes da alegria, quando ele libertou da treva os cegos que se lhe aproximaram suplicando apoio. Antes mesmo que esses se dessem conta do ocorrido, recomendou-lhes que não dissessem nada a ninguém. Ele não necessitava de propaganda, e muito menos de reconhecimento humano.

O perfume do amor impregna sem aguardar nada em troca. E Ele era o amor que não seria amado, por mais que fizesse em favor de todos quantos se Lhe acercassem.

Mas eles não O atenderam, e o seu júbilo era tal, que narravam o acontecimento por toda parte, proclamando-Lhe o feito incomum, jamais antes acontecido.

Era natural que outros infelizes fossem-Lhe trazidos pelo povo ávido de fenômenos e possuidor de necessidades incomuns...

De lugar em lugar, repetiam-se as maravilhas, e as multidões se tornavam mais volumosas, a fim de O verem, O tocarem, qual o fizera a mulher que padecia de um fluxo de sangue, assim conseguindo a cura. A sua havia sido a fé que transporta montanhas, e se tratava de uma estrangeira, mas que acreditara no Seu poder.

As sinfonias são peças muito complexas e ricas de melodias que se completam em favor da harmonia do conjunto. A sua era uma sinfonia incomparável de ações ininterruptas, atingindo o clímax para logo recomeçar.

Assevera o evangelista Mateus, que lhe trouxeram um mudo, que se encontrava dominado por um Espírito perverso, impossibilitando-o de falar.

A obsessão era evidente, e o sofrimento da vítima era visível.

Sofria essa afonia espiritual, em resgate necessário face aos delitos perpetrados anteriormente, quando falhara nos seus compromissos morais em existências passadas. Colhido pela austeridade da Lei, sofria a angústia da mudez, ampliada pelo assédio do ser infeliz que o dominava, desforçando-se do que antes lhe fora imposto sem qualquer sentimento de piedade.

Jesus devassou aquelas duas vidas que se digladiavam na esfera espiritual, detectando o invasor daquela existência, na prepotência comprazendo-se.

Em silêncio, psiquicamente admoestou o indigitado cobrador, e expulsou-o das matrizes espirituais do seu hospedeiro. Cessada a causa do mutismo, o enfermo recobrou a voz, e pôs-se a falar com entusiasmo, enquanto as lágrimas lhe escorriam em festa pelos olhos desmesuradamente abertos.

Ante a louvaminha dos entusiastas observadores, esfaimados de luz e de paz, Jesus lamentou quão grande é a seara e quão poucos são os ceifeiros!

Ele sabia que todos aqueles sofrimentos eram justos, em razão dos desmandos daqueles que os padeciam. Reconhecia, porém, que os homens e mulheres se encontravam tão envolvidos pela ignorância e pelo imediatismo, que se fazia necessário um número muito grande de servidores devotados, para que fossem diminuídas as causas das aflições, através da renovação moral das massas...

Muitas vezes, acompanhamos referências bíblicas sobre a Palavra como sendo sinônimo de Deus, do Pai Criador, que elegera Jesus pelos Seus méritos para vir ter com as criaturas humanas no proscênio terrestre sombrio e triste. A palavra também constitui doação divina para que as criaturas se comuniquem, se enriqueçam, permutem experiências, contribuam em favor do progresso e da felicidade. Ela tem sido de valor inestimável através dos tempos e em todos os povos. No entanto, o seu uso indevido responde por violências, vilipêndios, calúnias, agressões e guerras... Vestida de luz, rompe a escuridão dos conflitos e abre espaços para a conquista da plenitude. Traduz a inspiração do Alto em cânticos de louvor e de glórias, imortalizando os pensamentos e as emoções.

Aquele obsidiado era mudo. Tinha as cordas vocais paralisadas sob a ação dos fluidos deletérios do seu perseguidor. Tentava comunicar-se e encontrava-se em silêncio. Jesus restituiu-lhe o verbo, e ele proclamou a glória de Deus.

Há, no entanto, multidões que falam e são mudas em relação aos valores eternos do Espírito, sem contato com Deus.

Expressam os seus pensamentos, porém, emudeceram em relação à Vida, vitimadas pelo materialismo, pelas ambições desmedidas, pelo egoísmo exacerbado.

Essa mudez leva à loucura, porque desestrutura o pensamento e desarmoniza os sentimentos.

São mudos, presunçosos e abarrotados de palavras vazias, que não têm som, porquanto estão adstritas às suas paixões, sem que possam alcançar os patamares superiores da vida, transformando-se em estrelas inapagáveis nos céus de outras existências.

Jesus, porém, os aguarda pacientemente pelos caminhos sombrios por onde seguem, falantes, mas sem palavras de libertação, antes portadores do verbalismo que escraviza e alucina.

Esses palradores-mudos para as questões espirituais formam verdadeiras multidões sem rumo, que um dia encontrarão Jesus, que os libertará das auto-obsessões, das obsessões produzidas por adversários inclementes que os aturdem, das desordens mentais em que estertoram.

Naquele dia, trouxeram-lhe um mudo que era atenazado por um Espírito infeliz, e Ele o libertou!...

Dia virá, no qual, os mudos-falantes O encontrarão, e após curados, passarão a falar sadiamente.

(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, na noite de 11 de julho de 2000, em Paramirim, Bahia.)

(*) Mateus: 9, 32 e seguintes.
Nota da Autora espiritual.

(Jornal Mundo Espírita de Agosto de 2000)