Cirurgias e curas mediúnicas (II)

Enrique Baldovino

Desejando dar continuidade a este delicado tema, tecemos agora algumas reflexões acerca das instituições mediúnicas - ditas «espíritas» - que se dedicam a esse mister.

O VOCÁBULO ESPÍRITA - Essas associações mediúnicas ou pessoas particulares que realizam cirurgias ditas espirituais, pelo Brasil afora, bem que poderiam ser mais honestas e verdadeiras consigo próprias e com o público em geral, retirando a palavra «espírita» das suas respectivas denominações (palavra criada por Allan Kardec a 18 de abril do ano 1857, para denominar os adeptos da Doutrina Espírita, que por sinal nada têm a ver com as cirurgias mediúnicas), colocando nos seus agrupamentos - religiosos, filosóficos, científicos ou não - a palavra espiritualista ou outra denominação que não seja a espírita, a fim de não mais confundir propositadamente o povo, no tocante ao que é Espiritismo e ao que não é, ao que é mediunidade com Jesus e ao que é simplesmente Mediunismo.

IRRESPONSABILIDADE - Respondendo a uma pergunta do público, o médium Raul Teixeira falou (no III Simpósio Paranaense de Espiritismo, realizado em Curitiba em 8, 9 e 10 de agosto/97) que muitas das pessoas que enfrentaram esse tipo de «operação cirúrgica espiritual», submetendo-se a instrumentos cortantes de todo jaez, hoje encontram-se - numa grande quantidade - paraplégicas ou tetraplégicas, ou com seqüelas e amputações graves produzidas pela mão dum irresponsável, dito doutor espiritual (seja Espírito ou médium), que, em poucos minutos e em nome da insensatez, acha que pode suprir o árduo conhecimento dos médicos, haurido em largos anos de estudo universitário em favor da Humanidade. No mesmo Simpósio, disse que as pessoas, em geral, que se referem às cirurgias mediúnicas como sendo uma verdadeira panacéia, não têm uma postura investigativa séria, porque teriam de fazer um detalhado e profundo acompanhamento após esses casos de pseudo-curas, para saberem as reais condições de como ficou a pessoa atendida após o «ato cirúrgico».

Nós somos do pensamento que as pessoas são livres para freqüentar o lugar que prefiram. É uma questão de liberdade e de consciência. Mas não podemos deixar de considerar que, muitas vezes, por situações limites de dor pelas quais passam, ou ante a iminência de não saber o que fazer ante o sofrimento de um ser amado, essas pessoas, muitas vezes desavisadas, mal informadas ou enganadas por pseudo-religiosos, procuram esse tipo de tratamento, onde lhe é proposta a «terapia espírita» das operações cirúrgico-mediúnicas.

Aí é que nós, os que realmente nos chamamos de espíritas, entramos na questão, porque em verdade eles poderiam haver proposto aos seus «clientes ou pacientes» uma terapia mediúnico-cirúrgica ou simplesmente espiritualista, sem ostentar na legenda das suas instituições o qualificativo «espírita», mas preferem valer-se da seriedade e do prestígio que o Espiritismo goza na sociedade brasileira e mundial, para macular e servir-se do nome da veneranda Doutrina Espírita, em atenção a seus caprichos e vaidades personalistas. Por outro lado, se esses agrupamentos não se auto-intitulassem de «espíritas», nenhum problema haveria, porque eles próprios seriam responsáveis ante a lei pelos atos praticados (ainda que o Espiritismo não concorde com esse atos), tendo essas denominações religiosas espiritualistas suas próprias convicções respeitadas, como o amparo da Constituição do Brasil, na parte da Liberdade de Cultos.

DESINFORMAÇÃO, IGNORÂNCIA OU MÁ FÉ - Vale salientar que os vocábulos espiritualista, espiritual e espiritualismo têm já uma acepção bem definida, como oportunamente disse Allan Kardec ao começar a sua Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, que se encontra na primeira página de O Livro dos Espíritos. Dar-lhes uma nova para as aplicar ao Espiritismo seria multiplicar as causas já numerosas de anfibologia (ambigüidade lingüística). Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem crê haver em si outra coisa que a matéria, é espiritualista (a maioria das religiões conhecidas - ainda que com diferenças de interpretação - acreditam na sobrevivência da alma, sendo, portanto, espiritualistas). Mas não se segue daí que possuam todos os postulados ou princípios básicos que norteiam a Doutrina Espírita (Existência de Deus; Existência e Imortalidade da Alma; Reencarnação; Comunicabilidade dos Espíritos e Pluralidade dos Mundos Habitados). É por isso que o sábio codificador Allan Kardec complementa, na fonte citada: «Em lugar das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos para designar esta última crença (a Doutrina Espírita) as de espírita e de Espiritismo, das quais a forma lembra a origem e o sentido radical, e que, por isso mesmo, têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, reservando à palavra espiritualismo a sua acepção própria. (...) Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas ou, se o quiserem, os espiritistas. (...) Com uma palavra para cada coisa, todo o mundo se entenderia».

E nós sabemos, pela desinformação que algumas pessoas possuem - umas por ignorância, outras por má fé -, que elas acreditam que onde haja Espíritos ou médiuns, aí há Espiritismo, quando realmente não é bem assim. A mediunidade não é patrimônio da Doutrina Espírita; os Espíritos comunicam-se com os homens desde a mais remota antigüidade. O que o Espiritismo fez, a partir do ano de 1857, foi reunir a gama de fatos e feitos mediúnicos, dar-lhes uma classificação e uma denominação específicas, destacar os valores ético-morais de sua prática, nortear-lhes sua utilidade e explicá-los claramente ao público.

CONCLUSÃO - Uma última questão a considerar: os respeitáveis médiuns espíritas Francisco Cândido Xavier, Divaldo Pereira Franco e José Raul Teixeira conhecem (pelo Brasil afora) e discordam das pessoas que vivem economicamente deste tipo de «negócio das consultas cirúrgicas», dedicando quase todas as horas do dia e da noite a atender nas suas residências, ou noutros locais (quem pagará o aluguel?), lucrando monetariamente com a dor alheia. Outros dizem que não cobram nada, mas sempre pedem alguma coisa em troca pelo seu «serviço» (quem paga os materiais descartáveis ou não, usados nas «operações»?). Outros, ainda, abandonam literalmente seus compromissos familiares e profissionais para «dispor de mais tempo», a fim de atender diuturnamente, explorando cada vez mais o povo sofredor.

Não seria mais leal e humano encaminhar os portadores de problemas físicos diretamente aos médicos, a esses dignos profissionais da Medicina, os quais estudaram anos a fio para exercer tão nobre profissão? Usemos o bom senso!

Conseqüentemente, tanto na teoria quanto na prática, as cirurgias e operações mediúnicas ditas espirituais e a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec estão situadas em campos totalmente distintos, e não podem ser a «mesma coisa», como geralmente se diz. Essa distinção, aliás muito clara - como costumava falar o saudoso Deolindo Amorim -, não impede, todavia, que haja respeito mútuo, espírito de compreensão e tolerância, sem ser necessário chegar-se ao extremo de forçar a fusão de crenças e de práticas totalmente divergentes. Em matéria religiosa (não há quem não saiba disto) cada qual se inclina para o lado que lhe agrada. É problema de consciência. Nosso objetivo é apenas este: deixar suficientemente esclarecido que as operações e cirurgias mediúnicas ditas espirituais não constituem, de forma alguma, variante nem modalidade do Espiritismo.

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1998)